Contratempos
Combate, abril e maio de 2003, edição em linha
Jornal2003CINEMA
Bowling for Columbine
Somos todos anti-americanos?
«Era uma manhã como outra qualquer. O Presidente bombardeou outro país, cujo nome não sabíamos pronunciar. E numa vila do Colorado, dois rapazes foram jogar bowling às seis da manhã. Sim, foi um dia típico nos Estados Unidos da América.»
Em voz off, são estas as palavras que preenchem os ecrãs de cinema nos minutos iniciais de Bowling for Columbine, o mais recente filme-choque de Michael Moore. Prenunciando uma militância pouco comum no domínio da realização cinematográfica de massas, os ecos de empenhamento sócio-político de Moore estendem-se muito além da tela. Porque é impossível ficarmos quietos na cadeira, indiferentes ao que perpassa diante dos nossos olhos.
Bowling for Columbine é uma espécie de case study avassalador sobre o comércio de armas nos Estados Unidos. O filme/documentário expõe, com um cru acutilante, um país mergulhado numa paranóia colectiva, potenciada pela poderosa indústria de armamento, pelos meios de comunicação social, pelos interesses corporativos, pelo governo.
A soldo dos valores mais reaccionários e conservadores da boa e velha América rural, o lóbi do armamento é subterrâneo àquele interior da cidadezinha idiota, do «morto» ou «vivo» dos faroestes texanos, do chauvinismo, do nacionalismo e da ignorância feliz, do país branco, católico e tendencialmente Ku Klux Klan. Mais do que a obsessão pelas armas, a obsessão pelo medo.
Moore levanta a tese de um evidente paralelismo entre o imperialismo belicista da Casa Branca e a socialização do medo anónimo entre a população do país. Aliás, ficamos a saber que no dia em que dois adolescentes entraram armados no liceu de Columbine e mataram 13 pessoas também se registou o maior bombardeamento da força aérea americana sobre o Kosovo. O confronto do espectador com esta realidade é uma constante. De resto, um momento maior do filme ocorre ao som de «What a wonderful world», quando uma montagem de imagens de arquivo expõe uma cronologia de intervenções norte-americanas, de 1953 até 11 de Setembro de 2001 - resultado directo do apoio da CIA aos combatentes na jihad afegã anti-soviética.
Em suma, conclui-se que o medo é o melhor nutriente de si próprio e Bowling for Columbine fala claro a seu respeito, evidenciando as suas causas mais profundas - o imperialismo, a ignorância, os fossos sociais, a intolerância, o capitalismo. «O facto de ter conseguido atingir um grande público constitui uma vitória para qualquer pessoa de esquerda.» Michael Moore é taxativo e não deixa espaço a dúvidas, construindo um objecto artístico de propaganda política pela desconstrução da América de Bush. Com uma eloquência tão perturbante quanto imperdível.
Tiago Barbosa Ribeiro
Então, gostaste?
(...)
Mal se acendem as luzes vem a pergunta fatídica. E Bowling for Columbine puxa por ela: parece exigir uma tomada de posição, porque ele próprio toma posição. Mais do que "gostaste?", quase pede um "ficaste convencido?" Essa é uma virtude do filme, tanto quanto é um problema. Porque um documentário assim, assumidamente político e com uma "intenção" tão vincada, corre os riscos desse empenhamento e de se tornar excessivamente explicativo: ninguém pode sair da sala sem ter percebido e sentido a "mania das armas" de certas organizações e, em geral, o culto do pânico na sociedade americana (do terrorismo ao bug do ano 2000, do ataque das abelhas assassinas aos vídeos do cantor pop Marilyn Manson), a protecção paranóica da propriedade e da família, bem como o discurso bélico e a intervenção militar dos governantes norte-americanos. "Norte-americanos" não, que o Canadá é outra história, como demonstra Michael Moore com a anedota das portas de casa dos canadianos fechadas apenas no trinco, sem as "três voltas" dos americanos...
O humor é uma arma, e ainda bem. Mas há sempre os perigos de se ficar pelo anedótico, quando parecia valer a pena uma investigação mais cuidadosa. E outra vez o ponto forte está perto do ponto fraco: a capacidade de ironizar (incluindo uma saudável auto-ironia do realizador/actor) vem, por vezes, reforçar um certo tom demagógico que não está ausente deste filme, na cadeia "argumentativa" que as imagens fortes de Moore conseguem criar.
Não se trata de censurar as imagens-choque de Bowling for Columbine, mas é certo que as mesmas coisas podem ser ditas de formas muito diferentes (deixando assim de ser as "mesmas coisas"). E se há algumas denúncias importantes e muito actuais que o filme faz (por exemplo, o resumo das mais recentes intervenções militares e políticas do governo americano até ao "bumerangue" do 11 de Setembro e à guerra no Afeganistão), também se deixa enredar às vezes numa estratégia "televisiva" ligeiramente maniqueísta, sobretudo na parte final do filme (deixar a foto de uma menina-vítima na casa de um "carrasco", o actor Charlton Heston, membro do NRA, organização neo-fascista, racista e militarista que promove o uso e a compra e venda de armas).
