Quando o Banco Mundial desce à esteira
Moçambique · Combate, novembro e dezembro de 2003, edição em linha
Jornal2003Nuno MilagreEstes são retratos de duas famílias que podem representar um pouco o tecido socio-económico do mundo rural moçambicano. Teresinha de 37 anos e Annie de 41 são duas mulheres entre muitas iguais: uma mão cheia de filhos para criar; o marido já era, ou já foi, ou morreu. Os retratos são feitos a partir dos apontamentos que tomei durante a pesquisa e filmagem de um filme documentário que foca a pobreza na província de Manica, no centro do país. O filme foi produzido pela produtora moçambicana Promarte para a School Of Oriental and African Studies, de Londres, a filmagem decorreu no mês de Outubro. Os retratos são pinceladas cruas com números e contas fáceis de fazer. Teresinha e Annie vivem em Moçambique, na província de Manica já bastante próximo da fronteira com o Zimbabué, em duas localidades ao longo da estrada nacional 6, também conhecida como o Corredor da Beira que liga o Zimbabué ao porto da Beira.
TERESINHA, 37 anos
5 filhos: Gilda, 18; Hortênsia, 14; Maria, 10; Luísa, 8: Manuel, 5
Teresinha tem quatro filhos a seu cargo, temporariamente alberga a cunhada que está grávida e sobrinhas, não tem dinheiro e é dona de um sorriso permanente que não se sabe de onde vem e o que o alimenta.
Teresinha deixou a escola em 84 porque não tinha transporte para a escola, muito longe, casou-se em 85, em 86 fizeram a sua casa em Gondola. Em 95 o marido foi-se embora para Maputo, em 97 esteve alguns meses em Gondola com a família e foi embora, não deu notícias e regressou em 98, aumentou um pouco a casa, fez outro filho, Manuel, e foi embora de novo. Sem notícias desde 99, Teresinha veio a saber no ano passado que ele morreu na povíncia de Gaza, alguém telefonou de lá para um irmão dele na Beira a dar a notícia, este mandou uma carta para Chimoio e, entretanto, a notícia chegou a Teresinha e às crianças. Não quer casar outra vez porque sofreu muito, e insiste, “é melhor sofrer sozinha”. Namorados também não por causa das doenças. Quais doenças? Leva algum tempo a responder e acaba por dizer: SIDA. Já ouviu falar várias vezes da doença, quando vêm delegados do Ministério da Saúde falar e destribuir folhetos aos adolescentes do bairro.
Vive com os filhos numa pequena casa com três divisões no bairro Josina Machel em Gondola, a casa nao tem nada à excepção de uma mesa e quatro cadeiras, algumas esteiras, algumas panelas e pratos, roupa e uma especie de prateleiras. O seu rendimento vem de trabalhos muito esporádicos: faz bolos para vender no mercado, ganha ao dia em plantações de outras pessoas, fez limpezas no hospital em construção... Esta família tem um rendimento muito diminuto e o pouco que entra é improvável e incerto. Teresinha tem um cesto de trigo ao seu lado. O que faz com o trigo? Faz farinha para fazer bolos. Luísa, a filha de 10 anos passou um dia inteiro no pequeno mercado do bairro para os vender, trouxe para casa 39.000 meticais; perguntamos-lhe quanto custou o trigo, o carvão, o açucar, o óleo, o sal, conforme ela vai respondendo o nosso motorista vai somando as parcelas na calculadora do celular, no final diz: “Gastou 33.000 para ganhar 39.000 meticais...”. Teresinha não desanima “Não é preciso fazer contas, só fazer só...”. Só fazer só dá-lhe os 6.000 meticais de diferença e o lucro de não ficar parada... O trabalho e o tempo que ela e a filha despendem para arrancar os seis paus são debitados no preço da vida e não nas contas dos bolinhos de trigo. 6.000 MT é menos que 25 cêntimos.
Manuel vai começar a estudar para o ano, Maria, Hortênsia e Luísa estão as três a estudar no ensino público, todas em classes atrasadas em relação à idade, têm cadernos, mas nem sempre com que escrever, só Hortênsia tem sapatos para ir à escola. Nenhuma tem uniforme, mas para o ano, dizem, diz Teresinha, “quem não tiver uniforme não vai poder ir à escola”. Segundo a mãe das quatro crianças, cada uniforme custa 280.000 MT, a matrícula 48.000 por criança, não é preciso fazer contas para adivinhar o futuro escolar destas crianças.
Teresinha já teve vários terrenos para cultivar: emprestados por um ano, arrendados, emprestadados e retirados. Neste momento tem um terreno a uma hora de distância a pé de sua casa, foi cedido por um casal amigo de longa data, é lá longe, bem perdido no mato, onde nos anos oitenta não havia segurança e toda a gente fugiu. Depois das primeiras chuvas já começou a semear milho, a colheita dependerá unicamente do clima, a agricultura de subsistência sem qualquer produto químico e sem possibilidade de rega onde a única maquinaria envolvida é a enxada faz da colheita uma incógnita onde quase não se pode interferir.
