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Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

À Memória de Moshe Lewin (1921-2010)

13 de outubro de 2010 · Batalha de ideias · 1.121 palavras

Grande especialista de história, em particular da história social e económica da União Soviética, Moshe Lewin morreu a 14 de agosto, em Paris. Tinha 88 anos. Texto de Alain Blum.

Nasceu a 7 de novembro de 1921, em Wilno, então cidade polaca, hoje Vilnius, capital de Lituânia. A sua mãe era russa e o seu pai era judeu polaco. Ambos desaparecem, em 1939, durante o extermínio dos judeus desta cidade. Moshe escapa do exército nazi num caminhão soviético que o deixou na Lituânia.

Durante toda a sua vida brindará um reconhecimento particular a estes soldados soviéticos que lhe permitiram escapar da morte, reconhecimento que também guardará para a URSS, ao mesmo tempo que desenvolverá um olhar profundamente crítico sobre a história deste país.

Uma vez instalado na URSS, trabalha num Kolkhoz, depois numa fundição dos Urais, e, alguns meses, numa escola de artilharia. Em 1945, como estrangeiro, é autorizado a abandonar a URSS: da Polónia passa a França. Depois parte para Israel, é militante sionista de esquerda e empreende estudos de economia na Universidade de Telavive.

Volta de novo a Paris, em 1961, e escreve uma tese sob a direção de Roger Portal, "A Paysannerie et le pouvoir soviétique" (Mouton, 1966), primeira etapa de um historiador que assinalou profundamente a historiografía soviética da segunda metade século XX. Nesta obra, pega no mundo camponês russo para revelá-lo em toda a sua complexidade, analisando as relações conflituais que mantinha com o poder soviético, bem como as tensões que o cruzavam. Oferece uma leitura inteiramente nova das fontes da burocratização soviética e trata de aprofundar o aspecto social e humano.

Enfrenta com inteligência muito particular as imensas dificuldades que provocavam o trabalho sobre estas fontes, a imprensa, os documentos oficiais publicados e as obras de historiadores e economistas soviéticos, dando uma grande lição de método, que não perdeu sua importância depois da abertura dos arquivos.

Após ter trabalhado na EPHE (depois Escola dos Altos Estudos em Ciências Sociais, EHESS), torna-se professor na Universidade de Birmingham (1968-1978), e depois na Universidade da Pensilvânia, até 1995. Viaja com frequência até França, país com o qual permaneceu relacionado toda a sua vida.

Tem várias obras essenciais: "La Formation du système soviétique. Essais sul l'histoire sociale da Russie dans l'entre-deux-guerres" (Gallimard, 1987), "Le Siècle soviétique" (Fayard/Lhe Monde diplomatique, 2003; em português "O século soviético", Campo da Comunicação, Lisboa, 2004). Desenvolve uma teoria sobre a formação do Estado soviético, da transformação do partido revolucionário em partido de administradores-burocratas que vira as costas à ideia revolucionária; esmíuça com precisão os mecanismos de tomada de decisão, e também, na segunda obra, expõe o lugar das personalidades nas orientações da URSS após o estalinismo.

Em "Le Dernier Combat de Lénine" (Editions de Minuit, 1967) ou em "The Political Undercurrents of Soviet Economic Debates: From Bukharin to the Modern Reformers? (Princeton University Press, 1974), Lewin sustenta que o estalinismo não era uma consequência inevitável da revolução, tendo sido possível uma saída alternativa, no âmbito político ou económico, referindo-se às teses de Bukharine.

Moshe Lewin comprometeu-se numa reflexão comparativa entre o estalinismo e o nazismo, numa obra feita com o historiador Ian Kershaw: "Stalinism and Nazism: Dictatorships in Comparison" (Cambridge University Press, 1997). Ambos fazem uma comparação entre os diferentes componentes da dinâmica dos dois sistemas. Destacando os pontos comuns de algumas formas políticas e sociais que precedem o aparecimento do estalinismo e do nazismo (monarquias autoritárias, burocracias, expansionismos e imperialismos). Ambos dão um lugar particular às teorias da modernização, destacando os fundamentos anti-capitalistas das duas ideologias.

Moshe Lewin adorava a polémica. Gostava de pensar que os seus inimigos intelectuais pensassem que ele não gostava deles, ainda que respeitasse os seus trabalhos. Não fazia concessões. Opunha-se, em múltiplas ocasiões, a quem a partir da escola totalitária o designava como o chefe de uma escola dita revisionista. Desafiando as teses dos que viam na União Soviética um sistema monolítico exclusivamente político, no qual só alguns líderes determinavam o curso da história, tentou compreender a URSS como um sistema social no qual a política devia ser vista como um sistema complexo, onde a burocracia, vista como grupo social em formação, era determinante. Analisava seriamente as lutas entre grupos sociais que foram parte da revolução soviética, bem como os conflitos internos na formação de uma classe burocrática.

Moshe Lewin tinha liberdade de espírito. Deixou todo um campo da historiografia soviética profundamente caracterizado pela sua obra e também pela sua personalidade. Este poliglota (dominava o polaco, o russo, o inglês, o francês, o alemão, o judeu-alemão e sua alternativa lituana o litvak, o hebreu) era um espírito brilhante, sempre atento à menor transformação do mundo contemporâneo. Gostava, em longos debates, de mudar de língua, surpreendendo sempre o seu interlocutor, passando da maior seriedade ao humor mais azedo.

* Alain Blum ensina na EHESS, em Paris. Este artigo foi publicado em La Breche. Tradução: diarioliberdade.org. Adaptação: António José André

O SÉCULO SOVIÉTICO

O SÉCULO SOVIÉTICO é um livro que analisa os processos históricos e sociais na URSS, desde o período da revolução de 1917 até ao seu colapso na década de 1980 e onde o estalinismo foi excepcionalmente inventariado e documentado por Moshe Lewin.

A obra foi escrita a partir de fontes disponibilizadas, após o colapso da URSS, e está dividida em 3 partes: a primeira, da revolução até a morte de Estaline; a segunda, desde Kruchev até à vitória de Brezhnev; e a terceira, aborda a era 'soviética' como um todo.

O que mais se destaca na primeira parte é a importância política, económica, burocrática e estrutural da repressão durante o estalinismo. Moshe Lewin escreveu detalhadamente como Estaline se manteve no poder à custa de um imenso aparato repressor.

Enquanto Estaline esteve vivo o Partido Comunista da URSS foi expurgado e passou a ter menos importância política que a polícia secreta. O NKVD (depois KGB) adquiriu poderes para investigar, processar e condenar os descontentes e suspeitos de dissidência.

Na segunda parte do livro, Lewin procura demonstrar como a morte de Estaline abriu caminho para uma remodelação do Estado. A repressão deixou de ser omnipotente. O KGB perdeu o direito de processar e julgar suspeitos. Os campos de trabalho forçado foram fechados.

Na segunda parte, o autor aborda a trajectória de Gromyko, Kruchev, Mikoyan, Kosygin, Yuri Andropov, Chernenko e Gorbachev. A análise da vida e obra dos líderes que se destacaram no período pós-estalinista ajuda a compreender os jogos de poder na URSS.

Na terceira parte, o autor procura amarrar as duas pontas da história soviética (nascimento e morte da URSS) contextualizando-a num amplo cenário e defendendo a tese de que a propaganda do regime foi o baluarte do sistema alternativo ao capitalismo.

O Século Soviético

de Moshe Lewin

Edição: 2004

Páginas: 448

Editor: Campo da Comunicação

Colecção: Contemporânea

Fonte: combate.info, cópia do Internet Archive de 2012.

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