Quando a cidade sorri de tristeza
Porto Feliz · Combate, março de 2003, edição em linha
Jornal2003Alda MacedoVivemos esta cidade entre a memória da alegria com que levámos à rua a nossa indignação na manifestação de 15 de Fevereiro, para humilhação geral dos senhores da guerra, e a tristeza da constatação quotidiana de um poder político autárquico exercido com uma mistura feita de arrogância, de prepotência, e, sobretudo, da urgência de demonstrar à burguesia portuense como eles são o seu melhor tradutor.
Na expectativa das alegrias que o Glorioso há-de trazer aos nossos corações dentro de algum tempo, vivemos a tristeza de ter um vereador do ambiente que diariamente vende a alma a troco de umas migalhas de poder; um vereador de urbanismo incapaz de resolver um único dos problemas que se lhe deparam; um vereador da cultura para quem a Aldeia da Roupa Branca talvez represente um marco na cultura nacional, e um vereador da acção social que espera devolver à cidade a limpeza e a tranquilidade de não ter que se lembrar diariamente da pobreza e do desespero dos seus arrumadores, para felicidade de todos nós.
Que melhor demonstração de eficiência gestionária, senão limpar as ruas da cidade das imagens de miséria, aplacar a má consciência do convívio com os excluídos, e prometer acabar com os arrumadores da cidade, retirá-los da rua e escondê-los atrás dos muros do Hospital Conde Ferreira !
A receita é simples:
Obtenha-se o acordo do director de um hospital em má situação financeira – de preferência um que não dê ouvidos às vozes críticas dos especialistas em toxicodependência.
Desenhe-se um arremedo de projecto ao abrigo de uma fundação que tenha uma administração de confiança – de preferência com um Conselho Geral dominado pelo executivo da câmara, de modo a não haver perguntas incómodas sobre o destino dos fundos do programa Urban.
Celebre-se um protocolo com o centro de emprego, e no próximo verão todos nós poderemos ir felizes à praia da Foz, sabendo que ao colocar o pé na areia não estaremos isentos de um pequena contaminação de coliformes fecais, mas pelo menos, não vai haver lixo, já que algum antigo arrumador terá limpo a praia.
No final, será ainda preciso baralhar um bocadinho os dados e conseguir a anuência de um Ministro da Administração Interna (já que pobreza e toxicodependência são um caso de polícia) disposto a promover este exemplo edificante ao longo de todo o país.
No Porto as obras podem nunca mais ter fim, mas pelas contas do presidente da câmara, os arrumadores tiveram, e se alguém se passear pela baixa da cidade e acaso vir algum arrumador mesmo em frente ao edifício da câmara, pode ter a certeza que isso é apenas uma ilusão de óptica. O presidente Rui Rio diz que já só há trinta ou quarenta arrumadores no Porto. Nós ouvimos e sorrimos diante da conta.
O presidente também tinha dito que eram quatrocentos os indivíduos abrangidos pelo programa, mas afinal o vereador Paulo Morais esclareceu que eram mais de quinhentos, o problema foi terem perdido mais de duzentos e só haver 255 em tratamento. Destes, 12 serão integrados nos programas de limpeza das praias, e dos outros só os deuses e Paulo Morais saberão. Nós ouvimos e sorrimos da imensa tristeza de uma cidade onde a falta de seriedade é a marca destes dias.
Alda Macedo
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.