Operação Sedução
Internacional2011O depois da Tunísia. A exemplo de numerosos governos árabes, que querem evitar um cenário tunisino, o governo Mubarak no Egipto preconiza doravante uma «paz social» pela obliquidade política e económica. Por Samar Al-Gamal.
No dia a seguir à queda do presidente tunisino, os governos árabes optaram pela prudência ou mutismo total antes de registar uma primeira reacção aos acontecimentos tunisinos, excluindo qualquer risco de contágio. Sob a pressão da rua, os regimes existentes há décadas, a exemplo de Ben Ali, optaram por outra estratégia. Uma espécie "de válvula de segurança temporária". De Rabat a Riade passando pelo Cairo, os regimes árabes lançaram-se numa tentativa de ornamentar as suas imagens diante de uma população cada vez mais furiosa e cada vez mais empobrecida.
Medidas que, para fazer face ao novo aumento dos preços, eram completamente ausentes da sua agenda até há, unicamente, duas semanas.
Os ingredientes de uma revolta popular no mundo árabe não faltam e os regimes são conscientes disso. Um egípcio tentou assim pôr termo à sua vida imolando-se pelo fogo, a exemplo do jovem tunisino cujo gesto, a 17 de Dezembro de 2011, desencadeou a revolta que conduziu à queda de Ben Ali. O cinquentenário efectuou esse acto em frente do Parlamento para protestar contra o facto "de que se não tinha recebido cupões para comprar pão para o seu restaurante".
Numa semana, as tentativas de imolação ou de suicídio excederam uma dúzia nos quatro cantos do país: um mês após o acto do tunisino Bouazizi, mas também 34 anos após "a revolta do pão" desencadeada na época de Anouar El-Sadate [1970-1981]. Definindo-a como a revolta "dos vadios", o antigo presidente egípcio terminou no entanto por mudar a sua decisão de aumentar o preço do pão e alguns outros géneros principais, mantendo a sua subvenção
Hoje, o regime esforça-se por conter o descontentamento de uma larga parte da população, perante as dificuldades económicas e sociais e a falta de abertura política. O governo está assombrado com uma história próxima e as perturbações de um "irmão árabe", bem como pela chamada "jornada de cólera", lançada por jovens do movimento 6 de Abril e por partidos da oposição. Eles apelam à saída para as ruas para protestar contra a deterioração das condições de vida: pobreza, desigualdades, corrupção, desemprego. "Desço para obter os meus direitos", assim é o slogan da campanha. Não são os únicos. Os trabalhadores das fábricas de têxtil apelam a uma manifestação similar. O governo sombra junta-se-lhes.
"O cidadão árabe chegou a um nível de desespero até agora inigualável", é a constatação do secretário-geral da Liga árabe, Amr Moussa. Aquando de uma cimeira económica árabe que se realizou, desde 18 de Janeiro de 2011, em Charm Al-Cheikh [Egipto], o diplomata egípcio afirmou que é "certo que se chegarmos a um nível de desenvolvimento mais vantajoso para os nossos cidadãos, as nossas sociedades estarão em condições de responder a tais desafios", apelando ao mesmo tempo para os líderes árabes responderem às esperanças económicas e sociais das suas populações.
A sombra da revolução tunisina aterrou na segunda cimeira económica dos países árabes, onde cada um reconheceu a necessidade de lutar contra o desemprego, sem no entanto avançar com muitas propostas concretas. A maioria dos países árabes por conseguinte suprimiu temporariamente as taxas e os direitos aduaneiros sobre os géneros básicos, como o trigo, o açúcar e o óleo.
No Egipto, o governo dirigido por Ahmad Nazif desmente qualquer medida extraordinária. Contudo, os índices contradizem-no. O primeiro facto inconcebível, nunca visto realmente no Egipto, foi o Parlamento decidir constituir uma comissão para ouvir as queixas do primeiro suicida e o ministro da Saúde foi fazer-lhe uma visita ao hospital.
