combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Os senhores do golpe permanente

Marco Consolo e Thierry Deronne · março de 2003 · Jornal · 1.266 palavras

Venezuela · Combate, março de 2003, edição em linha

A guerra de baixa intensidade" contra o governo constitucional venezuelano conta com um potente aperelho mediático interno e internacional (além do petróleo). De facto, a agressão mediática desempenha um papel no "controlo das ideias e dos corações" na estratégia de desestabilização a que está sujeita esta original experiência de transformação. Um aparelho que funciona em redes unificadas praticamente 24 horas por dia, por vezes com propaganda abertamente terrorista, com apelos abertos à violência, à rebelião militar, ao não-reconhecimento do governo.

Entre os homens de negócios que organizaram o golpe de Estado tentado em Abril de 2002 há duas figuras principais. A primeira é Luis Giusti, ex-presidente da companhia estatal de petróleo (PDVSA, Petróleos da Venezuela, s.a.). A Venezuela é hoje o quinto produtor mundial de petróleo, cobrindo 18% das necessidades dos EUA. No momento da vitória de Chávez, o lobby petrolífero internacional tinha dois objectivos: privatizar a PDVSA e fazer a Venezuela sair da OPEP (Organização dos Países Produtores de Petróleo), onde a Venezuela se encontra no terceiro lugar em volume de exportação. O mentor da privatização era Luis Giusti. Chavez bolqueia o projecto e anula o plano de investimentos para 1999-2003 de 64 mil milhões de dólares, abrindo a guerra com as multinacionais da energia. As mesmas que desde a década de 80 controlavam a empresa dita "de Estado", através de programas de "internacionalização", investimentos, concessões, joint-ventures, etc. A CIA, por via de uma sociedade intermediária (Intesa – SAIC), comandava a base de dados informática e portanto a própria capacidade operativa da PDVSA. Giusti é hoje conselheiro para os assuntos energéticos da administração Bush, que conta com figuras-chave da indústria petrolífera como Condoleezza Rice ou Dick Cheney.

O segundo grande protagonista da dinâmica golpista venezuelana, de origem cubana, é Gustavo Cisneros, magnata da oligarquia anti-chavista venezuelana, com interesses ramificados em todo o continente americano. Cisneros é conselheiro de diversas e prestigiadas universidades norte-americanas, integra a task-force das Nações Unidas sobre Tecnologias da Informação e da Comunicação. Tem lugar marcado no Forum Económico Mundial de Davos. Do seu restrito círculo de sócios faz parte Agustin Edwards, o empresário chileno dos media, proprietário do diário ultra-conservador El Mercurio, importante no curso do golpe chileno contra Allende, em 1973.

O grupo conta com um império económico de 70 empresas em 39 países, com uma facturação estimada em 4 mil milhões de dólares. Além da indústria alimentar, os seus principais investimentos são feitos nos meios de comunicação social: a Direct TV Latin America possui mais de 300 canais audio-visuais em 28 países. Durante o golpe de Estado de Abril de 2002, esta estação retransmitiu as emissões dos canais golpistas venezuelanos, enquanto a empresa telefónica e de transmissões Telcel – detida em parte pelo grupo Cisneros – foi um instrumento para o bloqueio de comunicações entre membros do governo eleito e para a sua localização.

Face às previsões de um golpe e de uma possível reacção do governo, que poderia cortar o sinal das TVs, estava pronta, graças a Cisneros, uma ponte com o México para restabelecer o sinal via satélite. Mas nessa ocasião, o único canal interrompido foi o estatal, pela intervenção de especialistas em interferência. Em Abril, enquanto milhares de pessoas desciam dos bairros pobres para exigir a libertação do presidente e o restabelecimento da legalidade constitucional, as TVs privadas transmitiam telenovelas e desenhos animados. Depois do golpe, os apoiantes do governo lançaram uma campanha pelo boicote dos media mentirosos.

Pela sua parte, o governo tem à sua disposição uma televisão e uma rádio e nenhuma imprensa escrita. Nas mãos da oposição, os outros canais televisivos de alcance nacional e inúmeros canais locais, além da imprensa nacional e local. Desses vêm as "denúncias" das ameaças à liberdade de imprensa da parte do "castro-comunista" Chávez, imediatamente amplificadas a nível internacional.

