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Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Kafka e o socialismo

Michael Löwy · setembro de 2004 · Revista Combate · 1.101 palavras

Combate n.º 280, setembro a novembro de 2004

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É EVIDENTE QUE não se poderá reduzir a obra de Kafka a uma doutrina política, qualquer que ela seja. Kafka não produz discurso. Cria personagens e situações. Em toda a sua obra, expressa sentimentos, atitudes, um estado de espírito.

No entanto, não é proibido explorar as paisagens e os laços subterrâneos existentes entre o seu espírito anti-autoritário, a sua sensibilidade libertária, as suas simpatias socialistas, por um lado, e os seus principais textos escritos, por outro. São vias de acesso privilegiadas até ao que se poderia chamar a sua paisagem interna.

Valorização positiva do internacionalismo

Kafka manifestou-se interessado pela Revolução Russa. Numa carta dirigida à sua amiga Milena, em Setembro de 1920, faz referência a um artigo sobre o bolchevismo que lhe tinha causado grande impressão, precisa "no meu corpo, nos meus nervos, no meu sangue".

Trata-se de um artigo de Bertrand Russel, intitulado "Sobre a Rússia Bolchevique", publicado no Prager Tagblatt a 25 de Agosto de 1920. O ponto de vista de Kafka é mais preciso noutra carta a Milena, algumas semanas mais tarde: "Não sei se compreendeste a minha observação sobre o bolchevismo. O que o autor lhe reprova, justifica aos meus olhos o maior elogio".

A que crítica faz referência o filósofo inglês? "O verdadeiro comunista é inteiramente internacional. Lenine, por exemplo não está mais ligado aos interesses da Rússia do que aos dos outros países; a Rússia é, neste momento, o protagonista duma revolução social e, como tal, tem um valor para o mundo, mas Lenine estaria disposto a sacrificar a Rússia pela Revolução, se esta fosse disjuntiva". Noutros termos, o que parece a Kafka digno de elogio nos revolucionários russos, é precisamente o que Bertrand Russel lhes reprova: o seu compromisso radicalmente internacionalista...

Estes comentários mostram um interesse – crítico - face à experiência soviética mas, no actual estado da documentação,

nada sugere alguma relação de Kafka com o movimento comunista. Pelo contrário, numerosos testemunhos contemporâneos fazem referência à simpatia que tinha pelos socialistas libertários checos e a sua participação em algumas das suas actividades.

No começo dos anos trinta, Max Brod recolheu informação sobre um dos fundadores do movimento anarquista checo, Michal Kacha. Refere-se à presença de Kafka nas reuniões do Klub Mladych (Club de Jovens), organização libertária, anti-militarista e anti-clerical frequentada por vários escritores checos.

O escritor anarquista Michal Mares testemunha a participação de Kafka numa manifestação contra a execução de Francisco Ferrer, o educador libertário espanhol, em Outubro de 1909. Durante os anos 1910-1912, tinha assistido a conferências anarquistas sobre o amor livre, sobre a Comuna de Paris, sobre a paz e contra a execução do militante parisiense, Liabeuf.

Não se trata de maneira nenhuma de demonstrar uma pretensa “influência” dos anarquistas de Praga nos escritos de Kafka. Bem pelo contrário, foi ele quem, a partir das suas próprias experiências e da sua sensibilidade anti-autoritária, escolheu frequentar, durante alguns anos, as actividades desses meios.

Esta sensibilidade, definiu-a ele mesmo, não sem uma sinceridade impacável, numa carta a Felice Bauer, em 9 de Outubro de 1916: “(...) eu, que muitas vezes careci de independência, tenho uma sede infinita de autonomia, de liberdade em todas as direcções(...). Todo o laço que eu não crie, ainda que seja contra partes de mim mesmo, não tem valor, impede-me de andar, odeio-o ou estou bem perto de o odiar.”

Comunismo,anarquismo e amor livre

Uma sede infinita de liberdade em todas as direcções: não se poderia descrever melhor o fio vermelho que atravessa tanto a vida como a obra de Kafka – sobretudo a do período iniciado em 1912 – que lhe dá uma extraordinária coerência, apesar da sua trágica falta de conclusão.

Com efeito, um anti-autoritarismo de inspiração libertária atravessa o conjunto da obra novelística de Kafka, num movimento de “despersonalização” e reificação crescentes: da autoridade paternal e pessoal até à autoridade administrativa e anónima. Não se trata de nenhuma doutrina política, mas de um estado de espírito e de uma sensibilidade crítica – cuja principal arma é a ironia, o humor, esse humor negro que é “uma revolta superior do espírito.” (André Breton)

As primeiras novelas de Kafka – “O Veredito” e a “Metamorfose” – que datam de 1912, colocam em cena a autoridade patriarcal ou, para retomar um comentário de Milan Kundera sobre o tema, o “totalitarismo familiar”.

As máquinas opressoras

O grande passo em direcção à crítica dos “aparelhos” de morte anónimos é a novela “A Colónia Penitenciária” de 1914. Há poucos textos na literatura universal que apresentem a autoridade com um rosto tão injusto e assassino. Não se trata do poder de um indivíduo – os comandantes da colónia não têm mais do que um papel secundário na narração – mas de um mecanismo impessoal.

O marco da narração é o colonialismo francês. Os oficiais e comandantes da colónia penitenciária são franceses, enquanto que os humildes soldados, os trabalhadores do porto, as vítimas que devem ser executadas são “indígenas” que “não compreendem uma só palavra do francês”.

Um soldado “indígena” é condenado à morte por oficiais cuja doutrina jurídica resume em poucas palavras a quinta-essência da arbitrariedade: “A culpabilidade não deve nunca ser posta em questão!”. A sua execução deve ser levada a cabo por uma máquina de tortura que escreve lentamente sobre o seu corpo com agulhas que o trespassam: “Honra os teus superiores”.

O personagem central da novela não é o viajante que observa os acontecimentos com uma hostilidade muda, nem o prisioneiro, que não reage em absoluto, nem o oficial que preside à execução, nem o comandante da colónia. É a própria máquina.

Profundamente anti-autoritário

A inspiração anti-autoritária está inscrita no coração das grandes novelas de Kafka – “ O Processo” e “O Castelo” - que nos falam do Estado, sobre a forma da “administração” ou da “justiça”, como um sistema de domínio impessoal que afoga ou mata os indivíduos. É um mundo angustiante, opaco, incompreensível, no qual reina a não-liberdade.

Há que recordar que Kafka não descreve nas suas novelas Estados “de excepção”: uma das ideias mais importantes – cujo parentesco com o anarquismo é evidente – sugeridas pela sua obra, é a natureza alienada e opressiva do Estado “normal”, legal e constitucional.

Desde as primeiras linhas de “O Processo” fica claramente dito: “ K. vivia bem num estado de direito (Reichtstaat), a paz reinava em todas as partes, todas as leis estavam em vigor, quem se atrevia pois a assaltar-lhe a casa?”. Tal como os seus amigos, os libertários de Praga, parece considerar toda a forma de Estado, o Estado como tal, como uma hierarquia autoritária e liberticida.

* Sociólogo, investigador no CNRS em Paris

Tradução: António josé André

Texto extraído do PDF da revista que o combate.info publicou; as citações em destaque e as legendas foram omitidas.

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