combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

O sectarismo acaba mal

até março de 2011 · Bloco e APSR · 1.864 palavras

O apelo da Ruptura/FER para o voto em Francisco Lopes ou em branco é uma atitude que ultrapassa tudo aquilo a que já assisti na vida interna do Bloco e mancha mesmo uma das tradições que unia toda a esquerda até hoje em matéria de presidenciais – incluindo os autores desta proposta inacreditável.

Texto de Fernando Rosas. O que mais me surpreende nesse apelo é o irresponsável entusiasmo com que se muda de posição em questões essenciais. De facto, para acompanhar a posição da FER – uma organização que se entretém com um entrismo indiscreto dentro do Bloco na sebastiânica esperança de um dia de nevoeiro lhe despertar a capacidade para criar o seu próprio partido – seria necessária mais apetência ginástica da que ainda dispõe o autor destas linhas. Sobretudo seria necessário estar disposto a aceitar que a política se faz de manobras, de manigâncias, de oportunismo e não de clareza, de convicções, de debate franco e rigoroso. No que me toca, não aceito essa forma desqualificada de estar na luta política. E por isso venho a terreiro.

Mudar de convicções sempre com imensa convicção

Acho sinceramente que a posição do voto PCP-branco seria compreensível, senão respeitável, se assentasse numa abordagem coerente desta questão. Mas verifico, seguindo as respectivas tomadas de posição, que os seus autores mudaram pelo menos quatro vezes de política ao longo deste ano.

Em primeiro lugar, votaram contra a resolução da Convenção que definia a política do Bloco para um candidato unitário que representasse a luta da esquerda. Denunciaram esta resolução e anunciaram com toda a indignação que ela implicava a perversidade suprema, o apoio a Manuel Alegre (o mesmo traidor a quem pediam, na mesmíssima Convenção, que assinasse um programa anti-capitalista e que encabeçasse um governo revolucionário). Depois, quando a direcção do Bloco confirmou o seu mandato de apoio à campanha de Alegre, a FER passou a acusar o Bloco simultaneamente de ter cumprido a resolução da Convenção (apoiando Alegre) e de a ter negado (apoiando Alegre) – e passamos a ter a FER como a maior defensora da resolução que tinha rejeitado.

Esta perturbação tornou-se clara na reunião da Mesa Nacional que votou o apoio a Alegre, em que só dois mesários (Paulo Silva e Isabel Faria) votaram contra a resolução, tendo-se abstido todos os membros da FER.

Começou então – os papéis não mentem… - a segunda mudança. Alegre, o revolucionário que devia encabeçar o governo revolucionário e que era ao mesmo tempo o traidor que nunca poderíamos apoiar, passou de novo a ser parte da nossa “área de influência”. E eis a FER, deslumbrada com Alegre e com Nobre, a propor uma convenção extraordinária para escolher entre os dois, ambos da nossa “área de influência”, ou porventura um terceiro desconhecido (“uma hipótese que ainda podia vir a surgir”). Dizia a petição para a convenção extraordinária: “Face à existência, neste momento, de duas candidaturas presidenciais que se movimentam na nossa área de influência e à hipótese de mais poderem vir a surgir, e, ainda, às várias e divergentes interpretações que estão a ser dadas à deliberação da Convenção, os aderentes subscritores deste documento entendem reafirmar que só uma Convenção Nacional do Bloco de Esquerda pode deliberar sobre este assunto”. Não propôs a apresentação de uma candidatura do Bloco.

Ao mesmo tempo, a FER lançava na internet uma recolha de assinaturas, que obteve 44 apoiantes, para uma candidatura “PCP-Bloco”, o que era evidentemente o convite a que o Bloco apoiasse o candidato do PCP. Foi cedo demais, e o processo atrapalhou a recolha de assinaturas. A petição desapareceu rapidamente e, como é óbvio, a proposta de tal apoio ao PCP nunca foi apresentada ao Bloco.

