a luta fora da passerele
Universidades · Combate, setembro de 2002, edição em linha
Jornal2002O filme repete-se. É durante as férias que eles gostam mais de anunciar que o Ensino Superior vai levar mais umas tesouradas no seu já parco orçamento, não vão os estudantes organizar-se imediatamente e encostar ministros e governos à parede. Até agora, nada de novo. Os reitores já vieram dizer que, se se vierem a confirmar os cortes anunciados pelo novo Ministro Pedro Lynce (desta vez são cortes reais de 5%, sem contar com a inflação) as Faculdades vão fechar as portas porque não dá para funcionar. Mas, nada de novo. Elas vão abrir as portas sim senhor. Basta virem as migalhas negociáveis para, juntamente com o dinheiro das propinas, pagar bem à rasquinha os salários a professores e funcionários. São os discursos do costume, ai a qualidade, ai os salários, ai as condições, mas as portas vão abrir, até porque os reitores são funcionários do Estado e estão lá para cumprir. Convençamo-nos disto: as portas só fecharão se forem os estudantes a pôr os cadeados. E terão razões para isso?
Lá isso têm. Mas é preciso clarificar o discurso e passar a ofensiva. Esta história, que se repete ano após ano, dos panfletos cheios de números sobre o montante dos cortes e de frases vagas sobre a importância do Ensino Superior já deu o que tinha a dar e que foi muito pouco. Há que dizer, sem medo, que o direito ao saber deve ser consagrado na prática. É tudo uma questão de igualdade de direitos em relação aos que estão e aos que não estão no Ensino Superior e queriam estar. A partir do momento em que o Estado desinveste, significa que têm que investir os estudantes eles próprios. E o problema é que só investem aqueles cujas famílias podem. Porque se a escola não oferece condições sempre existe a carteira de alguns pais que as pode pagar em casa, em explicações, ou em boas privadas. Se o Estado desinveste, não é só a qualidade do ensino que piora, mas é também o fosso entre os estudantes que aumenta, é o salve-se quem puder e estatisticamente já se sabe quem é que pode. É este o c(h)erne da questão: só afirmando o ensino como um direito para todas e todos se pode sustentar a sua gratuitidade e um investimento total do Estado para garantir igualdade e qualidade. É preciso gritar isto.
E a verdade é que não vão ser aquelas reuniões de meninos (sim, porque raramente são meninas) muito bem aperaltados para a televisão, inchados com o protagonismo, acomodados, muito formais, alguns com traje outros sem ele, com discursos muito vagos mas muito preocupados com a dicção e a coerência gramatical – para nada dizer a não ser que o Governo tem que perceber que apostar no ensino superior vai contribuir para o desenvolvimento do país – eis os conhecidos Dirigentes estudantis. Mas qual desenvolvimento? Eles quase que pedem desculpa (não querem parecer jovens rebeldes pois ainda estão na fase das boas aparências e do fica bem o risco ao lado) por dizer qualquer coisa, e assim essa qualquer coisa acaba por ser assim uma coisa muito vaga e consensual e imediatamente desconstruída por quem tem mais anos de experiência na construção hipócrita e demagógica duma qualquer imagem.
Sim. Qual desenvolvimento? Apostar no Ensino Superior para termos um país economicamente mais desenvolvido, ou seja, com estruturas capitalistas e neoliberais mais avançadas, onde a competição supera a cooperação? Um país mais desenvolvido cultural e socialmente numa lógica de uniformização e formatação dos saberes? Um país mais desenvolvido tecnologicamente, com a tecnologia ao serviço de quem?
Têm que acabar os discursos neutros, muito dentro do sistema, que é para agradar a toda a gente. E isso não vai acontecer com estas Aes (grande parte das quais previamente colonizadas pela JSD que as vai usar como autênticas almofadas na contenção de qualquer contestação). É preciso entender que se os discursos neutros e à defesa não resultaram com um governo «de diálogo» e «muito apaixonado», muito menos resultarão agora. É que o que aí vem é um buldozer neoliberal que vai tentar varrer quem se meter à frente. No trabalho, na escola, na segurança social e na saúde. E a única saída que se impõe aos estudantes é precisamente a saída da casca pós-salazarenta do estudante que só estuda (e que só estuda aquilo que lhe põem á frente dos olhos). Sair da casca para, colectivamente, resistir a uma política que hoje e amanhã afecta os estudantes, os pais, os conhecidos e os amigos. É preciso menos formatação e mais indignação contra uma política global, porque, mais do que qualquer outro, este governo quer-nos impor (não só na escola) a globalização na sua componente mais selvagem. E a cidadania é também fazer das faculdades espaços onde se discute a sociedade e a política, onde se luta pelo presente e pelo futuro, ou doutra forma a luta antifascista nunca teria chegado às aulas.
Esta resistência deve começar já. Com Associações de estudantes combativas e que façam esquecer a palhaçada reaccionária da praxe neste início de ano mas, e porque sair da casca é também sair daquela casca pegajosa cuja seiva são enjoos colectivos de dirigentes associativos, com grupos abertos e horizontais, com todos os estudantes que quiserem participar, nas Faculdades e na rua.
Miguel Reis
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.