Há 3 meses no Sobreiro 19
Combate, setembro de 2002, edição em linha
Jornal2002Há três meses que um grupo de trabalhadoras da Vestus, apoiadas pelos maridos, estão de piquete, de dia e de noite, à porta da empresa, junto a um sobreiro. O seu objectivo é impedir que o patrão roube material da empresa (máquinas ou produtos acabados) e têm conseguido.
As falências sucedem-se diariamente por todo o país, sobretudo nos sectores textil e do calçado. Em boa parte dos casos trata-se de unidades fabris pertencentes a multinacionais, que estão a deslocalizar essas unidades para outros países. Na maior parte dos casos os trabalhadores vão para o desemprego, com salários em atraso, esperando um dia receber parte da indemnização a que têm direito. O passado ensina-nos que quase sempre nada recebem. A actual lei das falências permite as maiores fraudes. Os patrões actuam à vontade, preparando a falência e salvaguardando o que querem, e dão-se até ao luxo de, depois de pedirem a falência, roubarem da empresa os bens que têm algum valor. Os tribunais demoram meses a tomar conta do processo e anos a tratar da falência, sendo os trabalhadores quem sofre com este processo e no final, quase sempre, nada recebem.
A Vestus é uma empresa de confecções com 414 trabalhadoras (das pessoas que trabalhavam na empresa cerca de 400 são mulheres), situada em Corroios, no concelho do Seixal. Pertencia à multinacional Kansas que há poucos anos a vendeu por dez escudos...
Em Novembro o administrador Eric Larsson declara que a situação era difícil e em Dezembro a empresa entra em lay-off. Larsson vai retirando material até que em Abril a empresa deixa de produzir. Faltam encomendas, que são desviadas pela Kansas para outras unidades.
Eric Larsson é um homem com experiência na matéria, já encerrou 3 empresas e prepara-se, provavelmente para encerrar a Fristads em Alhos Vedros.
Sacrifício exemplar
As trabalhadoras permaneceram na empresa durante dois meses com salários em atraso, como as obriga a lei. No final dos dois meses, em Junho um grupo de trabalhadoras considerou que a luta não estava terminada, não se resumia à batalha no terreno jurídico e ao preechimento dos papéis para garantir o subsídio de desemprego e outras formalidades necessárias. E digo um grupo de trabalhadoras, porque a direcção do Sindicato dos Texteis do Sul da CGTP (melhor falando os dois principais dirigentes – António Marques, presidente da Federação, e Josélia Xavier) não seguiu o mesmo caminho, nunca apoiou a vigilância à porta da empresa e desde o princípio considerou que este era um sacrifício inútil.
É espantoso como uma pessoa que dirige um sindicato é capaz de dizer que uma luta de trabalhadores é um sacrifício inútil. Quantos e quantos sacrifícios inúteis, alguns até por absoluta miopia, foram por eles conduzidos? Quantos sacrifícios, aparentemente inúteis, foram, ao longo da história, lutas extraordinárias que desmascararam o capital, deram confiança aos trabalhadores nas suas forças e constituíram uma base para outras lutas, que acabaram por obter resultados importantes? Só uma visão distorcida, rotineira, sem espírito de classe e viciada em tudo controlar, pode encarar uma luta de trabalhadores desta forma, tão prejudicial para o combate ao capital e ao governo.
Esta era a melhor luta para os dirigentes sindicais dos texteis denunciarem e combaterem as falências, lutarem pela mudança da lei e sobretudo pela aplicação do Fundo de Garantia Salarial. O Fundo de Garantia Salarial permite aos trabalhadores com salários em atraso, receberem esses salários, assim como parte da indemnização e outros créditos a que tenham direito até um montante de cerca de 1200 contos. Só que o Fundo de Garantia Salarial não está a ser aplicado, a Confélis fechou há um ano e as trabalhadoras até hoje nada receberam desse Fundo, e com os cortes da Manuela Ferreira Leite o mais provável é que esse fundo continue letra morta.
Solidariedade necessária
As e os lutadores do sobreiro 19 (sobreiro 19 porque quando começaram a luta e se reuniram debaixo do sobreiro à porta da empresa eram 19) não estão parados. Realizaram em Agosto uma vigília com a presença de centenas de pessoas, de deputados do PS, PCP e BE, de representantes de outras empresas e de sectores da igreja católica.
Lançaram as bases para a constituição de uma Comissão de Solidariedade com as vítimas das falências no distrito de Setúbal e uma petição, que já recolheu mais de 5000 assinaturas, exigindo que a AR debata a aplicação do Fundo de Garantia Salarial e altere a favor dos trabalhadores a lei das falências.
Conseguiram assim não ficar isoladas e granjear mais apoios. Com o que estão a fazer poderão conseguir algo mais: que a luta contra as falências seja de facto uma questão de to@s @s cidadã(o)s.
Vão certamente prosseguir a sua luta. O Bloco de Esquerda apoia-as e continua a aprender com este extraordinário exemplo de luta, com este sacrifício que merece toda a nossa simpatia, respeito e solidariedade.
Carlos Santos, dirigente do Bloco de Esquerda
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.