Assim que foram recolhidas as tais assinaturas para a Convenção extraordinária, e se constatou que não tinham atingido um terço do limite mínimo imposto pelos Estatutos, a FER adoptou uma terceira posição e escreveu uma declaração, em nome destes signatários, obviamente ignorantes do que se fazia em seu nome, que passava do reconhecimento da “existência, neste momento, de duas candidaturas presidenciais que se movimentam na nossa área de influência”, para a afirmação definitiva de que Alegre (“da nossa área de influência”) passara a ser igual a Cavaco.

E aí chegamos à quarta posição. Foi anunciada por Gil Garcia no Público em finais de Agosto: a FER vai apoiar o candidato do PCP. Claro está, esta posição foi comunicada aos jornais mas nem uma palavra nas reuniões do Bloco. E foi oficializada num comunicado em Janeiro: voto PCP-branco. E nem uma palavra nas reuniões do Bloco.

O sectarismo desmente a realidade

Não vale a pena espraiar-me sobre o que é evidente para todos os militantes. Para todos? Não, a direcção da FER escreve que “O próprio Manuel Alegre, o de hoje, não deixa de se reconhecer no PS, não se separa nem um milímetro de José Sócrates, e todas as críticas que aqui e acolá faz são sempre na óptica de poupar o actual governo”.

Reconheça-se que este argumento é implacável: Alegre é igual ao governo e, se critica o governo, é porque quer “poupar” o governo. Apoiando ou criticando o governo, Alegre está inexoravelmente sujeito a esta condenação eterna.

O MRPP, outra organização sectária (mas que, ao menos, não faz entrismo dentro do Bloco), tira as conclusões contrárias, que vale a pena considerar: “Manuel Alegre é o único candidato em condições de impor uma derrota a Cavaco Silva na segunda volta das eleições presidenciais. O apoio oportunista, envergonhado e equívoco do PS a esta candidatura não deverá desmobilizar o voto dos democratas e patriotas à candidatura de Manuel Alegre. Esse voto deve ser dado maciçamente já no dia 23, para impedir uma eventual vitória de Cavaco Silva à primeira volta e para criar a mobilização necessária para derrotar o candidato da direita na segunda volta” (comunicado de 16.1.2011).

Os activistas e simpatizantes à esquerda sabem o que está em causa. Alegre representa as vozes de quem, dentro do PS, recusa o FMI, as privatizações, o corte nos salários, a subida dos impostos, o corte nas prestações sociais, a atitude caritativa perante a pobreza. E é quem enfrenta Cavaco para procurar o apoio suficiente com vista a derrotar o candidato da burguesia numa segunda volta.

Do sectarismo ao cavaquismo

Mas nada disso interessa à FER, que já tem uma solução, o voto PCP-branco (é indiferente?). Começo por comentar a parte do “voto PCP”, no inefável Francisco Lopes.

De facto, tenho vindo a verificar a proximidade da FER em relação ao PCP quer em questões de fundo programáticas (a defesa de um regime socialista de partido único e de censura politica) quer, especialmente, em questões políticas mais imediatas, onde não tem hesitado em colocar-se ao lado do PCP contra o Bloco:

A FER apoiou o PCP na luta contra o referendo do aborto. Que ia ser perdido. Apoiou o PCP contra uma campanha unitária do campo do “sim”. Que era apoiar o governo.

A FER apoiou o PCP na recusa da paridade entre homens e mulheres. Que não é de classe.

A FER optou por valorizar a campanha de Jerónimo de Sousa, em 2006. Que tinha sido a campanha de classe.

E, por isso, chega à campanha de 2011 e propõe o voto PCP-branco, com a seguinte explicação: “somos conscientes que votar branco ou no candidato do PCP será a forma que inúmeros militantes anticapitalistas vão encontrar para manifestar o que lhes vai na alma, ainda que esse seja também um (outro) mal menor”.

