Os acampamentos revolucionários têm a nossa idade
Combate, junho de 2003, edição em linha
Jornal2003Passar das ideias aos actos: é para isso que jovens revolucionários de toda a Europa se juntam anualmente para uma semana de liberdade, construindo uma alternativa que imaginamos todos os dias no combate que travamos nas escolas, no trabalho, em casa, na cama.
Não seriam muito mais de uma centena os jovens que, sabendo o que queriam do mundo e o que este não lhes dava, decidiram organizar o primeiro acampamento revolucionário. Do momento, acontecido na floresta negra alemã, já lá vão 20 anos, nasceu o processo, crescendo de ano para ano na sua ambição e criatividade. O mundo mudou muito entretanto: na altura, o debate era marcado pela procura de uma alternativa socialista revolucionária, de liberdade e combatividade. Desde o início ficou a solidariedade com a 4ª Internacional, corrente socialista anti-estalinista, atenta aos ventos de mudança, pois sabemos que hoje, mais do que nunca, a globalização das resistências mostrou que outro mundo é possível e está ao nosso alcance.
Somos mulheres e homens e gays e lésbicas, vivemos em bairros, estudamos, trabalhamos, okupamos, reciclamos, militamos. Somos ecologistas, feministas, anti-racistas, antimilitaristas e muito mais. Acreditamos que é possível uma alternativa à guerra, à globalização capitalista, à desordem mundial, às pilhagens neo-colonialistas, ao império masculinizado. Queremos ter os olhos bem abertos e sobretudo tentar compreender e modificar as realidades que nos rodeiam. O futuro não está escrito mas acreditamos que teremos de ser nós a escrevê-lo. O Império engordou mas também a nossa vontade de o derrotar – por isso fomos a Génova, Sevilha, a Florença e a Porto Alegre, integrados nos Fóruns Sociais ou em desobediência contra o G-8. E também por isso iremos ao Acampamento Revolucionário deste ano, em que só a ordem que nos é imposta ficará à porta.
É já no próximo mês de Julho que teremos oportunidade de nos encontrar novamente, desta vez em Portugal, juntando muitos mais jovens do que no primeiro, o tal que tem agora a nossa idade. Trocar experiências de activismo, compreendendo a importância de nos organizarmos numa luta que nos dê gozo travar. Discutir com um galego o impacto da maré negra e o movimento Nunca Mais, conversar com uma catalã acerca da especulação imobiliária e a resistência do movimento Okupa, trocar impressões sobre o próximo Fórum Social Europeu de Paris com alguém que viva em Paris, e tudo o mais que fica sempre por dizer...
Mas já alguma vez pensaste que esse espaço, como o mundo que queremos, pode já ser, ele próprio, alternativo, sem reproduzir o muito que criticamos na nossa sociedade? Não sendo o mundo que desejamos, porque estamos conscientes das barreiras dificilmente intransponíveis que nos são impostas por quem governa o mundo, tentaremos fazer as coisas de uma outra maneira durante a semana do acampamento. Criaremos o nosso próprio espaço de uma forma autogestionada, em que todos possam participar, em total liberdade, sem discriminações de qualquer tipo. Acampar uma semana em que queremos ser nós própri@s, seja lá isso o que for, discutir, dançar, aprender, deitar abaixo as paredes dos nossos ouvidos...
Temos aquela mania chata de querer mudar o mundo...E tu?
Joana Lucas
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.