combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

O império contra-ataca (outra vez)

outubro de 2002 · Jornal · 1.210 palavras

Combate, outubro de 2002, edição em linha

A máquina da guerra está em marcha, nada parece poder detê-la. Anunciada com a antecedência de meses, tornada quase inevitável quando tudo parecia indicar que é mais do que supérflua do ponto de vista da argumentação ideológica da paranóia securitária e do combate ao terrorismo que fazem parte central do cenário internacional pós-11 de Setembro, esta guerra é nada mais nada menos do que contra o mal, contra os evil-doers (ou contra os mauzões, traduzindo livremente a linguagem infantil do quase-eleito presidente americano), ou contra a primeira parte do eixo do mal, numa versão um pouco mais elaborada, o seu elo mais fraco. O perfil do inimigo repete-se: guerra contra quem quer que se oponha aos EUA, sobretudo se tiver petróleo e se for um pequeno ou médio ditador facilmente diabolizável, um pobre diabo, rico em petróleo mas facilmente derrotável. É optativo que seja um ditador que os próprios EUA acarinharam, mas vai sendo difícil encontrar algum que não o tenha sido. Saddam, por exemplo, foi o trunfo que os norte-americanos jogaram contra o Irão (por Portugal passaram muitos dos negócios sujos com armas para esta guerra mas não digam a ninguém não vá o cowboy Bush lembrar-se de nós colocar no tal eixo do mal), depois o protegido passou a ser o pior inimigo (filme também ele repetido).

Prepara-se portanto mais uma guerra do petróleo. Antes, os EUA deitaram as mãos ao Afeganistão, ponto de passagem estratégico de oleadutos e gasodutos. Mas, a bem dizer, a guerra do Afeganistão nem correu assim tão bem apesar de os objectivos mínimos terem sido cumpridos. O propósito mediático de caçar Bin Laden e de desmantelar a Al-Qaeda ficou por cumprir, as cabeças que o império ia trazer como troféu sairam mais cedo, restou uma vitória inglória contra um exército mal preparado, tornada possível pelo ódio que o regime totalitário dos taliban provocava nas populações e pelo complexo jogo das traições dos senhores da guerra afegãos que possibilitou um rápido avanço das tropas americanas, o mesmo factor que continua a impedir a estabilização do regime que é indispensável para voltar aos negócios.

A sequela terá de ser necessariamente mais feliz porque o Império não pode arriscar-se ao rídiculo de embarcar na guerra de estimação do papá Bush sem ter o devido retorno. Esta guerra parece ser herança de família. Bush Junior garante que Saddam Hussein tentou matar o seu pai, mas quem viu a parte anterior desta mesma história garante que foi mais ao contrário. Para lá da novela real, o próprio facto da guerra parece ser ele próprio a primeira vitória: permite melhorar a economia americana, sobretudo a indústria de armamento, os mercados não a temem, o petróleo fica mais barato. Depois, o saque parece ser bem apetitoso: os EUA viram-se agora para a segunda maior reserva de petróleo ao nível mundial (10,7%) e com esta ofensiva fica à vista um domínio mais completo dos fluxos do ouros negro, decrescendo a dependência americana face à Arábia Saudita.

E mesmo o lado mais folclórico da questão de uma guerra que há-de ser preocupante obviamente pelo seu cortejo de mortes e destruição, não é nada animador. É que ele continua mesmo a haver quem o leve a sério, aqui o preocupante não é o facto dos intelectuais costumeiros terem adoptado uma prosódia aparentada do analfabruto Bush, mas o facto da guerra mais mal explicada dos últimos tempos (talvez o Império já não se dê a tal trabalho) parecer gozar de alguma popularidade, ou pelo menos apatia, na América. A mentalidade hollywoodesca ganha terreno: bons e maus, acções espectaculares para acabar com os maus, happy-end assegurado.

Que explicação têm os EUA depois dos Iraque ter anunciado que permitia a inspecção do seu armamento sem condições (inspecção aliás que os EUA recusam ao seu material químico e biológico, que possuem como o episódio com o "antraz" e o reconhecimento de que no passado experiências foram realizadas experiências deste tipo utilizando soldados americanos pôde testemunhar)? A nova doutrina militar americana está pronta a estrear. Guerra preventiva, unilateralismo, as instâncias internacionais deixam de contar, a pax americana cosubstancia-se numa presença militar de qualquer dimensão em 132 dos 190 países membros das Nações Unidas. E o edifício formal das Nações Unidas parece vacilar face a este poder. A guerra faz-se menos com explicações do que com o argumento da força.

Quem pode manda. Não que o caminho de negociar um ataque na ONU melhorasse o facto da guerra, a destruição é a mesma. É apenas significativo que a nova ordem mundial se construa à margem de qualquer instância formal ou de qualquer tipo de direito internacional. A constatação é de que não há rei nem roque, há um império cada vez mais imperialista mas nem por isso ainda totalmente unilateral. Para esta guerra ser possível no tabuleiro internacional, os EUA parecem dispostos a deixar que os russos possam trocar esta guerra por uma impunidade na Tchechénia, tal como os chineses a trocam pela mesma impunidade contra as suas minorias nacionais. Resta saber se a Rússia de Putin, que é quem mais perde com a perda de um aliado em paragens tão importantes e em que com a queda de Saddam parece perder o pé, estará interessada na troca ou se alguma coisa poderá fazer para além de jogar com a possibilidade de veto nas Nações Unidas caso alguma resolução seja votada.

Agora não basta desarmar, muito menos inspecionar, os Estados unidos declararam que o regime é para mudar. Sem que antes tenham fabricado uma alternativa como parcialmente o tinham feito no Afeganistão. O pós-Saddam estuda-se, os cenários que os estrategos americanos traçam apontam para uma nova ditadura por aquelas bandas pois claro porque parece inevitável, desta feita suportada inteiramente pelos EUA, controlada mais de perto, não vá fugir ao controle. Ou então discute-se abertamente o fim do estado iraquiano. Fim que só não é definitivo porque a criação de um Curdistão no norte do país seria grave para o aliado ocidental que é a Turquia, ele próprio com uma minoria curda e com graves atentados com esta. A recente unidade das forças curdas iraquianas rebeldes e o seu compromisso de que não exigir a independência mas apenas uma autonomia indicia um acordo. Se bem que o perigo desta mexida no mapa (a união do Iraque à Jordânia e a criação de duas zonas autónomas uma curda a outra xiita) seja por demais evidente.

Talvez os dias de Saddam estejam a chegar ao fim. Poucos chorarão por ele. É verdade que foi um ditador cruel e que gaseou o seu próprio povo (argumento que os EUA agora usam mas que calaram aquando do seu apoio a Saddam). mas se o Iraque é um estado pária conduzido para uma estratégia suicida de enfrentamento dos grandes poderes do mundo, os seus vizinhos não se lhe ficam atrás nos crimes contra os seus cidadãos. E em matéria de estados pária são os próprios Estados Unidos que vão traçando um caminho muito próprio: do TPI e a impunidade para os seus soldados até á recusa de Quioto pelo direito à poluição do mundo, são apenas dois exemplos. A questão é até onde poderá o Império ir sem prestar contas e até onde as resistências nascentes lhe conseguirão barrar o caminho de violência.

Carlos Carujo

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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