A construção de um novo caminho
Fórum Social Português · Combate, junho de 2003, edição em linha
Jornal2003Nos próximos dias 7 a 10 de Junho realizar-se-á em Lisboa o primeiro Fórum Social Português, um evento que resulta de um processo iniciado há cerca de um ano e que pretende desenvolver uma nova forma de intervenção social! Este fórum integra-se assim no processo internacional de criação de um "movimento de movimentos", criadora de sinergias diversas entre os movimentos sociais com o seu expoente máximo no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, de que se realizou este ano a terceira edição. Mas este "novo" movimento tem alguns momentos histórico de grande riqueza política como foram as manifestações de Seattle e de Génova, ou as campanhas da ATTAC em França no final dos anos 90.
O processo de construção e de edificação do Fórum Social Português constitui-se num espaço de encontro e discussão, plural e diverso, das organizações, activistas e movimentos sociais portugueses. Podem participar todas e todos que se identifiquem com a Declaração de Coimbra e com a Carta de Princípios do Fórum Social Mundial, a partir desse objectivo comum de construção de um outro mundo, que sabemos e queremos possível. O programa do Fórum é constituído por conferências, oficinas, encontros, mesas de diálogo e controvérsia, exposições, bancas, pontos de encontro e eventos culturais, enquadradas em três grandes áreas temáticas, ou eixos: Democracia, Cidadania, Direitos e Serviços Públicos; Trabalho, Economia, Globalização e Desenvolvimento Sustentável; Defesa e Promoção da Paz e da Solidariedade e Luta Contra a Guerra.
Estes temas aglutinadores foram assim neste processo o modo de coordenação e intervenção dos diferentes movimentos sociais que ao longo de um ano, foram capazes de num enquadramento político desfavorável, construir aquilo que hoje todos entendemos como sendo um dos mais importantes eventos políticos do país deste início de século.
Este caminho que apenas agora começou e no qual os movimentos sociais deverão entender a necessidade de avançar definitivamente para a construção de plataformas de intervenção social e política como formas as manifestações contra a guerra, ou o apoio explícito dos movimentos LGBT e Feminista na luta contra o Código do Trabalho. Estes exemplos são apenas caminhos, que se estão a começar a construir, e que pretendemos terminem numa grande praça de intervenção social de todos e para todos... Ora esta construção conjunta não é fácil porque vimos de caminhos diversificados, de hábitos e métodos por vezes antagónicos...
Esse caminho vamos construi-lo no primeiro Fórum Social Português, mesmo que alguns tenham alguma dificuldade em perceber a riqueza e a dinâmica deste processo, fonte da construção de um outro mundo que queremos e que sabemos possível e que será assim elemento e factor de construção de um outro país num outra Europa.
Paulo Jorge Vieira
Criar novas alternativas contra a homofobia
A presença do movimento LGBT (Lésbico, Gay, Bissexual e Transgender) no processo contínuo a que chamamos Fórum Social Português, e que terá esse grande momento dentro de dias, tem sido intensa não apenas pelo modo como se integrou no processo de construção efectiva do evento como ainda pela construção programática do evento do FSP. A construção deste programa terá três palcos fundamentais, a saber: a conferência "Sexualidades emancipatórias em sociedades patriarcais" que pretende discutir um conjunto de temáticas relacionadas com questões de género e sexualidade em Portugal; o conjunto largo de oficinas – no total de 14 - e mesa de controvérsia propostos por organizações deste movimento social; e finalmente o Espaço Arco-Íris, espaço físico de sociabilidade e intervenção política da comunidade LGBT no FSP.
Durante a conferência, um dos grandes eventos do FSP, temas como sexualidade, educação e os processos emancipatórios, as questões reprodutivas, as diferentes formas de violência patriarcal, ou o conceito de família serão tratados a partir de visões do movimento feminista, mas com intervenções que, esperamos, reforcem as ligações entre sexismo e homofobia. Esta conferência terá ainda a presença de temáticas da agenda deste movimento como seja uma caracterização social e legal da população e da "comunidade" LGBT, a cargo do activista Miguel Vale de Almeida, bem como uma questão muito cara ao movimento: como a questão da luta contra a homofobia se torna uma questão central no combate ao conservadorismo e nos processos emancipatório de todos, temática que será desenvolvida por Ana Cristina Santos.
Já relativamente às diferentes Oficinas e Mesas de Diálogo e Controvérsia, propostas pelas diferentes organizações LGBT portuguesas, estas abrangem diferentes temas da agenda política e social deste movimento com destaque para os processos discriminações que as linguagens usam - "as palavras nunca ditas"; ou como as histórias do nossos quotidianos transmitem e reforçam as discriminações, ou ainda como as formas de violência homofóbica atingem as populações no mundo.
Mas outras questões centrais como a transexualidade em Portugal ou a promoção de uma educação sexual nas escolas aberta, (in)formada e responsável serão tratadas neste fórum através de oficinas, havendo ainda alguns eventos que tratarão temas como descortinar "como a homofobia nos afecta a tod@s", ou o sempre polémico tema da visibilidade homossexual, debatida a partir da interrogação "forma de luta ou provocação gratuita?".
Nas Mesas de Diálogo e Controvérsia destaca-se um mesa de controvérsia sobre as sempre difíceis relações entre orientação sexual e os movimentos sociais em Portugal, intitulada de um forma provocatória "Nós e os outros!", havendo aidna espaço para discutir as questões relacionadas com a diversidade sexual e de género no mundo do trabalho, e a participação numa análise em torno da temática dos movimentos sociais, suas práticas no passado e no presente.
Finalmente um dos palcos de intervenção do movimento LGBT passa ainda pelo "Espaço Arco-Íris", espaço físico de exposição e intervenção social e sociabilidade da comunidade LGBT presente no FSP e que apresentará os materiais das diferentes associações criando discussões próprias para o desenvolvimento de redes alternativas de trabalho no movimento LGBT. Esta intervenção terá também uma marca na primeira Assembleia de Movimentos Sociais, a realizar no dia 10 bem como na manifestação/marcha que mostrará o dinamismo dos movimentos sociais portugueses e que se constituirá em pleno mês de Junho como a primeira "Marcha do Orgulho" deste ano de 2003.
PJV
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.