combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Contratempos

maio de 1999 · Jornal · 1.565 palavras

Últimas · Combate, primavera de 1999, edição em linha

Ú L T I M A S

Lobos com pele de cordeiro

Dignidade do parlamento

Números e factos

Citações sobre a guerra

"Acidentes" a calhar

Horta, o guerreiro

Chiquita, o polvo

Hugo boss, chiquérrima

Marxismo por linhas tortas

Guerreiro imortal

LOBOS COM PELE DE CORDEIRO

O PS e o PSD são partidos da guerra, mas às eleições querem apresentar-se com pele de cordeiro. De Soares já se sabia, depois soube-se também do PSD com Pacheco Pereira em cabeça de lista e Graça Moura logo a seguir – todos os três tendo falado contra a guerra, ao menos da boca para fora. E com isto, tudo fica às avessas: onde normalmente a nomeação dum cabeça de lista desperta curiosidade pelas suas ideias sobre questões fundamentais, desta vez vai trazer novos "tabus", como sói dizer-se. Pacheco falava livremente sobre a guerra até ser promovido a primeiro candidato, mas agora já anunciou que vai calar-se sobre esse tema menor.

Na verdade, os candidatos que travestem os seus partidos-lobos como se de cordeirinhos pacifistas se tratasse, não anunciam nenhuma inflexão na política de guerra. Eles foram escolhidos, e prestaram-se a isso, por mera concessão à sondajocracia, perante uma guerra impopular.

DIGNIDADE DO PARLAMENTO

No meio da carnificina dos Balcãs, a Assembleia da República agendou a discussão sobre os touros de morte. Podia dar-lhe para pior. Na verdade, até deve louvar-se o sentido de oportunidade deste agendamento, pelo seu alto valor simbólico. Se o parlamento não é ouvido sobre quem são os inimigos do país, ou quem são os amigos e as alianças onde ele participa, se não escolhe onde são despejadas as bombas dos F-16 portugueses, se é fintado pelo SIS no caso dos relatórios virtuais, se é escarnecido por Cravinho sobre a privatização da TAP, então ao menos que mantenha a dignidade dum órgão de soberania capaz de discutir sobre .. a ponta dum corno.

NÚMEROS E FACTOS

Na Guerra do Golfo, em 1991, a aviação americana apenas conseguiu localizar 8 de 43 rampas móveis para o lançamento de Scuds.

O exército jugoslavo dispõe de dez divisões. Calcula-se que a NATO precisaria de 15 a 20 divisões no solo para poder combatê-lo eficazmente

Em caso de ofensiva terrestre, a NATO deveria contar com uma média de 2.000 baixas mortais por dia. No lapso de um mês haveria tantos mortos da NATO como mortos americanos na guerra do Vietname.

Logo nos primeiros dias da guerra, a Alemanha e a Áustria disseram-se dispostas a acolher 15.000 refugiados kosovares, Portugal 1.500. Entretanto já havia na Albânia 360.000.

Na Segunda Guerra Mundia, perderam a vida 1.706.000 jugoslavos.. Mais de um milhão esteve em campos de concentração.

CITAÇÕES SOBRE A GUERRA

Participei nos protestos contra a Guerra do Golfo em 1991 porque sou contra a guerra como instrumento da política. Agora sou membro dum partido que em menos de 200 dias de governo já ordenou a primeira guerra de agressão da República Federal Alemã.

Tilman Heller, membro da direcção berlinense do Partido Verde, ao anunciar a sua saída do partido.

Quanto mais depressa os Verdes estiverem acabados para pessoas com aspirações emancipatórias e de esquerda, mais depressa se libertarão tempo e recursos para novos projectos políticos – seja como partido seja sob outras formas organizativas.

Idem

"De tempos a tempos é necessária uma agressão contra um Estado soberano. Eu estou agradecido aos americanos por terem atacado Hitler."

General Bernd Müller, da Bundeswehr

"ACIDENTES" A CALHAR

Pode ter sido um "acidente" o bombardeamento duma coluna de refugiados kosovares pela NATO. Essa foi pelo menos a explicação oficial. Mas que ele deu muito jeito à política da Aliança, lá isso deu. Já há umas semanas que os chefes da coligação imperialista acusam Milosevic de estar, com a sua brutal limpeza étnica, a lançar "bombas humanas" para os braços dos países vizinhos. Os frágeis governos desses países vivem numa instabilidade cada vez maior. Quando se levantou um clamor humanitário para serem acolhidos refugiados kosovares nos países bombardeiros, logo estes se apressaram a fechar-lhes as portas. Que era para poderem voltar, diziam, compungidas, as Boninos, as Barrosos e outras senhoras especializadas em tendas e cobertores. Mas – os que não querem voltar? Os que querem mesmo emigrar? Esses são, sem dúvida, "bombas humanas". Para os dissuadir de virem, nada como massacrar uma coluna deles.

Deu jeito e, desculpem-nos a desconfiança, até parecia de propósito. Se alguma vez houve precisão cirúrgica, foi agora.

