Praxe, para que te queremos?
Opinião2012Cassilda PascoalJá passavam das dez da noite de sexta passada quando começou a correr a noticia de um comunicado, a que chamaram informatio, que suspendia a praxe académica em Coimbra. A noticia poderia ser motivo de festejo para todas as pessoas que defendem o cumprimento da Declaração Universal de Direitos Humanos, mas só para as que desconhecem a alienação profunda que a prática exerce sobre os praxistas de Coimbra. Perante tal comunicado, o informatio, não restaram duvidas de que algo grave se teria passado. Rapidamente, os mais permissivos e menos críticos especularam sobre a existência de violência física, completamente alienados da violência emocional e verbal constantemente presente em todas as práticas praxistas, ao passo que os mais críticos cedo perceberam que o “informatio”, divulgado numa sexta à noite em véspera de férias, não passaria de uma estratégia para abafar e evitar que venham a ser denunciados sucessivos abusos de poder legitimado por um código de praxe sem qualquer validade legal.
Diz-se então que um “doutor” (aluno do ensino superior, sem qualquer titulo académico que adere a tradições académicas praxistas) embriagado (estado normal da larga maioria dos “doutores”, caso contrário são chamados de “meninos”) não gostou de ser desobedecido por duas Caloiras (alunas do primeiro ano a quem lhes é dito que se não andarem em manada não terão amigos) do curso do Psicologia e tratou de as mandar para os hospitais de Coimbra.
Parece que a suspensão da praxe terá sido uma maneira arranjada pelo Conselho de Veteranos (grupo de alunos que se recusam a deixar a Universidade no prazo mínimo de 7 anos) para que o dito “doutor” se possa esquivar ao tribunal de praxe (“tribunal” sem qualquer legitimidade legal onde praxistas brincam à justiça).
Segundo o JN, o caso de agressão física seguiu para os tribunais civis.
E para os tribunais civis deveriam seguir sempre todos os actos de repressão, opressão e violência quer seja física, emocional ou verbal em que se baseia a praxe.
Humilhação, machismo, homofobia, racismo, xenofobia, perseguição religiosa, são constantes nas “brincadeiras” e cânticos das praxes de Coimbra, que contribuem para a alienação de jovens que se esperavam esclarecidos e socialmente activos.
A sociedade conimbricense não só não parece condenar todo este desinvestimento na formação de cidadãos naquela cidade como ainda, perante situações de “opressores-oprimidos” que se passam no espaço público, parece adoptar a obsoleta máxima “entre marido e mulher ninguém mete a colher”.
Não podemos continuar a encarar as tradições académicas como uma coisa alheia à sociedade. Deverão ser as Universidades os locais de excelência para o culto de uma cidadania plena, que rejeite a discriminação e preconceito e privilegie o respeito, a dignidade e liberdade de qualquer pessoa, independentemente da sua origem sócio-económica, religião, género, orientação sexual, etnia, formação académica e até o numero de matriculas.
Todos e todas aquelas que defendem a dignidade humana e o cumprimento da Declaração Universal dos Direitos Humanos não podem ter outra postura se não a rejeição e o repúdio a uma prática e desrespeita o ser humano.