combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Contratempos

março de 2003 · Jornal · 997 palavras

Combate, março de 2003, edição em linha

Breve tributo a João César Monteiro

"A morte é silenciosa. Não tenho nada a dizer sobre a morte." Palavras ditas algum dia por quem faleceu no passado dia 3 de Fevereiro: João de César Monteiro, realizador de um cinema verdeiramente iconoclasta.

Nascido na Figueira da Foz, a 2 de Fevereiro de 1939, "no seio de uma família fortemente dominada pelo espírito da 1ª República" (in A Minha Certidão), acabaria por ter um percurso original, que fez dele o artista liberto que foi.

"Não frequento o meio cinematográfico, é um direito, sou anti-social." Disse João César Monteiro, cujo cinema revela uma estética poética e literária libertária e surrealizante, onde a inconveniência oscila com a genialidade e a irreverência se mistura com a criatividade.

Os seus filmes espelham uma enorme cultura literária e musical aliados a um humor negro demolidor. Morto João César Monteiro, permanece a sua obra e um filme por estrear. Os seus filmes, sendo cinema do melhor, constituem um património da cinematografia portuguesa e universal.

Filmografia:

"Sophia de Mello Breyner Andersen" (1968) – Curta Metragem

"Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço" (1970)

"Fragmentos de um Filme-Esmola: A Sagrada Família" (1972)

"Amor de Mãe" (1975)

"Que Farei com Espada?" (1975)

"Veredas" (1978)

"O Amor das Três Romãs" (1979)

"Os Dois Soldados" (1979)

"O Rico e o Pobre" (1979)

"Silvestre" (1982)

"À Flor do Mar" (1986)

"Recordações da Casa Amarela" (1989)

"O Último Mergulho" (1992)

"O Bestiário" (1995)

– Curta Metragem

"A Comédia de Deus" (1995)

"Lettera Amorosa" (1995)

– Curta Metragem

"Passeio com Johnny Guitar" (1995) - Curta Metragem

"Le Bassin de John Wayne" (1997)

"As Bodas de Deus" (1999)

"Branca de Neve" (2000)

"Vai e Vem" (2003)

Livros:

"Morituri Te Salutant"

(1974) & ETC

"Uma Semana Noutra Cidade" (2000) & ETC

António José André

A devoção para além de John

Se a fórmula de jazz espiritual existe, essa cabe à multi-instrumentista e dedicada hindu Alice Coltrane.

Nascida em Detroit, Alice McLeod teve uma formação musical clássica cruzada com o gospel da igreja que frequentava. O seu irmão, Ernie Farrow, introduziu-a no jazz e levou-a, ainda adolescente, a tocar com a sua banda. Alice passa, a partir de então, a partilhar o palco com nomes tão sonantes como o guitarrista Kenny Burrell e o saxofonista Lucky Thompson. Nos anos 60 actua com Terry Gibbs através do qual é apresentada a John Coltrane.

O trabalho de John Coltrane passa a constituir a sua referência espiritual, mas cedo desenvolve uma interpretação influenciada por instrumentos orientais e pelo culto hindu.

O casamento, em 1966, marca a união musical de Alice e John e ela passa a substituir o pianista McCoy Tyner no Coltrane Quartet.

Alice prossegue, após a morte de John Coltrane, o trabalho do marido com a mesma banda, incluindo Pharoah Sandres, Garrison e Rashied Ali. Mas, introduz cítaras e tablas e dedica-se intensamente à harpa, virando-se para oriente em busca de inspiração. Grava uma versão pessoal de «A Love Supreme» com uma invocação do seu guru. Converte-se ao Swami Satchidananda e adopta o nome hindu de Turiya.

Durante os anos 80 e 90 Alice Coltrane retirou-se dos grandes palcos e gravou uma série de discos de música devota de distribuição limitada. Colorido, profundo e transcendente, o seu trabalho representa uma inspiração perfeita para a meditação.

Alice Coltrane

Discografia seleccionada:

«Journey in Satchidananda», 1970, Impulse

«Ptah, The ElDaoud», 1970,

Impulse

«A monastic Trio»,1968, Impulse

Sandy Gageiro

A Cuba na espuma dos tempos

A espaços, no quotidiano dos dias políticos, surgem dislates confrangedores que na sua maioria compõem a cena dos fait-divers passageiros. Mas outros há cujo alcance se situa muito além do momento em que são proferidos e tristemente registados.

Recentemente, em entrevista ao DN, Bernardino Soares asseverou que «não há presos políticos em Cuba» e, por acréscimo, desconsiderou a brutalidade do torcionário regime da Coreia do Norte. A culpa, claro, será da «filtragem» efectuada pelos media internacionais, o eterno papão que sempre vê o que não devia - ou está onde a verdade mais dói no corpo da fé.

Ora, não fosse Bernardino um jovem rosto do PCP, seu líder parlamentar e indiciado pela estrutura como a face da renovação, nada disto seria de relevar. Mas é, porque Bernardino fez o pino costumeiro e deu o dito por não dito, deliberadamente misturando questões da praxe onde menos devia, contribuindo ainda mais para a ignorância e amorfismo das massas em relação às esquerdas.

Na dobra da análise, o que estas declarações revelam é que o seu partido, o tal da renovação, nos dá mais do mesmo conservadorismo estalinista, esclerosado e com um insuportável hálito a naftalina, eterno ancião da verdadeira história e empoeirado nos dogmas e na trágica cegueira ideológica.

Porque Cuba tem, de facto, presos políticos. Como também um povo que sofre de uma clausura calustrofóbica há mais de quatro décadas, com fome e privações, enquanto uma abastada elite dirigente reina com os dólares dos turistas. «Mais Estado a mais socialismo», aplicam. Há saúde e educação, há a desculpa do embargo de Helms-Burton, mas isso não convence quem vive num Estado policiado que subverte a revolução, com censura e uma feroz repressão à intelectualidade crítica, aos homossexuais, aos sindicalistas, a quem se reúne, bate o pé e diz não.

As dissidências são várias, sendo os oligarcas de Miami, na sua maioria fanáticos anti-comunistas saudosos do colonialismo americano, o ângulo mais difuso e o que menos projecção deveria ter. Tanto mais quanto há uma face subterrânea em Cuba, toda uma geração que nasceu e cresceu em ditadura. E que luta num pensamento estruturado de Esquerda não-alinhada, subtraído às mais de 17.000 pessoas fuziladas e mais de 100.000 enviadas para prisões e «campos de reeducação» - segundo dados das insuspeitas Amnistia Internacional e Human Rights Watch.

Os comunistas não o mereciam. E, ainda que o quisesse, felizmente não há nenhuma Tcheka lusitana que possa varrer com uma foice ferrugenta esta realidade do real vivido.

Sites a visitar:

La Patria es de Todos

http://www.exilio.com/DOC3/Detodos.html

CubaNet

http://www.cubanet.org/

Tiago Barbosa Ribeiro

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

← Aproveitar as lições do passadoO mordomo →

Algo errado nesta página? Reporte um erro