«Mubarak integrou o Islão político no seu sistema»
Internacional2011O economista franco-egipcio Samir Amin analisa os desafios políticos e económicos da crise que o Egipto atravessa, numa entrevista feita por Rosa Moussaoui.
Rosa Moussaoui: Os acontecimentos que agitam a Tunísia e o Egipto são simples "revoltas populares" ou constituem a entrada destes países em processos revolucionários?
Samir Amin: Trata-se de revoltas sociais potencialmente portadoras da cristalização de alternativas, que podem a longo prazo inscrever-se numa perspectiva socialista. É a razão pela qual o sistema capitalista, o capital dos monopólios dominantes à escala mundial não pode tolerar o desenvolvimento destes movimentos. Mobilizará todos os meios de desestabilização possíveis, desde as pressões económicas e financeiras até à ameaça militar. Apoiar-se-á, de acordo com as circunstâncias, quer falsas alternativas fascistas ou fascisantes, quer instaurando ditaduras militares. Não é necessário acreditar numa palavra dita por Obama. Obama é Bush, mas com uma outra linguagem. Há nele uma duplicidade permanente. Efectivamente, no caso do Egipto, os Estados Unidos apoiam o regime.
Podem acabar por julgar mais útil o sacrifício da pessoa de Mubarak. Mas não renunciarão de salvaguardar o essencial: o sistema militar e policial. Podem encarar o reforço deste sistema militar e policial, graças a uma aliança com a Irmandade Muçulmana. Com efeito, os líderes dos Estados Unidos têm na mente o modelo paquistanês, que não é um modelo democrático, mas uma combinação entre um poder dito islâmico e uma ditadura militar. No entanto, no caso do Egipto, uma boa parte das forças populares que se mobilizaram está perfeitamente consciente destas finalidades. O povo egípcio é muito politizado. A história do Egipto é a de um país que tenta emergir, desde o início do século XIX , tendo sido vencido pelas suas próprias insuficiências, mas sobretudo por repetidas agressões externas.
Rosa Moussaoui: Estes levantamentos são sobretudo feitos por jovens precarizados e diplomados desempregados. Como se explica?
Samir Amin: O Egipto de Nasser dispunha de um sistema económico e social criticável, mas coerente. Nasser apostou na industrialização para sair da especialização internacional colonial, que acantonava o país na exportação de algodão. Este sistema soube assegurar uma boa distribuição dos rendimentos em prol das classes populares. Essa página mudou na sequência das agressões militares de 1956 e 1967 que mobilizaram Israel. Sadat e ainda mais Mubarak desmantelaram o sistema produtivo egípcio, substituindo-o por um sistema totalmente incoerente, exclusivamente fundado na investigação da rentabilidade.
As taxas de crescimento egípcias supostamente elevadas, exaltadas desde há trinta anos pelo Banco Mundial, não têm nenhum significado. É pó para os nossos olhos. O crescimento egípcio é muito vulnerável, depende do mercado externo e do fluxo de capitais petroleiros vindos dos países accionistas do Golfo. Com a crise do sistema mundial, esta vulnerabilidade manifestou-se com um brutal sufoco. Este crescimento acompanhou-se de uma incrível subida das desigualdades e do desemprego, que golpeia uma maioria de jovens. Esta situação era explosiva e explodiu. O que doravante se coloca, para além das reivindicações iniciais da saída do regime e instauração das liberdades democráticas, é uma batalha política.
Rosa Moussaoui: Porque é que a Irmandade Muçulmana tenta apresentar-se como sendo "moderada"?
Samir Amin: Porque se lhes pede para fazer este jogo. A Irmanadade Muçullmana nunca foi moderada. Não se trata de um movimento religioso, mas de um movimento político que utiliza a religião. Desde a sua fundação, em 1920, pelos Britânicos e pela monarquia, este movimento desempenhou um papel activo de agente anti-comunista, reaccionário, anti-democrático. É a razão de ser da Irmandade Muçulmana e afirmam-no. Afirmam-no abertamente: se ganharem uma eleição, será a última, porque o regime eleitoral seria um regime ocidental importado contrário à natureza islâmica. Nada foi absolutamente alterado neste plano.
Realmente, o Islão político sempre foi apoiado pelos Estados Unidos. Eles apresentaram os talibãs na guerra contra a União Soviética como heróis da liberdade. Quando os talibãs fecharam as escolas de raparigas criadas pelos comunistas, encontrou-se nos movimentos feministas dos Estados Unidos uma razão para explicar que era necessário respeitar "as tradições" do país. Isto trata-se de um jogo duplo. De um lado, o apoio. Do outro, a instrumentalização dos excessos naturais do fundamentalistas para alimentar a rejeição dos imigrantes e justificar as agressões militares. Em conformidade com esta estratégia, o regime de Mubarak nunca lutou contra o Islão político. Pelo contrário, integrou-o no seu sistema.
Rosa Moussaoui: Mubarak subcontratou a sociedade egípcia para a Irmandade Muçulmana?
Samir Amin: Absolutamente. Confiou-lhe três instituições fundamentais: a justiça, a educação e a televisão. Mas o regime militar quer conservar para ele a direcção, reivindicada pela Irmandade Muçulmana. Os Estados Unidos utilizam este conflito menor na aliança entre militares e islamistas para se assegurar da docilidade de uns e de outros. O essencial é que todos aceitem o capitalismo, tal como é.
A Irmandade Muçulmana nunca tencionou alterar as coisas de maneira séria. De resto, aquando das grandes greves operárias, de 2007-2008, os seus deputados votaram com o governo contra os grevistas. Perante as lutas dos camponeses, expulsos da sua terra pelos grandes proprietários fundiários, a Irmandade Muçulmana tomou parte contra o movimento campesino. Para eles a propriedade privada, a livre empresa e o lucro são sagrados.
Rosa Moussaoui: Quais são as suas finalidades à escala do Médio Oriente?
Samir Amin: São todos muito dóceis. Os militares assim como a Irmandade Muçulmana aceitam a hegemonia dos Estados Unidos na região e a paz com o Israel como está. Uns e outros continuarão a demonstrar esta complacência que permite a Israel prosseguir a colonização do que resta da Palestina.
* Entrevista feita por Rosa Moussaoui. Ver original aqui. Tradução: António José André.