Índia Tanto o Laranja Açafrão como o Verde Pertencem à Bandeira (IV) Comunalismo no feminino
Combate, março de 2003, edição em linha
Jornal2003«A grande quantidade de dados sobre os motins de Fevereiro e Março de 2002 afectaram, de uma ou outra forma, a maioria das mulheres. A vida das mulheres da minoria mudou drasticamente, claro, as suas vidas. No entanto, as vidas das mulheres de todas as comunidades também foram afectadas pela imposição do medo e do terror, promovidos pelo estado e pela polícia. As mulheres hindus foram apanhadas pelo medo de que "o outro" ataque. Essa situação deve-se muito aos rumores que estão a ser sistematicamente espalhados através de vários panfletos e publicações. A existência de todas as mulheres pobres e trabalhadores foi afectada. Mas a situação nas casas da minoria é muito mais séria, e a fome tornou-se um problema agudo porque os chefes-de-família não podem trabalhar.»
PUCL-Vadodara e Shanti Abhiyaan (27 Fev – 26 Março 2002) "Women’s perspectives on the violence in Gujarat", in: Kunal Chattopadhyay, ed. (2002) The Genocidal Pogrom in Gujarat – Anatomy of Indian Fascism. Inquilabi Communist Sanghathan Publication, Kolkata
FASCISMO E AS POLÍTICAS PARA AS MULHERES
(...) A política comunalista teve sempre como centrais as questões de género. A criação de um sentido de comunidade, a criação da existência do "outro", estão intimamente relacionadas com noções de género e de controlo sobre as mulheres. (...)A honra e a castidade destas tinham de ser preservadas, pois elas são as guardiãs da honra da comunidade. Simultaneamente, as próprias mulheres tinham de assumir alguns poderes (sem, no entanto, ameaçarem o controlo patriarcal), sendo levadas às centenas e aos milhares em acções contra o "inimigo real" (os muçulmanos). No seguimento desta ideia, sempre se defendeu (especialmente pelos elementos mais extremistas) que os ataques aos muçulmanos deviam ser acompanhados de ataques às mulheres muçulmanas.
(...) É necessário sublinhar o facto de as questões de género serem centrais na redefinição da identidade hindu pelas forças Hindutva, desde o início do século XX. Uma vez que os governantes coloniais fizeram do género um bastão para bater nos cidadãos. Vários académicos1 demonstraram a existência de uma imagem fraca da masculinidade hindu e, por outro lado, a criação de uma imagem sua oposta: a afirmação ou renascimento da virilidade. De acordo com este imaginário, os hindus eram entendidos como a maioria sempre oprimida pela minoria muçulmana, devido ao carácter efeminado de muitos homens hindus. (...) Assim, as mulheres são chamadas para restaurar a masculinidade hindu. Elas deviam produzir filhos fortes.
Curiosamente, a tentativa de construir a masculinidade dos homens hindus não foi maioritariamente motivada pelo desejo de combater o colonialismo britânico. A oposição realçada era entre hindus e muçulmanos. O estereotipo hindu a combater baseava-se na confluência da impotência política e da suposta impotência física.
As mulheres muçulmanas, com a sua "hiper-fertilidade" e tendência para a violência, vieram ocupar destacada posição na construção do "outro". A criação do "outro" muçulmano envolveu ataques a Alá (o profeta) e à sua vida e gostos sexuais, para concluir que não se trata apenas deste ou daquele muçulmano, mas sim da essência do islão, que representa a preversão sexual e uma ameaça a todos os hindus. As mulheres (geradoras de crianças) eram consideradas as pedras basilares da "nação" e da "raça" hindus, para combater o medo de as mulheres da outra raça ou comunidade produzirem mais crianças. Simultaneamente, construiu-se a representação do homem agressivo da outra raça, continuamente a violar e raptar as "nossas" mulheres.
ANOS 20: O MEDO DOS RAPTOS E AGRESSÕES SEXUAIS
Os jornais hindus, desde essa época, começaram a dar muito espaço a supostas histórias de raptos. (...)Três consequências surgiram destes supostos episódios de violações e raptos. Primeiro, as mulheres tornaram-se agentes activos (não apenas vítimas passivas) para proteger a sua castidade e, com ela, a honra da comunidade. Segundo, a virilidade hindu manifestava-se restringindo a mobilidade das mulheres e impondo-lhes mais controlo. Terceiro, para defender a honra das mulheres e da comunidade, os homens hindus foram levados a tornar-se agressivos e a matar o inimigo. Em última instância, isto pode assumir a forma apologética do rapto e tortura das mulheres muçulmanas, a par da chamda violência "olho por olho, dente por dente" para com os homens muçulmanos.
Ambas as facetas das mulheres eram importantes – vítimas e agentes. A vitimização das mulheres reforçou a imagem de um inimigo comum a temer.
