combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

O mordomo

março de 2003 · Jornal · 392 palavras

Editorial · Combate, março de 2003, edição em linha

Durão Barroso dificilmente podia encontrar melhor maneira de assinalar um ano à frente do governo: depois de colocar a economia em curto-circuito levando à primeira recessão técnica no último trimestre de 2002, multiplicar o desemprego e reduzir a menos de zero a confiança económica nos anos futuros por parte de trabalhadores e empresas, nada melhor do que apresentar Portugal ao mundo como a sede dos preparativos duma guerra à margem do direito internacional.

Ao receber Bush, Blair e Aznar - os novos cavaleiros do apocalipse, já desfalcados da companhia de Berlusconi - ou melhor, ao prestar-se a ser o mordomo do encontro que ajudou a preparar o genocídio num país onde mais de metade da população tem menos de 15 anos, Durão justificou-se com o lamentável argumento de que não o fazer seria cobardia. Não será cobardia mas mero acaso o facto de o encontro só se realizar numa ilha no meio do oceano, longe (pensavam eles...) da contestação nas ruas aos crimes que, no recato das Lajes, se agendaram para o futuro próximo.

Durão colocou o país na primeira linha do seguidismo em relação á nova ordem imperial em detrimento de uma solução pelo caminho da diplomacia (tal como a defendida pela França e Alemanha, obviamente também elas movidas seja pelos interesses estratégicos que detêm na região quer por razões de política interna). Com a assinatura do tristemente célebre “documento dos oito” redigido pelo porta-voz do neo-liberalismo, o Wall Street Journal, o primeiro-ministro ajudou a dinamitar a confiança mútua entre os Estados europeus por alguns anos. Diz-se que o fez para não perder a boleia espanhola e ficar assim ainda mais secundarizado no plano político-militar, e em particular na NATO. Como se a estratégia do círculo próximo de Durão não fosse desde o início muito clara: a de dar todas as condições para a integração da economia portuguesa num espaço ibérico com centro em Madrid. E não se pode acusá-lo sequer de ter escondido essa intenção, quer no discurso aos empresários, quer tornando Aznar na estrela da sua campanha eleitoral. Só que há uma diferença importante no xadrez diplomático da guerra: enquanto Aznar quer garantir um lugar num futuro G-9, Durão sabe que o seu papel nesta ordem imperial nunca poderá passar daquilo que já hoje é, o de um mordomo que ainda por cima é cliente do patrão.

Luís Branco

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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