A sua importância para a esquerda indiana
FóRUM SOCIAL MUNDIAL 2004 · Combate, novembro e dezembro de 2003, edição em linha
Jornal2003Kunal ChattopadhyayPara uma compreensão do significado deste evento no contexto da esquerda indiana e da sua integração no movimento internacional é importante compreender a complexidade do movimento. Não se trata aqui de fazer uma história dos partidos e organizações de esquerda na Índia, mas antes uma tentativa de apresentar determinados elementos importantes para a compreensão da actual situação política.
A esquerda indiana desenvolveu-se a partir do movimento de independência. Por um lado, os militantes nacionalistas, defensores da luta armada para derrubar o império britânico e entusiasmados pela revolução russa. Por outro lado, foram feitas tentativas, por forças diferentes, para formar partidos anti-estalinistas. (...) Uma combinação de vários factores fizeram com que nenhuma destas forças se tornasse uma verdadeira alternativa ao partido comunista ortodoxo – CPI(M). Nos primeiros dois parlamentos da Índia independente, este partido emergiu como a principal força da oposição de esquerda. Este sucesso implicou uma orientação eleitoralista cada vez maior, que posteriormente e a par de diferentes visões sobre assuntos internacionais conduziu a divisões internas. Nas eleições de 1967, o Congress Party (no poder até então) sofreu um decréscimo nas votações (que se traduziu numa diminuição das assembleias provinciais). A constituição de governos nessas circunstâncias exigia a necessidade de alianças à esquerda e à direita, desde o Jana Sangh (antecessor do actual BJP) e o Swatantra Party (direita liberal) aos Socialistas e Comunistas. (...) O CPI(M) (...) tinha poucos escrúpulos em juntar-se às coligações governamentais. A grande maioria das experiências foram desastrosas, com cada um dos parceiros políticos impondo os seus programas e os partidos de esquerda lutando entre si.
As novas gerações são, assim, fortemente influenciadas por estes maus resultados, expressando a sua recusa desta realidade por um intenso sentimento anti-parlamentar. No caso dos maoístas, esta questão surge cristalizada nos slogans: “o poder político está no cano das espingardas” e “o parlamento é um chiqueiro”. Estes grupos não só boicotam as eleições como também as organizações de massas, clamando pela revolução imediata.
O contexto político da esquerda na Índia está, ainda, marcado pela insularidade. Muito poucas questões são noticiadas no mundo ocidental e os indianos, por seu lado, têm muito pouco contacto com os movimentos e lutas fora do seu país. (...) O grau de insularidade é melhor entendido se olharmos para as fases iniciais das lutas anti-globalização. A insularidade que caracterizara os movimentos de esquerda indianos, sofreu uma ruptura a partir de 2 acontecimentos recentes importantes: o Fórum Social Asiático (em Hyderabad) e o protesto contra a guerra no Iraque. Contudo, as divisões de sempre nas forças de esquerda continuam a manifestar-se. Nem a esquerda dominante e nem o CPI(ML) Liberation se mobilizaram verdadeiramente.
O CPI(M), apesar de ter compreendido o forte impacto dos sentimentos anti-guerra e anti-imperialistas que emergiram no início de 2003 (a que não podia alhear-se), tentou controlar o movimento: em nome da unidade, por exemplo, impediu manifestantes de outras organizações de desfilarem com os seus próprios slogans, que denunciavam as políticas da Índia e Paquistão sobre armas nucleares. O imperialismo foi imposto como o principal inimigo, devendo os outros assuntos estar subordinados à luta anti-imperialista. Numa segunda manifestação, o boicote surgiu de organizações de fachada do CPI(ML)PW e do MCC juntamente com o National Alliance of Peoples’Movement. Unidos, reclamaram a exclusão dos partidos políticos do movimento. Como resultado, desenrolaram-se algumas pequenas iniciativas pontuais, mas nenhuma perdurou.