A representação das mulheres hindus enquanto vítimas providencia um meio para as controlar, restringindo os seus movimentos em vários espaços públicos supostamente considerados inseguros. A multiplicação das histórias de vitimização levou à vitimização de toda a comunidade hindu. Deste modo, a necessidade da agressão comunalista seria facilmente justificada. Assim, os homens hindus devem matar aqueles responsáveis pelos raptos. Tratava-se da imagem de uma comunidade em guerra.
O outro lado da representação das mulheres, era a criação de uma imagem das "irmãs em armas". As mulheres eram exortadas a desfazerem-se da sua imagem de vítimas fracas, sofredoras e vulneráveis. Deviam também fortalecer-se para a sua defesa, manifestando bravura.
Surgiram campanhas, explicando que entre outras coisas o primeiro dever religioso das mulheres era ter uma navalha afiada para proteger a sua castidade e honra. Tratava-se de uma forma de poder para a auto-defesa que não implicava uma independência real para as mulheres. Criava-se um forte sentido de comunidade dando visibilidade também às mulheres, que deixavam de ter uma identidade apenas como esposas e mães. Isto não queria dizer que elas podiam abandonar estas imagens sobre si próprias. Mas as esposas e mães hindus já não eram treinadas apenas para a esfera doméstica. Deviam ser, simultaneamente, mulheres corajosas capazes de inflingir terror ao inimigo e honrar os homens hindus. Deviam instigar maridos, irmãos e filhos para a acção.
ANOS 90: O MEDO DOS CASAMENTOS MISTOS
(...) Partilhamos a ideia, juntamente com outros autores, de que apesar de algumas semelhanças com vários eventos do passado, a violência em Gujarat, a extensão do envolvimento do governo, o carácter político dos assassínios em massa, o uso sistemático de violações e agressões sexuais, conduzem a uma nova fase na história da política comunalista na tentativa de tomada de poder de algumas organizações e partidos. (...) Observamos, contudo, que cada tema relacionado com as mulheres no passado, foi recuperado com extrema violência nos últimos anos.
Em Julho de 1998, o governo de Gujarat criou uma secção de Polícia para Monitorização de Casamentos Inter-religiosos. Haren Pandya (então ministro do estado para os assuntos da família) anunciou a medida numa assembleia, justificando-a com o argumento de que tais casamentos não foram feitos por livre escolha mas foram impostos às mulheres hindus por motivos ocultos. Os casamentos das mulheres hindus com homens muçulmanos serviram de pretexto para um incremento da ocorrência de ataques e motins planeados previamente. (...)Simultaneamente, as campanhas de ódio e propaganda sobre o facto de os muçulmanos estarem a ultrapassar numericamente os hindus, tiveram como resultado o sancionamento das mulheres e a sua participação nos actos de violência.
(...) É importante entendermos o que é que a paticipação na violência supostamente produz nas mulheres hindus. Segundo Anuradha M.Chenoy2, através da sua participação na violência as mulheres encontram-se "fortalecidas". Mas que fortalecimento é este? Trata-se de um discurso que, em última análise, nega a cidadania, a sexualidade e até a humanidade das mulheres muçulmanas. Supostamente, as mulheres hindus mostram a as capacidade para resistir e punir o agressor de há séculos. Adoptam formas de controlo segundo a norma masculina. São autorizadas a ser violentas e a acrescentar a violência sexual, em nome do modelo hindu. (...)A destruição de uma raça / religião / comunidade "estranha" é levada a cabo com sucesso através da destruição das suas criadoras e daqueles que são o seu futuro – mulheres e crianças.
RESISTIR AGORA: PELA JUSTIÇA, PELA CIDADANIA, PELA DEMOCRACIA
(...) Onde a protecção é um assunto tão quente, as normas tradicionais estão a ser reimpostas de modo a restringir a mobilidade das mulheres. A destruição de infraestruturas, por seu lado, significa que as suas oportunidades de educação estão a ser restringidas. Mas existe um outro lado da história. (...)As mulheres organizaram ajuda, protestos contra as atrocidades policiais, demonstrando grande coragem durante todo o processo. Não existe, portanto, motivo para pensar que elas sucumbirão aos ditames dos patriarcas da comunidade.
Soma Marik - Nari Nirjatan Pratirodh Mancha (Forum Against Oppression of Women) e Network Maitree (Network Solidarity), Calcutá. Excertos seleccionados e traduzidos por Inês Fonseca
(1) Indira Chowdhury Sengupta (1998) The Frail Hero and the Virile History: Gender and the Politics of Culture in Colonial Bengal, Delhi e Charu Gupta (2001) Sexuality, Obscenity, Community, Delhi
(2) Anuradha M.Chenoy (2002) "The politics of gender in the politics of hate", comunicação apresentada no Seminário Stick to Our Knitting?: Women Writing in Parlous Times, Calcutá
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.