combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Palestina 1948-2002: guerra colonial

julho de 2002 · Jornal · 2.045 palavras

Combate, julho e agosto de 2002, edição em linha

DESTRUÍR uma sociedade. Nenhum outro termo seria mais adequado para descrever o que o governo de Ariel Sharon, o exército israelita e os seus generais fazem nos Territórios palestinianos ocupados.

A propósito do campo de Jenine, o Financial Times escreve: "O campo no qual se concentram cerca de 15 000 habitantes esteve debaixo de fogo, desde segunda-feira (8 de Abril), com helicópteros lança-mísseis. O diário Haaretz cita militares israelitas que exprimem reservas quanto à amplitude das destruições no campo..."Quando o mundo vir as imagens do que aqui fizemos, a nossa própria imagem ficará seriamente afectada", disse uma das fontes citadas. A Sociedade Palestina para a Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (LAW) transcrevia as declarações de testemunhas presentes em Jenine. Estes afirmavam que as Forças (armadas) israelitas, com tanques, veículos blindados para transporte de tropas, bulldozers e apoiados por sete helicópteros Apache, tinham atirado 250 mísseis e obuses de tanque, em 24 horas, sobre este campo com uma superficie de 1 Km2." (10 Abril de 2002)

O Times de Londres titula: "Uma procissão de estropiados deixa Nablús morta" (9 de abril). Stephen Farrel relata: "as portas da mesquita [al-Baiq] cruzam-se e uma corrente de ar fétido e húmido escapa do recinto que, desde há cinco dias, serviu de morgue e de hospital de campanha... Ocupada com uma garrafa de soro quase vazia, Zarah al-Wawe trabalhava sem electriciade, sem reservas de sangue, sem ambulâncias [cuja deslocação está proibida], reclamando ajuda com o seu telemóvel, até que as suas pilhas se esgotem, e gritando: "Estamos quase a perdê-los, estamos quase a perdê-los." O seu colega Muhaned explica a Stephen Farrel: "Ontem, tínhamos quinze feridos. Conseguimos salvar metade. Tivemos que os enterrar sem as suas famílias."

Suzanne Goldenberg, no The Guardian, termina assim a sua crónica sobre a ocupação e a devastação de Nablús, esta cidade "que conta com uma orgulhosa história de resistência activa": "Ontem, quando caiu a noite, o exército israelita continuou a sua campanha para abrandar [no sentido do verbo utilizado pelo carniceiro ou pelo torturador] a cidadela antes da queda final [dada a resistência existente] e várias explosões estrondosas rasgaram as trevas. "Não, ainda não terminaram; eles [os militares israelitas] dizem que vão destruir toda a zona e, você sabe, essas casas são tão velhas e estão tão juntas umas das outras que quando você derruba uma única delas destruirá todo o conjunto", indicava-nos um médico voluntário palestiniano na mesquita."

Retórica colonial ...

Alguém que tenha lido os relatos dos militares ou dos historiadores da colonização encontra, hoje, a repetição mecânica dos «actores» militares e políticos de uma história que gagueja. Quando, a 9 de Abril, Shimon Peres fala de "um massacre" ao referir-se ao campo de refugiados de Jenin, distancia-se cobardemente. Ele conhece, efectivamente, a amplitude dos crimes cometidos e sabe que brevemente virão à luz do dia. Mas com esta indulgência - própria dos cobardes cuja dignidade se reduz ao preceito de "evitar o pior"- toma distância de Sharon para... manter-se no governo.

Quanto a Sharon, é como se escutássemos os generais e políticos franceses, ingleses ou americanos que dirigiram as guerras coloniais e imperialistas. Invocaram sempre a necessidade de uma "zona de segurança" que se deve estabelecer antes de se "encontrar uma solução". E, supostamente, a "solução" só aparece uma vez que "o bom interlocutor" – "aquele que representa realmente os interesses de toda a sociedade" e "não os terroristas que a manipulam"– tenha conseguido libertar-se dos "extremistas" e possa "negociar livremente". Entenda-se bem: que esse "grande realista" aceite o que as forças de ocupação lhe propõem.

Sabemos que a história não ensina nada por si só. E com a mesma ingenuidade – acompanhada pela ignorância do início de carreira - muitos jornalistas adoptam a estrutura da argumentação sionista. Os mais reticentes encontram-se na imprensa israelita, entre outros no Haaretz. Para eles a profissão consiste em investigar, compreender, interpretar.

