Bons protestos ou elogio do cadeado
Combate, novembro e dezembro de 2003, edição em linha
Jornal2003No dia seguinte à manifestação de estudantes de 5 de Novembro, a grande maioria dos órgãos de informação saudava os estudantes pela “forma ordeira” como tinha decorrido a manifestação que enchera as ruas de Lisboa, de estudantes do ensino superior público em luta contra a nova lei de financiamento. Os próprios responsáveis governamentais do sector faziam coro neste elogio. Começava assim uma enorme campanha contra os estudantes e a legitimidade das suas formas de luta.
Imediatamente a seguir, os cadeados em Coimbra conseguiram centrar os ódios e afastar das páginas dos jornais a discussão da questão do financiamento, da participação dos estudantes nos órgãos de gestão, das prescrições ou das formas de apoio social. Uma enorme vaga de protestos indignados varreu a comunicação. Pacheco Pereira e José Manuel Fernandes a darem o mote com invocações ao seu tempo de contestatários, professores na Universidade de Coimbra, feridos na sua dignidade, apresentavam queixa nos tribunais, davam tabefes a estudantes do piquete de greve, vociferaram e clamavam pela intervenção da polícia. Os cadeados utilizados pelos estudantes tornaram-se símbolos de autoritarismo e da falta de legitimidade dos dirigentes associativos que supostamente não querem pagar propinas, mas gastam o equivalente em roupas de marca, bebidas alcoólicas ou nas prestações do automóvel topo de gama com que vão para a faculdade. Nesses dias, o retrato do estudante do ensino superior público foi traçado com um rigor científico comparável às imagens do “zézinho” na campanha do referendo ao aborto de 1998. A opinião pública pôde indignar-se contra os estudantes do ensino superior que gastam os recursos de estado, utilizam os impostos de quem os paga para prolongar a sua vida de parasitas.
Só mesmo os mais atentos é que conseguiram perceber que o reitor aproveitou o dia da manifestação em Lisboa para reunir o senado e votar o valor das propinas da discórdia. E que mesmo assim ainda teve que alterar a ordem de trabalhos para aproveitar a ausência dos representantes dos estudantes. Só os mais atentos é que ainda se lembram do ministro Lynce a fazer favores à filha do ministro Martins da Cruz, de que a invasão fiscal é generalizada fora dos rendimentos do trabalho, de que as propinas constituem há muito receitas necessárias para despesas correntes das faculdades ao contrário de tudo o que foi argumentado em 1992, que o financiamento ao ensino superior público diminui na mesma proporção que crescem os negócios e as promiscuidades com o ensino privado.
Em 1999, os estudantes da Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, ocupavam a faculdade, dia e noite, durante duas semanas. Construíram um muro de tijolos e cimento a impedir o acesso as serviços administrativos e de direcção da escola, todos os dias realizaram plenários em que decidiam os próximos passos. Uma parede cheia de em que estudantes, professores e funcionários pintavam o seu nome e onde se comprometiam a “limpar este muro, quando a escola estiver limpa por dentro”. Construções e desenhos a cada canto da escola, salas de aula transformadas em dormitórios e auditórios e salas de trabalho, a imaginação dos ocupantes deixou marcas visíveis na escola e, certamente, em quem viveu de perto esta experiência. Os estudantes venceram e o governo instaurou uma sindicância que veio a provar muitas das suas acusações. A escola foi limpa por dentro, pelo menos temporariamente. Ninguém, nessa altura, se atreveu a dizer que o muro de tijolos era “anti-democrático, ou que a ocupação era uma forma de vandalismo ilegítimo, mas havia quem, entredentes, preferisse que a polícia desancasse nos estudantes e que a escola pudesse voltar à sua “normalidade”.
Em 1996, uma ano depois de Guterres ter chegado ao poder, as propinas instalaram-se definitivamente na maior parte da universidades. A ideia de que os estudantes devem pagar o desinvestimento do estado no ensino instalou-se como prática corrente. Pela mesmo altura, o governo produzia legislação que criminalizava o corte de estradas como forma de protesto. O mesmo argumento da legitimidade e democracia, da responsabilidade social dos protestos que agora se utiliza contra os estudantes. Os bons protestos são aqueles que não incomodam nunca, que não perturbam a ordem e que decorrem, de preferência, silenciosos. É natural que seja assim, para todos os governos e poderes. Não é natural que as razões de qualquer protesto sejam caladas em nome dessa ordem, não é natural que um país livre e democrático não consiga organizar a discussão sobre o futuro estratégico do seu ensino público, o seu interesse vital para o desenvolvimento do país ficando prisioneiro do tema único dos cadeados.
Felizmente que a história do movimento estudantil está cheia de episódios em que os estudantes desafiaram a ordem estabelecida, pisaram o risco da legalidade e impuseram formas de luta contra todos aqueles com quem lutavam. A própria ideia da acção colectiva como forma de atingir determinados fins é subversiva e não pode ser nunca enquadrada por uma moral que a institui e enquadra nas conveniências vigentes.
Por mais que digam, os cadeados em Coimbra foram - são ainda - um excelente sinal de uma geração que não se conforma com o que vê e lê nos jornais. João Carlos
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.