Roteiro para a guerra
Palestina · Combate, junho de 2003, edição em linha
Jornal2003António LouçãOs que o inventaram não tinham ilusões e chamaram-lhe um nome simples e chão: road map. A imprensa francófona também se ficou pela tradução literal e chamou-lhe feuille de route, a hispanófona hoja de ruta, a alemã Streckenkarte. Só a subserviente imprensa portuguesa, em vez de traduzir o nome por "mapa de estrada", tem preferido chamar-lhe "roteiro para a paz". Tradução tendenciosa, que o tempo - e não foi preciso muito - já se encarregou de cobrir de ridículo.
Tem o road map alguma relação com a "paz"? Ao povo palestiniano é prometido que terá o seu Estado nacional em 2005. Com uma condição: não lutar por esse Estado. Enquanto o exército sionista mata todos os dias homens e mulheres de todas as idades, "terroristas" de oito e nove anos, o primeiro-ministro Abu Mazen deve impedir os atentados suicidas, mesmo que eles sejam cometidos por cidadãos britânicos, como foi o caso recentemente.
Se esta missão impossível se cumprisse, o povo palestiniano deveria obter dentro de dois anos uma caricatura de Estado independente, que nem sequer corresponde às fronteiras de 1967. Desta vez já só lhe prometem para o seu Estado cerca de metade da Cisjordânia e dois terços da Faixa de Gaza. De Jerusalém oriental, nem falar. Entre os dois territórios não haveria qualquer continuidade, e entre os vários pedaços da Cisjordânia supõe-se que seria possível construir um labirinto de estradas e túneis, sem check-points israelitas de permeio.
O conceito de viabilidade deste "Estado" palestiniano é inspirado nos bantustões do apartheid sul-africano, como reconheceu Sharon numa conversa privada com o ex-primeiro-ministro italiano Massimo d’Alema, que agora a tornou pública. O exemplo dos bantustões sempre foi seguido com interesse pelos círculos dirigentes israelitas. Os capitalistas israelitas desenvolveram com eles relações comerciais que, segundo as palavras do diário liberal Ha’aretz, enfureceram os liberais norte-americanos hostis ao apartheid. Entretanto, o sionismo tem imitado os bantustões do apartheid até ao pormenor de prever para a Cisjordânia o mesmo número que Pretória previa para a África do Sul: dez. Mas há uma diferença importante, como observa Chomsky: o nazismo boer chegou a instituir quatro desses dez, em alguns casos sob administrações negras com poderes muito limitados mas, ainda assim, autónomas. Os autores do road map julgam que a mera promessa de uma pátria bantustânica é suficiente cenoura para agitar frente aos narizes do povo palestiniano e obter dele o deslumbramento e a capitulação.
Sobre o que é prometido para dentro de dois anos, não precisamos, portanto, de especular muito mais. Dentro de dois anos, todo este rendilhado de engenharia diplomática será uma simples nota de rodapé em livros de História. Para já, a única coisa que é oferecida aos palestinianos em troca da capitulação é um congelamento da construção de novos colonatos e o desmantelamento dos que foram construídos desde Março de 2001.
Porque é que Sharon não assinou ainda este documento leonino, que constitui uma verdadeira acta de capitulação palestiniana? Muito simplesmente porque a sua política consiste em prosseguir a limpeza étnica – aquilo que no jargão só levemente eufemístico do sionismo se costuma chamar "transferência de populações". Sharon sabe que pode contar com o apoio incondicional de Bush e este sabe que pode ditar aos seus sub-empreiteiros do "Quarteto" (UE, ONU e Rússia) os mais extravagantes "roteiros", como este, destinados a provocar mais guerra.
A guerra não mete medo aos Sharon e aos Bush, não só por serem irresponsáveis, e por ignorarem um conjunto vasto de implicações desta humilhação sistemática dos povos árabes, mas também porque, no curto prazo, se sentem confirmados pelos acontecimentos. Se este roteiro conduz à guerra, como é o caso, eles entendem que é um bom roteiro, porque a guerra vem em boa altura e acham que podem ganhá-la sem custos exorbitantes. Cabe ao movimento de solidariedade internacional torná-la muito mais cara para os donos do mundo. Um autêntico "roteiro para a paz" não surgirá de novas fórmulas imaginativas e engenhosas. Ele só será possível quando tivermos conseguido mudar a relação de forças existente.
António Louçã
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.