Contratempos: Música, leitura, memória e agenda
Combate, novembro e dezembro de 2003, edição em linha
Jornal2003Música
As tonalidades dos Pastels
Em grande parte responsáveis pelo surgimento de excelentes grupos pop na Escócia, os Pastels fazem música como quem convive saudavelmente: não têm nada a provar nem esconder, vivem o tempo sem pressas e procuram a pertinência em cada palavra e nota que utilizam.
Nascido em meados dos anos 80 pela mão de Stephen Pastel, o projecto começou por absorver o punk embora de uma forma que poucos poderiam compreender. Afinal, um grupo que se auto proclama herdeiro do punk, que canta graciosas melodias utilizando letras ingénuas, quase infantis, não estava a facilitar a sua aceitação entre os jovens impacientes da época. No entanto, o importante para o projecto Pastels era defender a filosofia «faz-tu-mesmo» e convidar artistas e músicos que compreendessem esta forma de criar. Assim, contribuíram para óptimas canções e subsequentes álbuns Dean Wareham (dos Galaxie 500 e Luna), Jad Fair, Teenage Fanclub, Bill Wells, entre muitos outros.
Para entrar na pop dos Pastels é preciso disponibilidade, não por ser difícil mas por causa da singeleza e do tempo. É uma música que pede atenção e respeito, pois esconde segundas vozes discretas mas fundamentais, metais e pormenores instrumentais que não são perceptíveis ao ouvido nu, distraído. As letras são na sua maioria bandeiras inconformistas e escuras, mas servidas com a tranquilidade de quem bebe uma chávena de chá.
Peça essencial para a construção da beleza das melodias é Katrina Mitchell, uma fã que acabou por se juntar ao grupo nos anos noventa e que desde então tem marcado, positivamente, a sonoridade do grupo. Katrina aprendeu a tocar baixo e bateria quando entrou para a banda e soube perpetuar a vocalização tremida, quase desajeitada de todos os cantores que passaram pelos Pastels.
Os elementos da banda dedicam-se à música mas também gostam de fruir um estilo de vida diversificado: Aggi (vozes, guitarras e outros instrumentos) faz ilustração, Stephen Pastel (letras, composição, baixo e outros instrumentos) é bibliotecário e jornalista ocasional e Katrina (letras, vozes e bateria) é psicóloga nas horas vagas. Juntos formam uma equipa de peso. Estão todos convidados para um desafio.
Discografia seleccionada:
Up for a bit with the Pastels
(Glass/Big Time), 1987
Speeding Motorcycle
EP (UK Paperhouse), 1991
Mobile Safari
(Domino), 1996
Illumination
(Domino), 1997
Sandy Gageiro
livro
Terry Eagleton
Um marxismo revisitado
“Pode ser efectiva a liberdade de que diariamente nos felicitam, quando toda a sociedade é arrastada a reboque da reprodução e centralização do capital?” - Questiona Terry Eagleton num ensaio repartido por quatro pequenos capítulos: Filosofia, Antropologia, História e Política.
Neste ensaio, Eagleton vai tecendo considerações à volta da liberdade no pensamento de Marx. “Anunciando que o capitalismo, ao realizar as suas tremendas potencialidades de progresso, caminha para a catástrofe, Marx entreviu, para lá da obscura pré-história em que agonizamos, uma comunidade humana enfim libertada do fardo das necessidades materiais e em que o livre desenvolvimento das potencialidades de cada ser humano será uma exigência de toda a sociedade.”
Terry Eagleton remete-nos para as mais diversas obras de Karl Marx: “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, “O Capital”, “Crítica da Economia Política”, “Crítica do Programa do Partido Operário Alemão”, “Economia e Filosofia”, “A Ideologia Alemã”, “O Manifesto Comunista” e “A Sagrada Família ou a Crítica da crítica crítica”. É todo um desfiar de referências que alimenta um pensamento que se pretende actualizado.
Num mundo de patas para o ar, como diria Eduardo Galeano, as Edições Dinossauro têm-nos habituado a obras que rompem com a desmemorização imposta pela ditadura do pensamento único. Mérito louvável por esse esforço, que se deseja continuado. Ponto negativo constatado neste ensaio: a ausência de qualquer referência ao seu autor.
Nascido na Inglaterra, em 1943, Eagleton doutorou-se em Cambridge e é professor de Inglês da Universidade de Oxford. Considerado figura de proa na crítica literária marxista britânica, passou por distintas fases, tentando reconciliar o marxismo humanista com a religião católica, ou enveredando pelo pensamento pós-althusseriano.
Pouco estudado em Portugal, onde tem três textos traduzidos [“Marxismo e Crítica Literária” (Ed. Afrontamento, 1976), “Marx e Liberdade” (Ed. Dinossauro, 2002) e “Ideia de Cultura” (Ed. Temas e Debates, 2003)] Terry Eagleton é autor de dezenas de livros e ensaios. De entre elas destacam-se: “Walter Benjamin” (1976), “Criticism and Ideology” (1976), “William Shakespeare” (1986), “The Significance of Theory” (1990) e “Literary Theory: An Introduction”(1996).
“Marx e a liberdade”, de Terry Eagleton
Edições Dinossauro , Lisboa 2002
António José André
memória
Breve tributo a Johny Cash
Passados três meses da morte de Johnny Cash, está prestes a sair uma caixa com cinco CDs recheada com canções inéditas suas. De entre elas estará uma versão de “Redemption Song” (canção de Bob Marley) tocada em parceria com um dos seus maiores fãs: Joe Strummer (dos Clash).
Johnny Cash morreu no passado dia 12 de setembro, com 71 anos. Vindo de uma família de cultivadores de algodão do Arkansas, partilhou a pobreza com mais seis irmãos, iniciando a sua carreira em Memphis, ao lado de Elvis Presley e Jerry Lee Lewis.
Apesar uma carreira que percorreu mais de meio século e que produziu mais de 70 álbuns, Cash poderia ter caído no esquecimento, pela sua tipologia musical (música country). No entanto, acabou por garantir uma permanência indiscutível no mundo da música.
Cash foi dos primeiros a cantar músicas de Bob Dylan e Kris Kristoferson. Teve parcerias musicais com Bono (dos U2) e Strummer. Além disso, há canções suas que foram tocadas pelos Nine Inch Nails, Nick Cave, Beck, Tom Waits e Bruce Springsteen.
Cash manteve a imagem de outsider. Apesar de não ser conhecido como um artista empenhado políticamente, questionava a razão de ser da guerra do Vietname. Nos anos sessenta, fez um álbum dedicado aos ameríndios e canções de protesto contra o sistema prisional norte-americano.
António José André
agenda
Workshop de Banda Desenhada
Richard Câmara, um ilustrador que os leitores do COMBATE bem conhecem, vai dar formação no Workshop de Banda Desenhada do Centro de Imagem e Técnicas Narrativas na Gulbenkian.
As pré-inscrições fazem-se até 10 de Janeiro e as entrevistas de selecção de 10 a 14 de Janeiro
O workshop realiza-se de 15 de Janeiro a 15 de Fevereiro e contará com 12 (mínimo) a 18 (máximo) pessoas. A duração é de 32 horas e a inscrição custa 150 euros.
O programa centra-se na história do Capuchinho vista do céu (BD e a derivação): O percurso de cada uma das personagens do conto original é planificado na sua própria tira que pode dar origem a múltiplos cruzamentos, retrocessos e derivações na narrativa...
Para mais informações, contacte o CITEN: Tel: 21 782 35 05; FAX: 21 782 30 18
E-mail: citen@gulbenkian.pt
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.