A esperança ainda mora em Porto Alegre
Combate, fevereiro de 2003, edição em linha
Jornal2003A certidão de óbito passada ao Fórum Social Mundial (FSM) pelos arautos da globalização capitalista, logo a seguir a Setembro de 2001, veio revelar-se precipitada: afinal, em 2002 a participação crescia apesar dos esforços para a criminalização do movimento e a legitimação de Porto Alegre na agenda global como alternativa ao neoliberalismo foi conseguida.
Nessa altura, debatia-se acaloradamente o anunciado desfile dos ministros da social-democracia europeia no FSM e dos que saltitavam de Davos para Porto Alegre. Agora, em 2003, a situação foi a inversa: sem governantes europeus, os muitos ministros do governo brasileiro que apareceram no FSM foram recebidos com aplausos entusiastas e Lula assumiu o papel de enviado de Porto Alegre para ir marcar também a agenda de Davos.
Um fórum em grande
Mais de cem mil pessoas a participar em debates e conferências, mais de vinte mil delegados em representação de ONGs e do movimento associativo de 158 países, mais jornalistas credenciados do que delegados na primeira edição do Fórum. É precisamente nos números que se vê a principal diferença deste terceiro FSM e deste crescimento surge o debate sobre o seu modelo no futuro.
A organização do Fórum sofreu bastante com o aumento da participação, que implicou a descentralização do espaço físico dos encontros por vários pontos da cidade. Com cerca de 1300 oficinas de debate previstas para acontecer naquela semana, para além das conferências centrais e de outras iniciativas paralelas, o programa das actividades só foi distribuído dois dias depois do arranque oficial do FSM. Estas dificuldades mostram que a actual dimensão do Fórum acaba por não servir os seus propósitos originais: uma das críticas mais vezes repetidas é a da imposibilidade prática de aprofundar debates em que participam milhares de pessoas na mesma sala.
Uma oferta destas tornou a vida difícil a muitos participantes, não só para assistir como para destacar alguns momentos, como os diálogos para a paz entre activistas de Israel e Palestina, que no último dia leram uma declaração conjunta no palco para uma plateia emocionada; ou o lançamento do "Brasil de Fato", um semanário de grande circulação comprometido com as lutas sociais, num comício/festa com João Pedro Stédle, Hebe de Bonafini, Eduardo Galeano, Sebastião Salgado, entre outros; ou ainda o desenvolvimento do projecto do Observatório Internacional dos Media, lançado no Fórum de 2002 por iniciativa do Le Monde Diplomatique..
Com o planeta a contar as semanas para o despoletar de uma nova agressão militar em larga escala por parte dos EUA no Iraque, a guerra foi o tema político nº 1 do Fórum. Das conferências em tom de comício para um pavilhão sempre acima dos dez mil espectadores - Tariq Ali, Galeano, Leonardo Boff, Arundathi Roy e tantos outros - às grandes manifestações de abertura e encerramento do Fórum, sob o lema "contra a guerra, a ALCA e o neo-liberalismo".
Uma nova fase
Até agora, o FSM afirmou-se como um espaço aberto para o debate de alternativas ao neo-liberalismo e não um ambiente dominado pelas votações e tomadas de posição que possam comprometer mais do que quem as subscreve. Essa diversidade torna impossível haver uma lista de "conclusões" ou "orientações" dum espaço desta natureza. Um dos debates que mais importantes que atravessou o movimento reflectiu-se também nas decisões do colectivo de entidades e pessoas que organiza o evento. A partir de agora, o FSM deixa de estar amarrado às datas de Davos, ou seja, passa a reger-se por uma agenda própria. Esta evolução está de acordo com quem acha que situação actual não corresponde já às necessidades do movimento. Ou seja, depois de um primeiro momento de crítica ao neo-liberalismo e aos efeitos da sua política, e de uma segunda fase em que se traçaram políticas alternativas e se mostrou que "um outro mundo é possível", o Fórum deverá agora definir estratégias e ser um espaço de articulação das lutas.
É nesta direcção que foram dados os primeiros sinais do pós-3º FSM. Ao manter a decisão de realizar o próximo Fórum na Índia, o movimento assume o risco e opta por dar maior peso aos Fóruns regionais e nacionais, depois do sucesso de Florença e Hyderbad em 2002. Quito, Vancouver e Paris no próximo mês de Novembro são as cidades que acolhem os Fóruns regionais. Estes importantes testes à articulação do movimento - sem esquecer a cimeira do G8 de Evian (França) e da OMC em Cancun - a par do desenvolvimento das propostas lançadas no Fórum - como a da "universidade dos movimentos sociais" de Boaventura Sousa Santos - conduzirão no futuro aos novos espaços de encontro necessários.
Entretanto, em Porto Alegre já se trabalha para voltar a receber o Fórum, em 2005. Apesar das eleições para o Governo do Rio Grande do Sul terem sido amargas para o PT, o novo governador Rigotto - vaiado em todas as vezes que apareceu no FSM - não quer deixar fugir um evento com peso na economia local e que projecta a região no mundo.
Luís Branco
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.