Como pano de fundo dos discursos de Sharon, do seu governo de unidade nacional e das suas obras criminosas, aparece ancorada uma visão constitutiva do projecto sionista. Ela tem a forma de um díptico.

Em primeiro lugar, a "guerra da independência" não terminou. Dito de outro modo, a guerra de 1948 só conheceu uma interrupção. Sharon proclamou-o ao ser investido. Toda a história do Estado sionista tem a marca da guerra e foi sempre uma guerra "pretendida pelos outros". E, em cada recomeço, o combate aponta, pretensamente, para a defesa, a paz e segurança de Israel. A saga colonial europeia do século XIX tinha os mesmos títulos nos seus capítulos e o mesmo desenvolvimento (fisio)lógico.

Em segundo lugar, para obter a paz e a segurança, é necessário afastar quem a põe em perigo e "obrigá-los a partirem" ou eliminar aqueles e aquelas que "fomentam o terrorismo e a guerra."

O general Sharon que invadiu o Líbano em 1982 – antes de se converter em fazendeiro e dedicar-se à criação de ovelhas - continua hoje a sua guerra de 1982. Ela também tinha um objectivo proclamado: era o de criar uma "zona de segurança" no Sul do Líbano, apoiado por uma milícia de colaboradores corruptos para "lutar contra as incursiões terroristas". O final é conhecido. E quando Sharon, com a arrogância do "justo", afirma que põe um helicóptero à disposição de Yasser Arafat, mas só com passagem de ida, não faz, na realidade, mais do que aplicar ao representante de um governo o que o Estado sionista fez em 1948 e em 1967: impôr o êxodo à população. O termo êxodo deveria possuir um sentido bem preciso para aquelas e aqueles que, na imprensa, escutam este dirigente dos tempos de guerra: o homem faz o que diz. Não é necessário esperar 20 anos para que um especialista o confirme.

... e sionismo colonizador

Tratemos de decifrar a situação actual. Desde 1994, sob o governo de Ytzhak Rabin (assassinado por um extremista em 1995), a colonização da Cisjordânia continua e amplia-se. Paralelamente, têm lugar as discussões sobre "o processo de paz", que devia ser antes de tudo um processo ... que nunca chegaria à paz. Pois a paz derrubaria um pilar importante da "visão sionista" dominante no establishment israelita.

Desde então, o resultado era previsível. No seio do povo palestiniano um sentimento foi surgindo e ganhando amplitude. Enquanto os "negociadores" da paz multiplicavam os discursos apaziguadores, a vida quotidiana não mudava nada. Pior ainda, degradava-se. Pois a colonização não significa somente a instalação de "colónias judias" – que representam um apoio e servem de recurso político assim como de instrumento de legitimação de todas as operações militares - mas também a presença das barreiras militares, as estradas cortadas, o controle permanente ...

Numa palavra: a política de colonização – que esteve sempre no centro das decisões concretas adoptadas pelos diferentes governos, de Rabin a Peres, passando por Netanyau, e depois Barak – provocava a implosão do chamado processo de paz, transformado numa vasta operação de marketing, como o recorda com fino olfacto um negociador norte-americano.

Esta política deliberada preparou o terreno para uma nova vaga de resistência mais activa do povo palestiniano; uma resistência necessária para a afirmação da sua existência, da sua dignidade, da sua vida. Uma resistência para a independência; essa vontade indefectível que Sharon e os seus querem abrandar. Eles que, sem dúvida, deveriam saber o que isso significou no curso da história do povo judeu, sob formas que estavam, bastantes vezes, muito distantes do sionismo. Mas isso não o podem reconhecer, não só como consequência da ruptura cultural com a história da diáspora, dos interesses enraízados na própria constituição de um Estado teocrático-"democrático", mas também pela razão do risco de se chegar de maneira infalível à questão colocada, a 4 de Abril, pelo presidente da câmara de Haifa, no diário tradicionalista Yediot Achronot: "Como julgar, à luz do presente, o movimento sionista?"