Marco Consolo, publicado no diário italiano Liberazione, 28.02.2003. Traduzido por Jorge Costa.

Carta aberta aos Repórteres Sem Fronteiras

Estimado Senhor Régis Bourgeat,

(...) Acabo de lhe enviar um artigo recente de Naomi Klein, que certamente não é uma simpatizante de Chavez. Tal como outros, esta jornalista canadense destaca a necessidade de rever o tema dos atopelos à liberdade de imprensa, olhando para os seus inimigos mais eficientes. Mesmo que partíssemos do princípio de que o estado venezuelano está dominado por Chavez, o que é totalmente falso, já que grande parte das forças policiais, dos funcionários públicos e uma parte ainda maior dos tribunais estão controlados pela oposição (que controla igualmente 95% da comunicação social) o mais óbvio seria que os RSF se opusessem aos inimigos mais acérrimos da liberdade de expressão, como são os grandes grupos económicos representados pelos Ravell, Mata, Cisneros e companhia.

(…) Você pede-me provas da organização do golpe por Cisneros o da existência de auto-atentados preparados pelos media comerciais para alimentarem esta campanha mediática internacional de um "Chavez liberticida". Sobre o carácter criminoso dos media comerciais as provas mais evidentes são os seus próprios arquivos, quando se mostravam triunfantes após o golpe de Estado. Nessas imagens podemos apreciar jornalistas felicitando os militares e estes retribuindo-lhes pelo seu apoio decisivo; podemos ver jornalistas acompanhando a polícia política golpista e irrompendo pelas casas de militantes políticos simpatizantes do ex-presidente Chavez; podemos ver a jornalista Nitu Pérez Osuna apelar aos telespectadores para que denunciem os seus vizinhos chavistas.

Estas pessoas merecem ser consideradas jornalistas? Todos estes arquivos estão à sua disposição e você faria bem em vê-los. Caso necessite de uma referência francesa, um jornalista como Maurice Lemoine, testemunha ocular do golpe, demonstrou com fotografias como os meios de comunicação comerciaistransformaram uma emboscada de francoatiradores num "massacre de Chavez ao seu próprio povo", para dessa forma criar um pretexto para o golpe. Em Dezembro passado, voltaram a tentar a mesma técnica após um tiroteio na Plaza Francia, imputando-o ao presidente Chavez, imediatamente apelidado de "assassino". Desde então, nenhuma prova foi conhecida. E não restam dúvidas de que o presidente venezuelano seria o último actor político interessado nesse tipo de acontecimentos.

(…) Anotamos que você hoje reconheça o que é admitido por todos: as violações aos direitos humanos ocorridas nas poucsa horas de ditadura de Carmona são mais graves que tudo o que se passou durante o mandato do presidente Chavez.

(…) Você disse-me que considera inaceitável o encerramento de estações televisivas. Creio que o seu juízo é apressado. Os processos actualmente instaurados contra alguns media comerciais (…) são idênticos aos que faria um CSA1 em França. Trata-se de declarações tributárias incompletas, informações graves difundidas sem provas, apelos directos e repetidos a desobedecer às leis republicanas, uso de propaganda política subliminar, excesso de sexo e violência em horários de maior audiência. A única diferença é que em França não se esperaria tanto tempo antes de iniciar os procedimentos administrativos. Em todo o caso, os meios de comunicação podem usar todos os recursos jurídicos disponíveis.

Os media comerciais apreciam o facto de que os RSF responsabilizem o governo de Chavez pelos atentados à liberdade de imprensa e esperam que assim continuem; esteja certo que vão publicar os seus comunicados sempre em primeiro plano. Frente a estes media criminosos, enredados em propaganda política e em campanhas de ódio social e racial, nós que praticamos um jornalismo pluralista, contraditório e cidadão, pensamos que os RSF não representam sequer o início de uma verdadeira protecção.

Excertos da carta assinada por Thierry Deronne. Formador na Catia TVe, televisão comunitária de Caracas e na TVC Rubio, televisão comunitaria de Rubio. Co-fundador de Teletambores, televisão comunitária de Maracay.

Tradução de Luís Branco a partir do texto em castelhano publicado em www.rebelion.org

1 Organismo fiscalizador dos media, como a Alta Autoridade para a Comunicação Social em Portugal

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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