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Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

França: Da LCR ao NPA

até julho de 2009 · Internacional · 1.295 palavras

O combate.info publica um contributo no quadro da preparação do congresso de dissolução da Liga Comunista Revolucionária francesa, no próximo dia 5 de Fevereiro, cujos militantes participarão nos dias seguintes na fundação do Novo Partido Anticapitalista. Alain Krivine e Daniel Bensaïd são dois dos autores deste texto, assinado por militantes da geração da fundação da LCR no fim dos anos 60. Lê aqui o texto em português.

Da LCR ao NPA

Daniel Bensaïd, Léon Cremieux, Jacqueline Guillotin, Samuel Johsua, Alain Krivine, Olivier Martin, Hélène Adam, Christine Poupin, Pierre Rousset, François Sabado, Roseline Vachetta, François Coustal.

Durante 20, 30, 40 anos, nós construímos a LCR.

Nós participamos hoje plenamente no processo constituinte do NPA. Se podemos agora abordar serenamente este novo desafio, é graças, e não apesar, do trabalho que a Liga tem desenvolvido nas últimas décadas. É uma mudança profunda: a decisão da LCR de se dissolver para se superar é um facto excepcional na história do movimento operário francês.

Se nós podemos correr esse risco, é porque não partimos do nada. Não é por acaso que na esquerda revolucionária francesa e mesmo internacional, é a LCR que toma uma iniciativa destas. Nós somos o produto duma história particular do movimento revolucionário, que é a da fusão entre uma corrente do trotskismo e e a radicalização da juventude nos anos 60. Somos uma corrente marxista revolucionária não-dogmática que soube preservar os elementos fundamentais de continuidade na história do movimento operário, nomeadamente em relação à social-democracia e ao estalinismo: a defesa de um programa de reivindicações imediatas e transitórias rumo ao socialismo, uma política de frente única para mobilizar as massas de trabalhadores e as suas organizações; uma política de unidade e de independência de classe na recusa de qualquer aliança estratégica com as burguesias nacionais; a recusa, nos países capitalistas avançados, da participação em governos de gestão do Estado e da economia capitalista; e um internacionalismo inabalável.

Ao contrário de outras correntes, esforçámo-nos por incorporar na nossa herança política as mudanças do capitalismo do pós-guerra, uma forte solidariedade com as revoluções coloniais e os movimentos antiburocráticos no Leste, a análise de novos movimentos sociais como o movimento de mulheres, actualmente a tomada de consciência ecosocialista face à crise ecológica, e sobretudo uma reflexão e enriquecimento de um dos pontos-chave do nosso programa: a democracia socialista.

É uma imagem de marca da LCR. Não apenas se inscreve na continuidade da luta da Oposição de Esquerda ao estalinismo, mas, ao contrário da maioria das correntes da esquerda revolucionária em França e noutros países, ela soube manter os princípios e as modalidades práticas duma organização e de um funcionamento democrático e pluralista. Esta sensibilidade e um funcionamento interno democrático e pluralista permitiram-lhe acolher ao longo da sua história uma série de correntes ou organizações provenientes de culturas e origens diversas. E prepararam-na para construir em conjunto e a ousar superar-se.

Sim, o NPA é o resultado do trabalho político destes últimos anos, nomeadamente do nosso contributo para a renovação dos movimentos sociais e do sucesso das duas campanhas presidenciais de 2002 e 2007, em torno da candidatura de Olivier Besancenot. Mas é uma ideia que vem de longe.

Desde o início dos anos 90, o colapso da URSS e dos países de Leste combinado com a globalização capitalista neo-liberal fechou um ciclo histórico e inaugurou um novo ciclo. "Nova época, novo programa, novo partido": este tríptico deveria constituir um marco de reflexão sobre o novo período histórico. Novos parâmetros iriam determinar a acção política. As clivagens que tinham separado as múltiplas correntes revolucionárias ou anticapitalistas saídas dos séculos XIX e XX podiam

ser superadas.

