liberdade, democracia direitos para as mulheres
Afeganistão · Combate, julho e agosto de 2002, edição em linha
Jornal2002Sahar (nome fictício), activista da Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão (RAWA, sigla inglesa) veio novamente à Europa falar sobre a situação das mulheres afegãs. Desta vez, passou por nós. A associação, cujo lema é o título desta peça, foi fundada no final dos anos 70 por uma estudante da Universidade de Cabul, Meena, assassinada em 1987 por agentes do KGB, com a ajuda do senhor da guerra Gulboddin Hekmatyar. Pois ele agora regressa ao poder, com apoio dos “aliados”
Só recentemente, pelas circunstâncias da guerra, a RAWA ganhou visibilidade no Ocidente. Desde quando está activa?
A Associação foi estabelecida em 1977, para lutar pelos direitos das mulheres e por democracia. Mas logo começou a guerra contra os russos e tudo se alterou. A RAWA passou a estar envolvida na movimento de resistência contra os russos e, mais tarde, contra os grupos fundamentalistas, especialmente a partir de 1992 quando eles tomaram o poder. E depois vieram os talibã. Mas os nossos objectivos mantiveram-se sempre: direitos para as mulheres, democracia e justiça social.
Porém, actualmente, o que estamos a fazer é tentar conseguir garantir os direitos básicos não apenas para as mulheres mas para toda a gente, porque as pessoas perderam tudo nesta guerra, especialmente depois da vaga fundamentalista. A RAWA está activa no Paquistão, sobretudo nos campos de refugiados, embora seja apenas semi-legal. Não é ilegal mas também não é registada. Mas também estamos em várias partes do Afeganistão.
A RAWA tem apoios masculinos?
Temos muito bons apoiantes masculinos, mas estes não podem ser membros das associação. Vivemos numa sociedade dominada pelos homens, eles tentariam naturalmente a sua influência, nomeadamente na liderança, e as hipóteses de desenvolver as potencialidades das mulheres e de lhes dar algum poder de decisão continuariam ocultadas.
Neste caso de forma clandestina?
Exacto. Os direitos básicos não estão assegurados no Afeganistão. O perigo que enfrentávamos continua lá, é o fundamentalismo. No Paquistão, temos alguns tipos de actividades abertas, como manifestações. Temos inclusivamente algumas escolas e cursos de literacia, orfanatos, pequenas clínicas de cuidados médicos ou oficinas, por exemplo, de confecção de roupas. Com estas estruturas geramos algum emprego para as mulheres que se encontram em situações de maior violência, tentando conseguir a sua auto-determinação financeira. E também tentamos, enquanto uma organização de mulheres política e feminista, elevar a consciência das pessoas, sobretudo em termos da educação política das mulheres. Tentamos explicar como é importante, como mulheres, que nos envolvamos activamente em todos os planos da vida e da sociedade. Temos que começar pelas coisas mais básicas, como a educação, e depois tentar motivá-las e organizá-las. Por outro lado, fazemos a denúncia das violações dos direitos humanos no país, até porque não é possível encontrar quaisquer outras organizações que o façam ou outras fontes. Claro que isto tem riscos para as nossas vidas.
Como é que estão organizadas no interior do Afeganistão?
No Afeganistão, temos quase o mesmos projectos que no Paquistão, mas com muito mais dificuldades, clandestinamente e em menor escala. Não temos escolas, porque não é possível, embora demos as mesmas aulas de literacia, e tenhamos igualmente projectos de auto-suficiência económica ou orfanato. No interior do país, documentamos sobretudo as violações dos direitos humanos e distribuímos as nossas publicações.
Alguma vez apanharam alguma activista?
Nunca, felizmente, porque assim que a situação se começou a tornar tão sufocante, a RAWA ensinou-nos a lidar com ela. Lutámos muito por encontrar formas e espaços para trabalhar. Algumas das nossas apoiantes já foram agredidas, mas nada de muito grave.
Com quantas activistas conta a associação?
