Construir a Europa pela base e contra o capital
Internacional2009No seu artigo “Europa: espaço de luta” [publicado no jornal Diagonal nº85], Toni Negri assinalava correctamente a imperiosa necessidade que tem a esquerda europeia de pensar em termos europeus. No entanto, na sua abordagem está subjacente uma orientação errada a respeito da relação que a esquerda deve manter com a União Europeia (UE) actualmente existente. O argumento de Negri não é novo e está de acordo com as suas posições passadas de apoio crítico à Constituição Europeia. Leia aqui a tradução do texto de Josep Maria Antentas.
O seu pensamento confunde a necessidade de articular uma estratégia continental por parte da esquerda anticapitalista europeia com a subalternização desta ao projecto de integração das elites continentais. Associa mecanicamente toda a oposição aberta à Europa do Capital com uma estratégia carente de perspectiva internacional e de resposta de resistência em cada Estado Nação. Se esta orientação existe em algumas forças progressistas, parece difícil de negar que o grosso da esquerda social e política que tem estado a impulsionar iniciativas como o Fórum Social Europeu ou a campanha francesa pelo NÃO à Constituição Europeia fizeram-no com posições internacionalistas, solidárias, e de defesa de “Outra Europa” de “Outro Mundo”.
Negri desqualifica a “extrema-esquerda” europeia, e projectos como o Novo Partido Anticapitalista (NPA) de Besancenot em França e o Die Linke na Alemanha, aos quais acusa de “abandono do projecto de unidade europeia” e de defender “posições antieuropeias”, sem acrescentar nada que o possa provar. Há que dizer que o Die Linke e o NPA são - ainda que Negri os meta no mesmo saco - projectos nascidos em condições díspares e com concepções estratégicas diferentes. Esquematizando, o Die Linke é uma formação anti-neoliberal que não afasta colaborações com partidos e governos social-liberais para tentar “influenciá-los”, enquanto que o NPA situa a sua luta contra o neoliberalismo numa perspectiva anticapitalista, tendo por base a independência clara a respeito de governos e partidos social-liberais.
Segundo Negri “Estes partidos e partidozinhos não deixaram de ser republicanos, corporativos e, quando não o são, consideram que só podem reproduzir-se sobre uma base nacional e que apenas dentro dessas dimensões podem construir um programa”. A afirmação é surpreendente, quando se refere em particular ao NPA de Besancenot. A sua organização promotora, a Liga Comunista Revolutionária (LCR), esteve desde o começo vinculada a uma das principais experiências de articulação dos movimentos sociais europeus, como as já longínquas “euromarchas” contra o desemprego e a precariedade, o Fórum Social Europeu, ou as múltiplas “euromanifestações” durante as cimeiras europeias.
Também esteve envolvido em projectos como o da Conferência das Esquerdas Anticapitalistas Europeia, que agrupa várias formações políticas europeias, ou o encontro “Maio 1968-Maio 2008” celebrado este ano em Paris, que reuniu trinta forças europeias. Neste encontro, o próprio Besancenot assinalava a necessidade de reforçar a coordenação da esquerda radical europeia e afirmava que “avançar na construção de um partido anticapitalista europeu” será um dos objectivos estratégicos do NPA. Não parece este, precisamente, um horizonte próprio de uma organização que actue apenas “sobre uma base nacional” e que não tenha em conta a dimensão estratégica do âmbito europeu como “espaço de luta”. Negri é livre de não gostar do NPA de Besancenot, mas não é sério lançar-lhe acusações infundadas.
De forma certeira, Negri afirma que “só em terreno europeu a luta pode tornar-se eficaz. Negá-lo é suicida. E a unidade europeia é uma tarefa que é preciso levar a cabo, uma responsabilidade que é preciso assumir”. Mas ela não deve basear-se numa postura subalterna em relação ao modelo de integração europeia promovido pelo capital, mas sim a partir da independência e confrontação com esse modelo. Ser incapaz de pensar uma estratégia independente do projecto do capital só vai conduzir-nos a graves desorientações, ao tomar por amigos os inimigos e a atirarmos pedras ao nosso próprio telhado, apoiando (criticamente, claro!) políticas que vão contra os interesses dos sectores populares.
A esquerda anticapitalista tem o desafio de formular uma estratégia continental, de articular um pólo europeu diferente da esquerda europeia que se submete ao social-liberalismo, e de reforçar a “eurpeização” das lutas e das resistências. O projecto que nos propõe Besancenot vai justamente nesta direcção: a de uma esquerda para a qual, como assinalava no referido encontro em Paris “o internacionalismo não é apenas uma herança. É a nossa marca registada. A nossa prática quotidiana”. Mais claro é impossível.
Josep Maria Antentas é professor de Sociología na UAB. Membro da redacção da revista Viento Sur.
Tradução de Marco Marques.
Texto original aqui.