O voto PCP é a forma de a FER “manifestar o que lhe vai na alma”. Não tenho qualquer dúvida, o sectarismo conduz sempre ao estalinismo.

Mas o mais grave é o que disto resulta: é evidente que a igualização do voto PCP ou branco é uma vergonha! O voto no PCP é um voto contra Cavaco e um voto branco é um voto por Cavaco.

A FER quer simplesmente dizer que, se houver uma segunda volta, vota sempre em branco. Ora, assim, renuncia a uma tradição que tem unido toda a esquerda. Foi sempre assim: a esquerda toda votou Soares contra Freitas, e a FER também. A esquerda toda votou Sampaio contra Cavaco, e a FER também. A esquerda toda votará Alegre contra Cavaco, se houver uma segunda volta, mas a FER não.

O argumento da indiferença, que a FER nunca utilizou a respeito de candidatos (Soares e Sampaio) obviamente menos contrastados com os governos PS, é uma posição contra a classe trabalhadora e a luta da esquerda. É simplesmente uma forma de favorecer a vitória de Cavaco Silva e os interesses económicos e sociais que ele representa. João Delgado, que apoiou Fernando Nobre e rompeu com ele, tinha uma razão forte para o fazer: Nobre recusou-se a votar Alegre numa segunda volta. A meu ver, nisso tinha razão. Contribuir para a vitória de Cavaco na primeira volta (com o voto em branco) e recusar combater Cavaco na segunda volta (com o voto em branco) é simplesmente uma forma de apoiar Cavaco. O estalinismo desagua no cavaquismo.

Daqui a cinco anos é que é?

Mas há um último ponto que não pode passar ignorado. O texto da FER anuncia a apresentação do seu candidato … mas daqui a cinco anos. Diz assim: “A lição para o futuro passa por criar as condições para que, em próximas eleições presidenciais, possa vir a existir uma verdadeira candidatura anticapitalista, e é nesse combate que colocamos todos os nossos votos”.

Ora, esta promessa é absurda. Se, na opinião dos feristas, a condição determinante da política portuguesa era uma candidatura para confrontar Cavaco Silva, Manuel Alegre, Francisco Lopes e Fernando Nobre, porque é que ela não foi apresentada por quem considerava ser isso decisivo? Que cobardia política leva a prometer aos militantes que daqui a cinco anos é que vai ser?

Diz mais a direcção da FER: “Que candidatura fazia falta nestas eleições do próximo dia 23? Pode parecer um chavão, mas não, trata-se de uma dura realidade cada vez mais actual: precisaríamos, no actual período político, de uma candidatura … anticapitalista!”. Mas ninguém se apresentou para a “dura realidade” desta candidatura que era precisa “no actual período político”.

Li algures que nas eleições presidenciais do Brasil, o PSTU, o partido mais forte da corrente internacional a que, segundo creio, a FER está ligada, e que enfrentava uma situação difícil, dada a popularidade de Lula e a força eleitoral superior do PSOL, decidiu apresentar o seu candidato. Parece que muito militantes desvalorizam esta decisão, porque afinal este candidato só obteve uma percentagem que é cerca de um décimo do que costuma ter em Portugal o MRPP e não chegou a 0,001 dos votos. Mas foi à luta. Não anunciou que daqui a cinco anos é que vamos lá…

A luta de classes não espera por estas habilidades retóricas de vão de escada, a meio caminho entre demissão política e a trampolinice. Quem está convencido da justiça de uma política e é incapaz de se apresentar a realizá-la, é incapaz de desempenhar qualquer papel relevante no combate social e político. Pelo menos a favor do campo do progresso e da emancipação social. Vejam a FER.

Fernando Rosas é historiador e dirigente do Bloco de Esquerda.

Fonte: combate.info, cópia do Internet Archive de 2011.

← Encontro de Jovens APSR"As regras do jogo capitalista são incapazes de enfrentar a →

Algo errado nesta página? Reporte um erro