combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

A "crise", a produtividade, o Estado e as empresas

João Martins Pereira · julho de 2002 · Jornal · 532 palavras

Combate, julho e agosto de 2002, edição em linha

DIZIA-ME há anos um pequeno empresário (mas conhecido dirigente patronal) que se despedisse metade do pessoal, duplicava a produtividade, num primarismo aritmético aparentemente sem falha. Na verdade, o que ele queria dizer era "se me deixassem despedir". E assim apontava o Estado, via leis laborais, como responsável pela sua baixa produtividade.

Afinal o homem era apenas um percursor. Muitos distintos economistas, ao debater a actual "crise da economia portuguesa", justamente consideram a baixa produtividade como factor estrutural preponderante, e atribuem ao Estado a exclusiva culpa desse facto. Ele são as ditas leis laborais, mas também o sistema fiscal, a insuficiente formação profissional e a própria baixa produtividade do Estado (a ser obviamente aumentada, deduz-se, com a privatização dos serviços públicos). Faço um parêntese para recordar que há bem pouco tempo o insuspeito "patrão dos patrões" declarou na televisão não achar prioritário mexer nas leis laborais e não considerar que, de momento, se possa falar de crise económica.

Na verdade, quando se ouve falar os tais economistas, que apenas caucionam com a sua "ciência" a generalidade das posições patronais, fica-se com a impressão de que ser-se empresário privado em Portugal, com este Estado incapaz, é um verdadeiro fardo (à semelhança do que dizia Kipling do colonialismo : "o fardo do homem branco"), ou uma espécie de purgatório. Nem se chega a perceber bem porque razão os mesmos economistas tanto clamam por privatizações...

Esquece-se que, em capitalismo, os responsáveis últimos pela produtividade (e pela competitividade, de que tanto se fala) das suas empresas são, fatalmente, os próprios empresários. Esquece-se que a produtividade é baixa porque a larga maioria dos empresários não investe o suficiente, não tem competências de gestão e organização (veja-se um recente estudo internacional sobre os gestores portugueses), não adopta tecnologias mais modernas, não tem corpo técnico à altura. Como é bem sabido, os empresários assentam os seus belos negócios na mão-de-obra barata, quando não na fuga ao fisco, enquanto vão recebendo chorudos subsídios do Estado, que não lhes têm faltado desde que em 1989 começou o grande bodo europeu. Não é por acaso que, nos últimos 20 anos, a maior parte da indústria portuguesa se acantonou a Norte do Mondego: mais baixos salários, gente politicamente mais dócil. Até a cortiça emigrou do Seixal e do Barreiro para a Vila da Feira. A coroa industrial de Lisboa e a península de Setúbal ficaram praticamente desertas. Com a excepção quase única da indústria automóvel, que de resto veio também pelos baixos salários e imensos subsídios. E partirá porventura um dia, quando os salários portugueses deixarem de ser "competitivos", como sucedeu com a Renault.

Enfim, talvez se possa concluir dizendo que este capitalismo doméstico, tradicionalista e avesso ao risco, poderá, ele sim, ser olhado como um verdadeiro fardo por quem pense em termos de desenvolvimento económico e social. As razões porque assim é e o papel que nisso desempenha a "ordem capitalista internacional" já ficam fora do âmbito deste artigo. Mas são questões em que vale a pena meditar.

Quanto à "crise", tudo indica que este Governo fará tudo para que ela venha a aparecer, não tarda muito. Sem falar daqueles, muitos, que o sistema condena a viver em crise permanente.

João Martins Pereira

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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