SPGL Aprender a reinventar o sindicalismo
Combate, abril e maio de 2003, edição em linha
Jornal2003Carlos CarujoOs/as professores/as do SPGL (Sindicato de Professores da Grande Lisboa) têm assistido a um sindicalismo sem chama, de um defensismo básico e desarmante, mais apostado em "parecer credível" junto do poder político do que em mobilizar para as grandes lutas e reflexões de que o sector da educação necessita. Um sindicalismo que cresce no número de associados mas que aperta as malhas da participação nas decisões mais importantes, remetidas para as cúpulas estratosféricas (em que nem mesmo a maior parte dos seus dirigentes tem palavra). Uma estrutura de direcção incapaz de se renovar, etariamente e em termos de ideias. O diagnóstico deste tipo de sindicalismo é mais que conhecido, semelhante a outras paragens, burocratização, sindicalismo rotineiro, o sindicalismo feito carreira de alguns.
Mas porque há quem queira mudar, e apesar do afã com que se trancou os estatutos para não haver possibilidade de se afirmar uma alternativa para lá dos grandes grupos partidários, um grupo de sócios/as decidiu tomar em mãos a tarefa de construir uma alternativa e construir uma lista para a direcção, agora que as eleições estão aí à porta.
Mais urgente se torna esta alternativa num momento em que o governo ataca os direitos dos/as professores/as e a própria ideia de escola pública e em que um futuro de mais desemprego, instabilidade profissional, mercantilização da gestão e dos espaços escolares, desinvestimento nos sectores sociais do estado, discurso neo-conservador sobre a sexualidade e a disciplina ameaça invadir a escola. Torna-se assim necessário reinventar o sindicalismo docente. E reforçar a combatividade é a condição necessária para vencer esta ofensiva do governo da direita.
Este sindicalismo que queremos construir deve também estar aberto à nova combatividade dos movimentos por uma globalização diferente que internacionalmente desponta, deve estabelecer laços com a sociedade civil e os movimentos sociais, não se pode fechar na sua concha sindical.
O programa desta alternativa passa pela defesa da escola pública mas não como defensismo do estabelecido, porque defender a escola é conhecer-lhe as limitações e não ter medo de lutar para mudar o que está mal, é manifestar-se contra a tendência de recuar face à reformite aguda dos ministérios da Educação e defender hoje o que ontem era o mau. Defende-se também a criação de um plano de emprego que aumente a qualidade do ensino leccionado, valorizando a escola e os seus profissionais, unindo os vários intervenientes na mesma luta contra o desinvestimento na educação.
Este é um programa baseado na democracia participativa para a vida do sindicato. Nesse sentido se apresentam compromissos como a limitação de mandatos, contra as direcções que se eternizam nos lugares vendo o sindicato como seu, a valorização do papel dos delegados sindicais e das decisões em assembleia geral, a aplicação do método de Hondt na direcção, desblindagem das limitações estatuárias para concorrer às direcções que têm limitado a participação na vida sindical. Um programa a defender no interior do SPGL e da CGTP. Porque queremos aprender a mudar o sindicalismo dos/as professores/as mas não nos abstemos de querer contribuir para a mudança que o sindicalismo no seu conjunto necessita.
O desafio de concorrer para mudar o sindicalismo é o mesmo de trabalhar para mudar a escola. É um desafio exigente mas urgente, é nesta urgência que podem começar a esboçar-se alternativas a todas as resignações.
Carlos Carujo
Não resisto à tentação de cometer uma inconfidência final e contar um episódio destes dias pré-eleitorais, em que em conversa breve um destacado dirigente da lista da actual direcção sindical dizia que a lista que apresentamos não era para ganhar porque o nosso candidato à presidência seria um contratado. Apesar de não corresponder à verdade, o candidato apesar de jovem é já efectivo o que não obstante ser raro ainda pode acontecer em alguns grupos disciplinares, talvez isto mostre a distância que existe entre duas concepções de sindicato. A lista a que pertenço acredita que um precário pode ser presidente de um sindicato e que o combate à precarização é talvez um dos maiores desafios colocados ao sindicalismo, tal como o é a renovação do sindicalismo e da participação cívica. CC
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.