Claro que hesitámos sobre essas novas formas de organização, as suas características, os seus limites, a sua dinâmica. Mas a questão impunha-se, tanto no plano internacional como no nacional. No plano internacional, tomámos iniciativas através das conferências internacionais e conhecemos muitas experiências, cada uma com as suas especificidades: o PSOL no Brasil após a experiência do PT, a Sinistra Crítica em Itália após a experiência da Refundação Comunista, o Respect na Grã-Bretanha e o SSP na Escócia antes das suas rupturas, o Bloco de Esquerda em Portugal, a Aliança Verde e Vermelha na Dinamarca.

Em todo este processo houve clarificações, nomeadamente em relação à questão do poder e da participação ou não dos governos com o centro-esquerda e o social-liberalismo. Foram estas as questões que estiveram na origem das rupturas do PSOL com o PT e da Sinistra Critica com a Refundação Comunista. É também a razão das nossas divergências com a direcção do Die Linke que se pronuncia a favor de alianças parlamentares e governamentais com a social-democracia.

O NPA terá as suas delimitações políticas fundamentais. Os textos preparatórios recuperam referências fortes: a luta de classes e o apoio a todas as lutas dos explorados e dos oprimidos, a unidade da acção dos trabalhadores e das suas organizações, a ruptura com o sistema capitalista, um projecto ecosocialista, a recusa de toda a política de gestão da economia e dos executivos centrais das instituições capitalistas, a luta por um governo dos trabalhadores, a transformação revolucionária da sociedade, a democracia socialista, um programa e uma prática internacionalistas. É claro que uma série de questões permanecem em aberto: sobre o tipo de revoluções no século XXI, sobre os problemas da transição ao socialismo e sobre tantas outras questões, para reformular o projecto socialista e comunista. Mas não partimos do zero. O NPA definirá colectivamente as suas posições sobre a base de novas experiências comuns.

Não se trata então de construir uma LCR com novo look. Nós queremos construir não apenas um partido maior, mas um partido que seja uma nova realidade social e política. Ele será pluralista. Ele tomará o melhor de todas as tradições revolucionárias do movimento operário e de outros movimentos como os ecosocialistas. O seu objectivo é reunir todos os anticapitalistas.

O NPA será uma organização internacionalista, definindo a sua própria política internacional. Não será uma secção da IV Internacional (que constitui uma corrente política internacional específica). Partido pluralista, o NPA não pode filiar-se a ela. O processo de construção de uma nova Internacional - que sempre foi e continua a ser o nosso objectivo - será longo e complexo. Tendo em conta a dessincronização entre a construção de formações anticapitalistas e a de um novo reagrupamento internacional, e como os estatutos da IV o permitem, continuaremos militantes da IV Internacional em ligação com os camaradas da LCR eleitos nas suas instâncias. Dado o papel da Liga na IV, propomos que o NPA garanta a continuidade de uma série de tarefas que a LCR assumia.

Estamos ainda muito orgulhosos de ter transmitido a uma nova geração, sem as convulsões e crises de sucessão que a maior parte dos partidos conhecem, não só uma parte da herança política mas também as responsabilidades de direcção. Entre os velhos, os jovens e os menos jovens, o mérito é partilhado equitativamente. Mas no momento em que a LCR se vai fundir no NPA nós fazemos o apelo em particular à responsabilidade de todas e todos os seus militantes. A sua experiência e formação são indispensáveis na construção do NPA. Elas são uma condição do seu êxito, duma síntese bem sucedida entre o novo e o antigo. Todos devem então empenhar-se a fundo, como nós próprios decidimos fazer. Não o escondamos, será um exercício excelente aprendermos a falar para meios mais vastos, a ter atenção com o vocabulário, a saber escutar e respeitar os outros, a aprender com eles sem subestimar aquilo que lhes podemos fornecer. Depois do congresso de fundação do NPA, o conjunto de camaradas vindos da LCR devem pois encontrar o seu lugar para ajudar a construir esta nova ferramenta pela qual temos lutado ao longo de décadas.

Tradução de Luís Branco.

Texto original aqui.

Fonte: combate.info, cópia do Internet Archive de 2011.

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