A sua filha Gilda de 18 anos casou-se em Setembro de 2001 com Luís, um rapaz novo como ela que está na 11ª classe, têm um filho, Chico, com um ano e três meses. Deveria levá-lo ao médico uma vez por mês, mas não vai desde Junho... Vivem em Chimoio numa pequena casa com mais três familiares de Luís, todos homens. Por razões de gestão do curto espaço do lar não dorme com o marido. Desde os 10 anos que trabalhou com a mãe nos campos ou a vender banana, sendo a irmã mais velha ajudou a criar as três irmãs e o irmão Manuel até sair de Gondola. Foi expulsa da escola porque não tinha material escolar nem dinheiro para o comprar, mas nunca lhe disseram nada enquanto frequentava a 5a classe já grávida do Chico. A última vez que Gilda trabalhou ao dia foi em Maio. O marido prometeu que ia arranjar dinheiro para ela matricular-se na escola e recomeçar a estudar em Janeiro quando começar o novo ano lectivo, este é o seu objectivo mais próximo por agora.
ANNIE, 41 anos
6 filhos: Maudi, 23; Peter, 21; Rojasse Moisés, 19; Justino, 13; Prisca, 11; Anilsa, 2; mais a neta Precious, 5; filha de Maudi mas à guarda da avó.
Em Chitehwe, já muito perto do Zimbabué, fica a casa da família onde vivem os rapazes em permanência e Annie e filhas nos fins de semana que vai a casa. São três pequenas casas: a casa de dormir, com telhado de zinco e chão de argila, tem um rádio comprado em 2002; a casa onde fazem fogo, cozinham e comem; e a terceira casa onde antes viviam que agora é um galinheiro, o negócio de criação de galinhas começou em Julho deste ano; têm dois cabritos e três bois e dois terrenos de cultivo. Têm uma bicicleta comprada a peças durante os últimos meses e recentemente Annie comprou uma outra para os rapazes irem à escola. O marido, militar, morreu há uns anos, a filha mais nova já é de outro homem. Tal como Teresinha, para Annie, “homens nem pensar, só dão problema! Gosto de decidir sozinha a minha vida e a das crianças”.
Annie trabalha na AusMoz (Australian Mozambique Corp.) a 30km de casa. Os patrões deram-lhe casa porque vive longe, vive lá com as duas filhas mais novas e a neta, filha da sua primeira filha Maudi que está separada e não tem condições para criar a filha. A AuzMoz é uma empresa agrícola com capitais e patrões australianos, agricultura intensiva com máquinas, sistemas de rega, fertilizante e acompanhamento técnico e científico que emprega mais de 150 trabalhadores com contrato e muitos mais como trabalhadores sazonais ou com contratos a termo de três meses. Annie entrou para trabalhar nesta empresa em 1999 com um salário de 700.000 meticais, presentemente ganha 1.500.000 meticais por mês, pouco mais de 52 euros. É responsável pela cozinha dos patrões, começa o trabalho entre as 7h e as 8h, prepara o pequeno almoço para os patrões e a salada para o almoço, arruma e assegura todos os trabalhos na cozinha, entre as 18h e as 19h prepara o jantar, o dia de trabalho termina pelas 22h, 23h depois de arrumar a cozinha após o jantar dos patrões. Nos últimos meses, como tem instrução e lida bem com contas ajuda na elaboração das folhas de salário e pagamentos dos trabalhadores, juntamente com um colega zimbabueano também gere os turnos de segurança que protegem a plantação de eventuais roubos feitos por macacos e ou pessoas. A empresa dá-lhe casa a poucos metros de distância do local de trabalho e da casa dos patrões, é lá que vive, deram-lhe mosquiteiro, queixou-se que chovia lá dentro e colocaram-lhe plástico entre o colmo e a estrutura de madeira que o sustenta. A dez minutos desta casa, já fora do terreno da AusMoz, tem uma barraca à beira da estrada onde fazia negócio: refrescos, rebuçados, sabão, óleo; tinha lá uma moça a trabalhar para ela, mas começou a roubar e a levar a família para dormir lá e Annie encerrou o negócio. Desde o final de Setembro teve que ir viver para essa barraca com as filhas e a neta porque os patrões queixaram-se que as crianças faziam muito barulho.
Antes deste trabalho Annie fazia viagens entre Zimbabué e Moçambique, como filha de moçambicanos e nascida no Zimbabué tem facilidade para cruzar esta fronteira. Comprava de um lado e vendia do outro, assim fazia sobreviver a famiília. Está muito mais satisfeita com o seu novo trabalho. O facto de falar bem inglês foi determinante para arranjar o trabalho com patrões australianos.
Em Chitehwe vivem em permanência Peter, Rojasse e Justino. Peter frequenta a 7ª classe, começa as aulas às 7h30, vai a pé ou de bicicleta, chega à escola sem comer, só come às 12h30 quando regressa a casa e come o almoço que Rojasse deixa preparado. Não tem calças de uniforme. Quer estudar até à 12ª classe e depois tirar o curso de professor, a mãe preferia que ele tirasse um curso profissional de mecânico em Chimoio. Durante a tarde trata das galinhas. Visita, às vezes, a mãe na AusMoz.