Cerca de 2000 mulheres, actualmente, mas a diferentes níveis, nem todas estão especialmente activas, porque ainda têm os seus problemas familiares. Para muitas, não é possível ser muito activa, mas trabalhamos com este número de mulheres, foi o que conseguimos até agora. Temos todos os tipos de mulheres, casadas ou não, com diferentes crenças religiosas e de diferentes grupos étnicos do Afeganistão quem têm pelo menos a liberdade de acreditar naquilo que querem.
Como é que a intervenção norte-americana no país e a queda dos talibã incidiram sobre a situação das mulheres?
De facto, nada mudou para as mulheres afegãs, pelo menos para a grande maioria. Lá porque apareceu uma mulher ou outra sem a "burqua" na televisão, isso não tem significado. A maioria continua a usar a "burqua", mesmo em Cabul, não porque gostem mas porque não têm confiança, sobretudo por falta de segurança e por medo dos soldados da Aliança do Norte. Teoricamente, as mulheres passaram a poder ir à escola, mas para isso era necessário que existissem escolas e que houvesse segurança. Os fundamentalistas continuam presentes. Eles continuam no poder, continua a haver senhores da guerra que disputam o poder. As vítimas são o povo e particularmente as mulheres. Até as leis deles continuam em vigor, e as suas punições e execuções baseadas na Sharia, a lei islâmica. A Aliança do Norte é fundamentalista e há outros grupos ainda.
E quanto a Karzai, que saltou de uma multinacional norte-americana com interesses na região para a liderança do governo?
Pelo menos não é um fundamentalista, é um pouco diferente, mas temos muitas dúvidas sobre ele, sobre o seu espaço de manobra e sobre as suas ligações menos claras. Por isso, temos muita cautela quanto a ele. As nossas reticências quanto ao governo de Karzai prendem-se sobretudo com o facto de este ter partilhado o poder com os criminosos da Aliança do Norte. Eles destruíram o nosso país. Ainda assim, tentámos contactar alguns ministros da facção do rei Zahir Shah, mas ainda nenhuns ouviram a RAWA. Tal como a coligação internacional e as Nações Unidas, a quem alertámos para o perigo que representa apoiar uma liderança com a presença dos fundamentalistas.
Massoud, o comandante da Aliança do Norte morto pelos taliban, era também um "criminoso"?
Sim, todos eles são. Eles são todos responsáveis. Massoud era ministro da Defesa e, entre 92 e 96, quando os diferentes grupos disputavam o poder em Cabul, as suas forças pilharam, mataram, raptaram e violaram centenas de pessoas. Calculem o nosso espanto quando recentemente descobrimos que ele foi nomeado para Prémio Nobel da Paz pelos franceses.
Sobretudo depois da sua morte, uma imagem "polida" de Massoud foi usada no Ocidente para ajudar a convencer da necessidade de uma intervenção militar estrangeira...
Acredito, mas ele foi responsável e as suas vítimas continuam sem justiça. Ao permitir a incorporação destas pessoas, destes fundamentalistas no governo, a coligação internacional terá que aceitar as nossas dúvidas quanto às suas boas intenções em termos de direitos humanos.
É verdade que a RAWA deposita esperanças na figura do rei Zahir Shah?
Antes de responder a isso, tenho que dizer que outro papel negativo que a comunidade internacional desempenhou no Afeganistão, foi que, em vez de apoiar um curso democrático ou facções moderadas ou de mente mais aberta, estes governos apoiaram, muitas vezes, os fundamentalistas. É esse motivo pelo qual não temos, hoje, nenhuma alternativa democrática. Quanto à questão do rei: as pessoas comparam o tempo em que ele governava o Afeganistão com o tempo de guerra. Para muitos afegãos, o tempo do rei foi melhor, o que não significa que o apoiem. Mas nós consideramos que ele pode ser um elemento da solução, um primeiro passo, uma opção onde não existe mais nenhuma, e por esse motivo também a RAWA - que não pode, por si, ser uma alternativa - o apoia. A maioria das pessoas que o apoia fá-lo simplesmente por ele e os seus apoiantes serem os únicos que não são fundamentalistas, nem estão ligados às suas atrocidades. Veremos o apoio que ele tem da coligação internacional... Portanto, temos que vê-lo como uma opção, actualmente.
Entrevista de Sérgio Vitorino
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.