Reproduzir refugiados

É útil recordar o ano de 1982. Sem dúvida a diferença com 1982 é eloquente. Nos últimos meses as forças armadas israelitas expuseram as suas intenções: aniquilar as infra-estruturas materiais e os "recursos humanos" dos Territórios palestinianos ocupados. A lista pode estabeecer-se com uma facilidade atroz: assassinatos extra-judiciais de militantes de todas as correntes políticas – pois elas são numerosas – existentes no seio da população palestiniana; liquidação ou estrangulamento das ONG; destruição dos centros hospitalares (como o de Ramallah); redução ao estado de ruínas do Centro de Estatísticas da Autoridade Palestiniana e do Ministério de Educação assim como do Centro Cultural Palestino; supressão de todos os arquivos sobre os exames de bacharelato e da universidade ou ainda dos arquivos administrativos de cidades como Ramallah ou Nablús. Hoje todas as reportagens chegam à conclusão que houveram verdadeiros massacres acompanhados de uma selecção dos homens com idades compreendidas entre os 15 e os 45 anos ... seguindo o modelo aplicado pelas forças sérvias na Bósnia (tal como o descreve, apesar das suas inegáveis insuficiências, o relatório holandés publicado a 10 de Abril).

Sem dúvida, essa constatação continua a ser superficial – sempre e quando o termo convenha - se não a integrarmos num quadro mais amplo. O que se pôs em marcha desde 1998 – e com uma aceleração vertiginosa - não é outra coisa senão a aniquilação das possibilidades de funcionamento de uma sociedade palestiniana sobre 22% do território – "os territórios ocupados" - da Palestina histórica.

Este projecto pode declinar-se desta maneira: Primeiro, a vontade de Israel de tornar "inviável" a Cisjordânia e de obrigar os homens e as mulheres a partir. Mais atomizado, é certo, trata-se do êxodo forçado – devidamente documentado pelos "novos historiadores" israelitas – de 1948 ou de 1967. Gente sem rosto que se vai embora, no maior silêncio possível, da mesma maneira que são parcas de imagens as "zonas militares fechadas". Segundo, é necessário atacar os campos de refugiados, essa população no exílio permanente que pode ser sempre deslocada, pois nunca se instalou definitivamente. Isso é o que explica a brutalidade assassina exercida nos campos de Jenín e, desde 10 de Abril, de Bir Zeit (perto de Ramalhah) e de Daharyeh (perto de Hebrón). Os "campos" são apresentados como "focos terroristas", portanto têm que ser desmantelados. São mini-estados malignos (para utilizar a terminología da administração norte-americana). A população destes campos poderia até ser reagrupada em Gaza. Não é para Gaza, que são enviados os palestinianos libertados depois de terem sido detidos?

A "concentração" em Gaza já tinha sido imposta por Shimon Peres em 1995, depois das negociações com Arafat, sob a denominação de Gaza first (Miftah). Peres, o sucessor de Rabin, propunha uma experiência inicial de"autonomia" em Gaza para verificar a capacidade dos "palestinianos em conduzir um Estado viável". O velho fundo racista deste tipo de propostas coloniais sai aqui à luz do dia. Hoje, é grande o risco de que os refugiados sejam o cerne da ocupação. Assim, efectuar-se-ia uma espécie de deslocação interna, dentro dos Territórios ocupados, porque a expulsão massiva para a Jordânia ou Egipto provocaria demasiados "problemas diplomáticos", de momento. E a administração Bush não poderia nesse caso fechar os olhos. Enfim, os riscos de desestabilização desses dois países seriam acrescidos. Quando "a tranquilidade voltar" – segundo os planos elaborados pelo estado-maior para a sua guerra prolongada, iniciada em 1948 – apresentar-se-ia a possibilidade de um processo migratório para os países árabes que tivessem reconhecido Israel. Sobretudo porque o Estado-tampão seria estreito e inviável.

Terceiro, a ocupação militar actual, com o seu terror - ao que se junta uma campanha nos media que estabelece uma simetria entre "atentados suícidas" e "luta contra o terrorismo"- é perfeitamente funcional no que respeita ao estabelecimento de uma vasta franja de segurança ao largo da linha verde (a Leste das grandes cidades israelitas). Mapas, diferentes do de Taba, foram estudados por Sharon. O que permitiria subtrair ainda outras importantes zonas de um futuro Estado-tampão palestiniano e o acesso a fontes vitais de água. Uma zona de segurança poderia "justificar-se" facilmente aos olhos da população israelita, pois os golpes – desde há vários anos - às instituições palestinianas favoreceram a emergência de grupos armados independentes; o que seria praticamente a satisfação de um desejo do estado-maior.

Este projecto sionista é suicidário. Mas também é por sua vez terrivelmente homicida.

Charles-André Udry,

economista e redactor da revista mensal "A l’encontre", de onde este artigo foi retirado e traduzido por António José André.

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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