Contratempos
Combate, junho de 2003, edição em linha
Jornal2003Música
O primeiro de mil beijos
Para quando o primeiro beijo? E depois do primeiro virão mil ou muitos mais? Angústias de adolescência projectadas para posters colados na parede e traduzidos por longos suspiros, confissões feitas à agulha do gira-discos ouvindo Fairground Attraction.
A voz feminina da banda, Eddi Reader, não era o cliché da cantora pop por quem se rumoreja. Não aparecia frequentemente em revistas, não competia com top-models, nem tão pouco era procurada para entrevistas de primeira página. Pelo contrário. A escocesa ruiva de Glasgow mais parecia um cruzamento entre uma actriz dos anos quarenta e uma artista de sapateado. Belíssima, pensava eu. E quando ela cantava The First Of a Million Kisses/O Primeiro de Mil Beijos partia o coração fazendo-o chorar por mais. Uma voz que não se esquece mas que não é lembrada com frequência.
A pop-jazz dos Fairground Attraction apareceu no final dos anos 80 determinada a refrescar os tons cinzentos que se soltavam na época. A cantora em palco é encantadora (fruto de muitos anos na estrada com um circo e de várias digressões com os Gang of Four) e a sua escrita cândida, romântica, mas nunca superficial. Ela apresentava-se frequentemente com chapéus de coco, óculos redondos na ponta do nariz e saias de folhos, qual bailarina can-can.
Após abandonar a banda passa a cantar sozinha escolhendo pontualmente músicos como, por exemplo, Jools Holland para acompanhá-la ao piano. Os críticos atribuem-lhe o desconcerto vocal de Joni Mitchell e o swing de Rickie Lee Jones, mas a verdade é que a sua forma de cantar e de estar é única.
Sozinha afirma a assimilação de estilos diferentes e uma escrita mais sofisticada. No álbum Angels and Electricity, de 1998, Eddi inclui composições de ex-colegas dos Fairground Attraction, de Calum MacColl, dos The Bible, e ainda uma canção oferecida por Ron Sexsmith. Passa a ser, finalmente, um talento reconhecido no círculo.
Há menos de um mês lançou um álbum inspirado na obra do poeta escocês do século XVIII Robert Burns gravado com o Royal Scottish National Orchestra.
Eddi Reader - Discografia:
Mirmama, 1992
Eddi Reader, 1994
Angels and Electricity, 1998
Simple Soul, 2001
Sandy Gageiro
internet
Um parlamento do mundo
Tudo começou em 1993, com o assassinato do escritor argelino Tahar Djaout. A partir de Estrasburgo, a organização Carrefour des littératures lançou um apelo a perspectivar a necessidade de uma estrutura de apoio eficaz para escritores vítimas de perseguição e opressão. Em poucos dias, uma petição internacional subscrita por 300 escritores de todo o mundo marcou o nascimento do Parlamento Internacional de Escritores (International Parliament of Writers, IPW).
Com um admirável empenho para a concretização de objectivos, o Parlamento Internacional de Escritores criou uma Rede solidária de Cidades Refúgio para escritores reprimidos, desenvolve trabalho no terreno com base em denúncias de violação da liberdade intelectual e investiga novas variantes do fenómeno censório no mundo actual.
A 14 de Fevereiro de 1994, aquando do quinto aniversário sobre a fatwa islâmica pronunciada contra Salman Rushdie, a recém-criada organização institucionalizou a sua acção e lançou, pela mão deste escritor, a sua «Declaração de Independência»:
«Os escritores são os cidadãos de vários países: o país bem delimitado da realidade observável e da vida quotidiana, o reino infinito da imaginação, a terra semi-perdida da memória, as federações do coração, simultaneamente quentes e geladas, os Estados Unidos do Espírito, as nações celestes e infernais do desejo e, talvez a mais importante de todas as nossas moradas - a república livre da língua.»
O Parlamento Internacional de Escritores marca novas formas de intervir para a esfera da literatura. Refuta a instrumentalização dos grandes poderes e conta, nas suas fileiras, com autores como o francês Jacques Derrida, o chinês Bei Dao, o palestiniano Mahmud Darwish, ou o italiano Antonio Tabucchi. É, como escreve Christian Salmon, o Parlamento de «um povo que falta». Um Parlamento que não tem poder, não dispõe de palácio, escrivão e, até ao momento, de grandes meios financeiros.
Autodafe
The Censored Library
http://www.autodafe.org
Tiago Barbosa Ribeiro
internet
Filtros Anti-proibicionistas
É certo que nos tempos que correm até parece mal ouvir-se por parte da esquerda quaisquer críticas às Nações Unidas, mas a verdade é que não deixa de haver boas razões para isso… Então se falamos de um organismo da ONU que é visto com bons olhos pelos EUA e pela direita mais reaccionária, tanto melhor! Falo da Comissão de Narcóticos que recentemente reuniu em Viena para avaliar o plano aprovado em 1998, chamado, numa tradução livre para português, "1998-2008: Erradicar as Drogas no Planeta. Podemos consegui-lo!". Esta reunião juntou altos representantes dos governos (esteve lá o ministro português da saúde Luís Filipe Pereira) que reafirmaram a justeza da política desse plano: a proibição pura e dura, sem lugar para abordagens que não passem pela repressão aos consumidores. É deste organismo que partem as críticas mais ferozes aos regimes legais despenalizadores, bem como às experiências de troca de seringas, salas de injecção assistida ou prescrição médica de heroína. Por outro lado, é frequente ouvir deste comissão elogios rasgados às políticas de combate à droga de países que simplesmente executam consumidores e traficantes. Para esta Comissão da ONU é pouco relevante que todos os dados objectivos digam que, a meio caminho do prazo de aplicação do dito Plano, o mundo está hoje muito mais longe do objectivo traçado do que estava em 1998. Falar numa alteração da estratégia é para eles um pecado gravíssimo. E até a direita europeia, dos deputados no Parlamento Europeu que votaram a favor de uma nova política internacional nesta matéria aos que alertavam em S. Bento para a necessidade de alterar as Convenções internacionais antes de mexer na lei portuguesa, quando chegam a esta Comissão abstêm-se de propor o que quer que seja. Dizem eles que se alguém ali tomar a iniciativa de mexer nos ditos tratados, os países ultra-proibicionistas facilmente conseguem uma maioria para os tornar ainda mais repressivos. Ora face a este panorama, que alternativa resta aos estados que, no que toca à toxicodependência, põem a saúde pública à frente dos falsos moralismos? Romper com estes tratados é uma solução que deve ser pensada, a começar pela União Europeia. Mas, até lá chegarmos, quem já sabe que na balança da taxa de mortalidade entre o consumo de cannabis e do álcool o peso está todo neste último, pode aproveitar o mercado legal de carteiras de filtros de cartão (pioneiros em Portugal) e encomendá-los em grandes ou pequenas quantidades nesta página de internet onde Paulo Sousa e Castro também divulga as suas obras literárias, como o já best-seller "Caçar a Gosto"…
Salão de Fumo
http://www.salaodefumo.pt.vu
Luís Branco
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.