Atenuar as pressões
Dois dias antes, o primeiro-ministro fez uma deslocação à sede do Partido Nacional Democrata (PND, no poder). Uma visita rara durante a qual os líderes do partido, entre os quais o filho do presidente Moubarak, teriam incentivado Nazif para atenuar as pressões económicas e sociais sobre os cidadãos com rendimentos modestos. Fontes do partido afirmam que esta abordagem está ligada à eleição presidencial que se realizará no Outono e não com os acontecimentos na Tunísia. Mas a lista alonga-se a cada hora.
Nota-se um atraso na supressão das subvenções sobre as garrafas de gás doméstico, que deveriam ser substituídas por uma distribuição por cupão. Além disso, o ministério da Solidariedade Social decidiu expandir os quiosques da distribuição de pão, para eliminar as filas de espera, e o ministério do Comércio anunciou medidas reforçadas para controlar os preços, contrariando o monopólio e deferindo imediatamente as todas as infracções diante da justiça.
Tentativa de alívio
Para além da baixa dos preços dos géneros essenciais, os ministros e governadores teriam recebido directivas para responder "rapidamente" às queixas dos cidadãos, "evitar o recurso à força, aquando das manifestações" e "reduzir os procedimentos administrativos". Um ministro como o da Educação, Zaki Badr, normalmente surdo quanto às queixas ou pedidos, respondeu estranhamente a um debate organizado por funcionários do seu ministério. Ele despachou os seus pedidos e também lhes atribuiu um prémio de 4 meses como indemnização e um prémio de 100 dias para todos os funcionários do seu ministério. O ministro da Agricultura agiu do mesmo modo e o da Irrigação também. O seu homólogo do Petróleo decidiu contratar 1000 novos empregados para o seu ministério.
O governador de Minya, uma cidade do Sul, decidiu conceder ajudas às pequenas empresas e o ministro do Emprego anunciou a criação de um instituto para coordenar os diferentes ministérios e os pedidos dos trabalhadores. Um sector que registou o maior número de protestos e greves no ano passado.
Nos medias oficiais não há anúncios provocatórios para a classe operária e para os pobres. Só um discurso prima, "o Egipto não é a Tunísia" e uma revolta popular empurraria os "vadios" a sair e sabotar o país. "Há partes hostis que visam infringir a segurança e a estabilidade do Egipto", assim diz outro argumento. Isto tudo se encontra também numa série de grupos criados por jovens beneficiários do partido no poder, exortando as pessoas a não se manifestarem e enumerando "as realizações" do presidente Moubarak.
Os religiosos estão à parte
E como é igualmente costume, o governo faz apelo às instituições religiosas para se oporem a uma explosão social no horizonte. Sexta-feira, aquando da oração de meio-dia, foi generalizado o discurso nas mesquitas exortando os cidadãos a demonstrarem paciência e tornando "ilícita" a imolação, "pecado que excede o assassinato". "O suicida não sentirá o odor do paraíso", prega-se
Uma bomba ao retardador parece existir em cada rua árabe. Intelectuais, tal como Kamal Aboul-Magd, fazem apelo ao chefe do Estado. Pede numa carta aberta ao presidente Moubarak que efectue "uma reforma na doçura" e que responda a esta faísca com medidas rápidas e radicais e não ocasionais antes que seja demasiado tarde.
A Irmandade Muçulmana, principal força da oposição, que recusa no entanto aderir "à revolta da cólera", publica 10 pedidos que, de acordo com a mesma, desactivarão a bomba. Citam designadamente a dissolução do Parlamento e a convocatória de novas eleições livres, uma revisão da Constituição e uma reforma dos dois sectores em queda livre: a educação e a saúde. Fazer uma brecha face "ao desespero total" de uma grande parte das populações árabes, assim propõe um e outro. Os regimes no Egipto e algures no mundo árabe parecem de momento incapazes ou antes desatentos em dar respostas.
* Samar Al-Gamal é jornalista de Al-Ahram (diário de maior circulação do Egipto, fundado em 1875 e propriedade maioritária do governo egípcio). Tradução: António José André.