HORTA, O GUERREIRO

Interrogado pelo "Público" sobre os bombardeamentos à Jugoslávia, Ramos Horta respondeu o que lhe perguntavam e o que não lhe perguntavam: que achava bem esses e que até já tinha achado bem os bombardeamentos ao Iraque. Perfil baixo, ele só o tem quando se trata de apoiar o apelo de Xanana para a auto-defesa do povo maubere. Aí, o nosso pacifista volta a ser pacifista. Sim, porque isto de povos a auto-defenderem-se cheira a poder caído na rua. Violências exercidas com responsabilidade são só as da super-potência.

O mesmo "Público" recorda-nos que Javier Solana já em tempos também foi pacifista. Será que Ramos Horta está a fazer tirocínio para ser o próximo secretário-geral da NATO?

CHIQUITA, O POLVO

A firma Chiquita Brands International, a grande produtora de banana, festejou agora um século de existência. A gigantesca multinacional é um bom exemplo do que se entende, nos Estados Unidos, por "direitos humanos": expropriação massiva de pequenos camponeses do México, da América Central, da Colômbia e doutros países, pagando-lhes preços simbólicos ou expulsando-os em aliança com os ditadores e corruptas polícias locais; controle sobre linhas de caminho de ferro, estradas, monopólios de água, gás ou telecomunicações.

O grande polvo que originou, mais do que nenhum outro, a depreciativa expressão de "república bananeira" aplicada a diversos países latino-americanos foi uma das forças motoras do bombardeamento da Guatemala por pilotos norte-americanos. John Foster Dulles, antigo advogado de capitalistas nazis e posterior advogado da Chiquita, juntamente com seu irmão, Allen Dulles, então chefe da CIA, foram igualmente dois activos organizadores desse bombardeamento que conduziu à demissão do governo reformista de Jacobo Arbenz. 45 anos depois, Clinton reconhece o genocídio de décadas, praticado na Guatemala ao serviço da Chiquita – e manda os seus pilotos iniciarem um genocído noutro lado.

Com grandes plantações em Cuba, a Chiquita foi expropriada pela revolução de 1959 e participou activamente na preparação, financiamento e logística da invasão da Baía dos Porcos. Mas os rios de dinheiro investidos não bastavam para derrotar o povo em armas.

Nos anos 70 o trabalhador duma plantação da Chiquita ganhava em média 70 dólares/ano. As greves que fizeram contra essa autêntica escravatura, e os massacres com que lhes responderam os exércitos privados e as polícias subornadas pela Chiquita, dariam para encher um livro.

HUGO BOSS, CHIQUÉRRIMA

Tempos houve em que a multinacional Hugo Boss não vestia senhoras e cavalheiros: vestia rufias, e vestia-os de castanho. Era ela que aviava as encomendas de uniformes para as SA hitlerianas. Foi com essas encomendas e com a compra a preços de liquidação da propriedade dos judeus, que na altura saíu duma situação de pré-falência.

Hoje, considera-se finíssimo andar com a etiqueta dessa marca. A "linha de senhoras" a apresentar no Verão do ano 2000 é produzida em Milão. E a linha masculina, anunciou-se agora, vai ser produzida em Izmir, na Turquia, com 500 trabalhadores que produzem bem e barato – ou não fosse a Turquia um país onde toda a reivindicação sindical continua a ser esmagada sem contemplações. Tudo lhe corre bem: em 1998 a facturação cresceu "apenas" em 15%, mas os lucros aumentaram em 19%. Vantagens duma fiscalidade cada vez menos exigente, explicaram os gestores sem papas na língua.

MARXISMO POR LINHAS TORTAS

Os processos históricos dão-se uma vez como tragédia e repetem-se depois como farsa – lá diziam os clássicos do marxismo. A AD de Sá Carneiro, Freitas do Amaral e Ribeiro Telles foi uma tragédia para o povo e para o que restava da revolução. A AD de Rebelo de Sousa e Portas começou e acabou como ópera bufa, com Beleza a tentar desesperadamente sobreviver-lhe e a afundar-se finalmente no linguajar das comadres e na barrela dalguma roupa imunda.

Que a terra lhe seja leve. Para confirmar a validade do marxismo bem basta o governo reaccionário do PS, com o socialismo tão sepultado que desta vez nem foi preciso metê-lo na gaveta.

GUERREIRO IMORTAL

Veiga Simão está em todas. Há quase três décadas, era ministro do fascismo e lançava mão dos gorilas no intuito de mandar para a guerra colonial, aos empurrões, os universitários renitentes. Hoje é ministro do PS e só espera pela ofensiva terrestre nos Balcãs para atirar para a fogueira alguma carne de canhão portuguesa – depois da albanesa, a mais barata que existe na Europa. A experiência dos tempos de Caetano é preciosa ao serviço desta nova cruzada. Daqui a mais uns anos, talvez voltemos a encontrar Simão como ministro dalgum outro governo, a mandar os jovens portugueses para a guerra nuclear do terceiro milénio. Ele está em todas, até porque naquele posto onde costuma fazer todas as guerras a esperança de vida é elevada e a probabilidade de morrer em combate é tão elevada como a de fazer passar um "Tomahawk" pelo buraco duma agulha.

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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