A mobilização contra a globalização sofre de um processo similar. Para a esquerda dominante não é a globalização capitalista por si só que tem efeitos nefastos, mas antes o esforço imperialista para monopolizar os lucros dessa globalização. Assim, os principais partidos de esquerda deram as boas vindas ao sector privado de investimentos e procuram mostrar que desempenham um papel importante no equilíbrio entre o trabalho e o capital. Contudo, a realidade mostra-nos que se trata de uma real rendição à globalização disfarçada de muita retórica. O CPI e o CPI(M) são actores importantes na organização do FSM, e consideramos desejável que estas forças o integrem. O problema surge quando, por um lado, tentam usar a sua força para afastar da participação as forças e organizações de outras tendências e, por outro lado, tentam aproveitar-se do evento para mascarar a sua efectiva adesão ao neoliberalismo.
O sector das ONG está evidentemente bem representado, até mesmo em demasia. E muitas destas instituições esquecem que os objectivos que estabelecem para a sua actividade as tornam em redes de segurança para o sistema capitalista e não em instrumentos de luta. Apesar de também existirem muitas ONG que seguem um caminho diferente e mais radical, a esquerda dominante e uma grande parte da extrema esquerda opõem-se a estas organizações. Dois ataques recentes ao Fórum Social Mundial demonstram esta clivagem: durante o FS da Asia, o CPI(ML)PW apelou a um boicote e à realização de um contra-programa; agora, também estão a tentar levar a cabo uma alternativa ao Forum de Bombaim (Mumbai Resistance). O princípio ideológico que subjaz a estes movimentos afirma o Fórum Social como uma criação imperialista.
Esta discussão, que tem estado presente nos preparativos do FSM (inclusivamente no seio do ICS), exigiria uma análise sobre a emergência dos novos movimentos sociais na Índia para ser melhor compreendido. A crescente tendência de rejeição do sistema partidário e de determinação para o trabalho com a sociedade civil (tendo por objectivo a transformação social), que se impôs entre as novas gerações a partir dos anos 70, foi alvo de um novo impulso devido à resposta violenta dos governos: primeiro, no West Bengal - para esmagar os movimentos maoísta e do CPI(M) – e, depois, por toda a Índia durante o ano e meio de governo ditatorial de Indira Gandhi. Nesses anos, desenvolveram-se movimentos como o feminista, pelos dalit (contra o sistema de castas), o tribal (pela defesa dos direitos das populações indígenas e da salvaguarda de impactos ecológicos), o anti-nuclear, pelos cuidados de saúde, etc. Em comum estes movimentos partilham uma profunda suspeição pela orientação puramente eleitoralista dos partidos. As organizações desenvolveram-se e institucionalizaram-se: o seu principal objectivo (maioritariamente) passou a ser a angariação de fundos necessários para realizar as suas actividades. Esta situação granjeou-lhes várias críticas: as organizações de menor âmbito foram marginalizadas por outras associadas e dependentes das agências internacionais; por seu lado, muitos dos partidos recusam-se a colaborar com essas organizações (apelidadas de agentes do imperialismo).
Se a nossa expectativa sobre o evento tem como ponto central a luta anti-imperialista, então ele será uma desilusão. E se pensamos que podemos ignorar este acontecimento (um dos principais encontros mundiais contra o imperialismo), estaremos simplesmente a entregá-lo aos partidos e organizações reformistas. (...) O Fórum Social Mundial é um evento real. As organizações revolucionárias devem marcar presença, participar e integrar-se ao movimento e tentar influenciar outros dentro do movimento. Algumas das ONG assumem claramente uma abordagem dualista: construindo o movimento e simultaneamente criticando a sua dependência.
Este é o caminho a seguir. Será que a esquerda indiana vai agarrar esta oportunidade? Kunal Chattopadhyay, dirigente do Inquilabi Comunist Party (Calcutá), secção Indiana da IV Internacional. Texto seleccionado e traduzido por Inês Fonseca
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.