Uma outra Europa é possível
Imigrantes · Combate, fevereiro de 2003, edição em linha
Jornal2003Mamadou BaFicou claro para todos os que estivemos em Florença que a promiscuidade entre o capitalismo e a política numa escala global, os contornos das políticas europeias - como que um prolongamento da ofensiva neoliberal global - são uma realidade que condiciona, hoje em dia, o quotidiano de todos habitantes do planeta e que, como dizia Daniel Bensaid, "a mundialização neoliberal quebra a correspondência funcional entre o espaço monetário, económico, social e o do compromisso político." Porém, o ultradesenvolvimento tecnológico, científico, a disseminação e a multiplicação do capital a nível mundial aumentam as desigualdades criando um movimento considerável de pessoas.
Estimam-se hoje que na Europa-Fortaleza vivem, trabalhem, circulam mais de 20 milhões de pessoas imigrantes. No entanto, estes mais de 20 milhões de trabalhadores imigrados não entram na estatística dos 350 milhões de trabalhadores dos países ricos que ganham por hora menos de 18 dólares contra 1 ou 2 dólares para 1,2 bilhão de trabalhadores dos países pobres! Dentro deste contigente desigual e desproporcional de trabalhadores criou-se, a nível global, um exército de reserva fluida de mão-de-obra, de, pelo menos, uma larga centena de milhão de imigrantes. Este contigente está em permanente oscilação consoante "o yin-yang" do mercado de trabalho mundial, tal como toda a definição e a orientação da política internacional se sustentam pelos sobressaltos e reviravoltas do mercado económico-financeiro especulativo internacional.
Este contigente, até há pouco tempo, apenas tinha voz e nome através de associações de defesa de direitos humanos, às vezes, encaradas com paternalismo, outras vezes com filantropia. Sempre foi um sujeito passivo do movimento social, quase nunca assumiu o papel de actor. Agora passou a ter um papel interventivo neste "movimento dos movimentos", levando as suas preocupações para cima da mesa do fórum social europeu de Florença. De facto, Florença foi um palco e um espaço onde a problemática da imigração foi debatida também com os imigrantes (fórum dos imigrantes), pelos imigrantes (seminários e coordenações), o que permitiu, de certa forma, uma abordagem substancialmente rica, tendo em conta as experiências concretas trazidas à luz pelos próprios imigrantes.
Sendo que, sempre, a problemática da imigração esteve directamente ligada ao racismo, à xenofobia, à discriminação e à intolerância - temas estes que faziam parte do leque diversificado dos assuntos tratados, em Florença, por todos - levou o universo dos participantes a unir as suas vozes contra a Europa–Fortaleza e a exigir a cidadania para todos.
Frente aos movimentos migratórios gerados pelas convulsões da Europa central e oriental, pelas guerras, pela miséria, pela chantagem no emprego à escala planetária,"em vez de naturalizar uma fracção ao menos dos recém-chegados, os países puseram-se a anular as naturalizações anteriores" e a introduzir uma legislação [europeia] para preparar "desnaturalizações em massa". Ora, incapaz de fornecer uma lei para os que perderem a protecção, para os que procuram melhorar a sua condição humana, a Europa, sob um pano de fundo do ressurgimento da Extrema-Direita, já cedeu às tentações securitárias, "repondo o problema [da imigração] nas mãos da polícia". A única resposta até agora das políticas europeias de imigração é a repressão, a perseguição, a ausência de direito, a guetização. O disfuncionamento entre mobilidade do mercado de trabalho e a vontade de acantonar o exército de reserva de trabalhadores imigrantes leva sistematicamente a uma violação flagrante dos direitos básicos consignados nos vários instrumentos jurididicos internacionais. É contra este atentado e outros, que milhares e milhares de cidadãos oriundos de várias e diversificadas sensibilidades da opinião pública europeia se encontraram em Florença para reclamar de voz viva, uma outra Europa possível!
Mamadou Ba, activista da associação SOS Racismo
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.