A contradição é assumida, até certo ponto. Por exemplo: o uso sem pudor das mesmas imagens televisivas que são criticadas no filme por contribuírem para uma cultura de medo na sociedade americana, tentando "dar-lhes a volta", pô-las em relação com outros sons (os crimes do governo americano ao som de what a wonderful world...) ou outras imagens. É a força da montagem que fica em evidência, mas Moore faz sempre de maneira arriscada: atrai e convence o espectador usando métodos que o próprio filme aparentemente critica.
Mas é sempre melhor assumir este risco, tomando uma posição clara e não escondendo a sua intenção política, do que disfarçar a propaganda ou fingir-se neutro. E isso, felizmente, Bowling for Columbine não faz.
Pedro Rodrigues
MÚSICA
Natalie Merchant
Uma Mulher
Cantou sobre literatura, contra o racismo, o belicismo, a favor do aborto e, claro, sobre o amor. Bonita, dona de um olhar penetrante e voz cheia, Merchant tem uma maneira afirmativa e atraente de estar na música. Ela busca a perfeição, tanto nas letras como nas composições e não tem medo de falar no que acredita. Representa a mulher livre e insubordinada que vira costas à indústria discográfica norte-americana, tão óbvia e vulgar.
Após a saída dos 10,000 Maniacs, que nos deixaram discos tão preciosos nos anos 80 e 90, Merchant seguiu uma carreira preenchida de boas canções, composições pop sofisticadas, letras atentas, lúcidas e elaboradas.
Até agora, contam-se três inestimáveis discos a solo. No último, Motherland, de 2001, Merchant convidou o conceituado produtor T Bone Burnett para limar arestas. O resultado foi um disco homogéneo na qualidade, mas heterogéneo na variedade. Trata-se de um álbum cheio de surpresas onde se cruzam arranjos orquestrais com power pop e rock. Para cantar em alguns temas convidou a lenda do gospel Mavis Staples e ainda uma figura desaparecida do circuito, sinónima de boas canções – Van Dyke Parks.
Para conhecer Natalie Merchant é importante procurar ouvi-la nos 10,000 Maniacs, especialmente o álbum In My Tribe onde se encontram algumas das canções mais bem conseguidas desta escritora/compositora, convicta cidadã livre.
Discografia a solo:
Motherland, 2001
Ophelia, 1998
Tigerliliy, 1995
Sandy Gageiro
MEMÓRIA
Breve tributo ao Zé Craveirinha (1922-2003)
"Karingana Ua Karingana" foi o primeiro livro de José Craveirinha que chegou às mãos do autor destas linhas no meio daquele entusiasmo sentido com o calor da independência moçambicana.
Na altura, lido com uma paixão desmesurada pela ânsia da afirmação da criação artística naquelas terras banhadas pelo Oceano Indico e percorridas por fortes ventos de mudança.
Daí em diante, abrir-se-iam outras janelas: Rui Knopfli, Noémia de Sousa, Rui Nogar, Luís Bernardo Honwana e Mia Couto na literatura, Ruy Guerra no cinema, ou Malangatana na pintura.
José Craveirinha nascido a 28 de Maio de 1922, no bairro de Mafalala, em Maputo, viveu a sua infância entre "o cimento e o caniço". Dois mundos tão próximos e muitas vezes tão distantes!
Desde muito cedo, começou a escrever. Enquanto trabalhou, como jornalista no Brado Africano, Notícias da Beira ou na Tribuna, acabaria por publicar alguns contos e poemas seus.
Apoiou a causa independentista, sofrendo perseguições e sendo preso pela PIDE. Depois de 1975, foi presidente da Associação de Escritores Moçambicanos e desempenhou outros cargos públicos.
No dia 6 de Fevereiro, chegou a notícia da sua morte. Daqui estas palavras, sem quaisquer lamechices, mas porque a sua voz se manteve insubmissa, para além das amarguras sentidas, e o seu inconformismo deixou marcas e alento para que novas vozes consigam mudar as paisagens acinzentadas por muitas dúvidas.
Craveirinha criou um espaço literário onde muitas línguas se misturaram. Da sua obra fazem parte: Shibugo (1964), Cântico a um Dio de Catrame (1966), Cela 1 (1970), Karingana Ua Karingana (1974), Os Balabaze das Hienas e Maria (1979), Hamina e Outros Contos (1997). Isto não só literatura moçambicana. É literatura universal!
António José André
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.