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Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

A revolução árabe começou

até maio de 2011 · Internacional · 837 palavras

Do que ainda carecem estas revoluções é de um programa político que rompa com a ordem mundial neoliberal (cadeia da dívida, acordos de livre comércio, etc.) a fim de permitir uma redistribuição massiva das riquezas. Por Jean Batou.

Há dois anos, um dos principais estrategas da classe dominante norte-americana, Zbigniew Brzezinski, lançava esta advertência: "Os jovens do Terceiro Mundo estão agitados e amargurados (..) a sua ponta de lança potencialmente revolucionária vai sem dúvida sair das filas desses milhões de estudantes (...) saídos da classe média inferior precarizada e movidos por um sentimento de ultraje social (...) são revolucionários em potência (...) A sua energia física e a sua frustração emocional não esperam mais para serem galvanizadas por uma causa" (New York Times, 16/12/2008). Nestas últimas semanas, saíram para a rua milhões, na Tunísia, na Argélia, na Jordânia, no Iemen e no Egipto, pelo direito a uma vida decente e a um emprego, mas também para tomar nas mãos o seu próprio destino (criação de numerosos comités de auto-defesa, de manutenção de provisões, etc.).

De 352 milhões de árabes, 190 milhões têm menos de 30 anos e três quartas partes deles não têm emprego; no Egipto, representam 90% dos desempregados e desempregadas. Hillary Clinton constatou a medida do problema declarando: "Uma das minhas principais preocupações (...) são esses numerosos jovens sem futuro económico nos seus próprios países" (Departamento de Estado, 11/01/2011). As massas populares estão afogadas: com efeito, a crise do capitalismo traduz-se hoje numa subida enorme dos preços dos produtos alimentares de base e da energia, promovidos como principais campos de inversão do capital financeiro. Segundo a FAO, o índice dos preços alimentares subiu 32% no segundo semestre de 2010!

Michel Chossudowsky tem razão quando diz que os "ditadores" do Terceiro Mundo não ditam nada (1). Eles são correias de transmissão de políticas decididas noutros lugares pelos dirigentes dos grandes estados imperialistas, as multinacionais e as suas instituições económicas e financeiras (FMI, Banco Mundial, OMC, OCDE, etc.). No Egipto, a explosão da miséria resulta dos programas de ajustamento impostos, desde há 20 anos (desregulamentação dos preços dos alimentos e privatizações), que mereceram felicitações a Mubarak: "O Egipto fez progressos significativos graças as amplas reformas estruturais que conhecido uma aceleração desde 2004" (FMI, Abril 2010). Para além dos seus regimes policiais senis, são essas políticas que as revoluções em curso devem desmontar, se não quiserem preparar rápidas e perigosas desilusões.

É a razão pela qual os elogios dos medias ocidentais à glória da "primavera democrática árabe", das suas manifestações pacíficas, dos seus jovens sedentos de modernidade - preferiram a internet às barricadas! - não devem enganar ninguém. Na Tunísia, não são os novos ministros - entre eles o blogueiro Slim Amamou - que dirigem o país, mas sim continua a ser o antigo primeiro-ministro de Ben Ali, Mohamed Ghannuchi, flanqueado por um governador do Banco Central completamente novo, Kamel Nabli, que voou imediatamente para Davos para tranquilizar os meios financeiros: "a democracia é boa para as inversões", repetiu (France 24, 29 Janeiro). Na realidade, os Estados Unidos e os seus aliados estão activos no Egipto e noutras partes para encontrar uma alternativa "autoritária" ou "democrata" a Mubarak e aos seus pares que garanta a manutenção do consenso económico de Washington e a colaboração estratégica com Israel.

Mas nem os Estados Unidos nem a Europa movem as linhas das revoluções árabes que são puxadas sobretudo pelas aspirações sociais, na esteia das mobilizações operárias, como as de Gafsa (fosfatos, Tunísia) ou de Mehalla (sector têxtil, Egipto). A solidariedade com as lutas do têxtil está por outro lado na origem do Movimento 6 de Abril, no Egipto, que teve um papel decisivo no despontar da revolução. Além do mais, a politização anti-imperialista do mundo árabe está alimentada desde há anos pela luta do povo palestiniano e o repúdio às guerras sangrentas levadas a cabo pelos Estados Unidos e os seus aliados. Assim, para 88% das pessoas inquiridas em seis países da região, è claramente Israel quem representa o principal provocador da guerra, seguido pelos Estados Unidos (77%) e não o Irão (10%) (LA Times, 14/08/2010).

Do que ainda carecem estas revoluções é de um programa político que rompa com a ordem mundial neoliberal (cadeia da dívida, acordos de livre comércio, etc.) a fim de permitir uma redistribuição massiva das riquezas. Um programa que implique a dissolução do núcleo duro dos aparelhos de Estado neo-coloniais (hierarquia militar, serviços de informação, polícias, governadores locais, etc.) e a expropriação das grandes fortunas, acumuladas particularmente com as privatizações. Um programa que necessita também de uma ruptura com o imperialismo; um compromisso ao lado do povo palestiniano e o desenvolvimento de cooperações Sul-Sul favoráveis ao conjunto dos parceiros implicados. A América Latina acumulou uma grande experiência pioneira nessa matéria, que procura ser partilhada e estendida.

* Jean Batou é jornalista e membro de SolidaritéS, na Suíça. Tradução: António José André.

Notas:

(1)- Ver em ESSF "La Tunisie et les dictats du FMI: Comment la politique macro-économique entraîne la pauvreté et le chômage dans le monde".

Fonte: combate.info, cópia do Internet Archive de 2011.

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