Rojasse Moisés, de 19 anos frequenta a 8ª classe na mesma escola que o irmão, a Escola de Chinhamapere, tem sapatos pretos para ir para a escola e uniforme completo, agora tem um relógio de pulso que a mamã deu, começa as aulas às 12h30. “Antes de teres o relógio como é que sabias a que horas tinhas que partir para a escola?”, “Ouvia as horas na rádio.” “E antes de terem o rádio?”, “Trabalhava com o sol...” “Que horas são agora?”, Rojasse está sem o relógio no pulso, olha para o sol: “11h!” São 11 horas e cinco minutos, está calor, algumas nuvens brancas pontuam o céu sobre Chitehwe.
Antes de sair para a escola almoça, lava os dentes e lava-se com sabão para a roupa, um pedaço de sarapilheira é a sua escova para esfregar as pernas e os braços.
Rojasse quer ser professor para ajudar os que querem aprender. De manhã, antes das aulas vai buscar água: 20 ou 40 litros dependendo do número de pessoas que estão em casa; limpa a casa e cozinha para si e para os irmãos: bolos, chá ou talvez um refogado de repolho e tomate com xima, se houver. Ao fim de semana joga à bola na zona da escola, fazem campeonatos; é também no fim de semana que vai ao riacho lavar roupa. Ele e os irmãos frequentam uma ou mais que uma das dezenas de Igrejas que proliferam tanto no campo como nas cidades moçambicanas. O seu irmão Justino, de 13 anos frequentava a 3ª classe, mas em Setembro foi expulso, apanhou um PPF (Perdeu Período por Faltas), castigo para os alunos que faltam mais de 10 dias às aulas sem justificação alguma. Sem a mãe e os irmãos saberem não iá às aulas. Justino ocupa-se do gado, leva os bois a pastar às montanhas. às vezes viola a fronteira e vai pelas montanhas a um certo ponto buscar pacotes de açúcar zimbabueano, faz vários quilómetros até entregar o açúcar noutro ponto já em Moçambique, pagam-lhe 10.000 meticais pelo trabalho. Tal como os irmãos, Justino nunca viu o mar, vivendo a 250km da costa de Moçambique.
O negócio das galinhas é gerido pelos três irmãos com supervisão da mãe. Annie fez o investimento inicial e ela é que compra a ração, os filhos tratam das galinhas quotidianamente e vendem-nas na cidade.
Prisca, de 11 anos, vive com a mamã na AusMoz. Está na 3ª classe, estuda numa escola a 30 minutos a pé de casa, a EP1 Moza, as suas aulas começam às 7h30 e acabam às 10h55. Nesta escola, dada a extrema pobreza das crianças que a frequentam, o director optou por “dispensar” as crianças do uniforme, senão teria a escola vazia. Prisca leva para a escola uma pequena geleira com gelo doce que vende aos colegas, a mãe compra na cidade um lote de 50 a 25.000 meticais, Prisca vende cada um a 1000 produzindo um lucro de 100% que entrega à mãe. Precious, de 5 anos, filha de Maudi, vive com a avó e toma conta da sua tia Anilsa de 2 anos enquanto a avó trabalha para os australianos e a outra tia, Prisca, vai à escola aprender e vender gelinho.Há uma diferença entre estas famílias, Annie tem um trabalho com salário fixo que mesmo sendo curto possibilita uma vida mais digna para a mãe e as crianças e ainda permite o investimento nas galinhas e no gelo doce que a filha vende. Com um salário fixo, pelo menos é possivel programar a vida e perspectivar o futuro. Ao contrário dela, Teresinha não tem quase nada e não sabe quando terá pouco.
Estas são pessoas que o Banco Mundial não veio visitar e sentar na esteira para conversar e consultar quando força o governo moçambicano a gerar receitas com o uniforme obrigatório na escola pública. Estas são as vidas de quem nunca encontrou na vida qualquer ajuda das ONG’s que proliferam nas capitais de província, com sedes magníficas na capital do país. É impressionante o número de jipes equipados de grandes antenas que circulam com as siglas de qualquer programa mundial ou regional de combate ou ajuda a qualquer coisa, mas só nos cruzamos com eles na cidade, nas estradas de asfalto, nas bombas de gasolina ou à porta dos restaurantes onde uma refeição pode custar meio salário mínimo. É alarmante como muitas destas organizações se perpetuam, observando que os problemas continuam para justificar a sua presença e o seu fraco desempenho. O grande papel de muitas ONG’s é suprir a falta de emprego no primeiro mundo, colocando quadros a trabalhar no terceiro mundo com bons salários, ajudas de custo e viagens a casa. O luxo do primeiro mundo em África, ao lado da pobreza que nem conhecem, e também por isso, não conseguem encontrar as formas de a vencer. Nuno Milagre
28.660 meticais = 1 euro
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.