combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Entrevista com Paulo Lins Há um sentimento de mudança na sociedade brasileira

Filipe Calvão · julho de 2003 · Jornal · 415 palavras

Combate, julho de 2003, edição em linha

Autor do livro "Cidade de Deus" - adaptado ao cinema por Fernando Meirelles com grande sucesso internacional - Paulo Lins cresceu naquela favela do Rio e tornou-se professor de português e escritor. O COMBATE falou com ele durante a sua visita a Portugal em Junho.

O Brasil é dos países com maiores assimetrias sociais no mundo. Há esperança com o governo Lula?

Lula é produto da indústria brasileira e o presidente do maior partido de esquerda da América Latina e um dos maiores do mundo. Ha um sentimento de mudança na sociedade brasileira. A população não aguenta mais políticos corruptos e jogadas políticas para favorecer esse ou aquele segmento da sociedade. Ele tem força, é muito inteligente, honesto, corajoso e carismático. Acho que o Brasil vai dar um grande salto e Lula vai ser o grande líder de esquerda do ocidente.Lógico que devemos ter calma, pois isso não vai se dar da noite para o dia.

O Ministro da Reforma Agrária, Miguel Rosseto, afirmou que o governo assentará 60 mil famílias este ano, cerca de metade do total reivindicado pelo MST. Num país com 120 mil famílias acampadas nas beiras das estradas enquanto 4,6 milhões de famílias aguardam a prometida reforma agrária, isto é suficiente?

A reforma agrária e a violência são os pontos mais polêmicos no Brasil nesse momento. Há muito sectores da nossa sociedade que ainda são muito duros, por outro lado o MST é um dos movimentos mais organizados do país, mas também tem aproveitadores infiltrados no movimento. O Brasil é muito grande, mas dar só a terra sem amparo não resolve nada, por isso essa lentidão, mas acredito que esse problema vai se resolver a médio prazo.

A violência nas cidades é o tema do livro "Cidade de Deus". Como resolver a situação das populações faveladas e do tráfico de drogas e armas?

De imediato teríamos que resolver o tráfico e a produção de armas e munições no Brasil. E a longo prazo um mundo mais justo e mais iqualitário. O primeiro passo seria a reforma no sistema pentenciário e uma escola pública contudente.

A legalização das drogas seria uma solução possível?

Seria, mas gradativamente e dando emprego a quem já trabalha com isso nos morros. Porque se tirar a droga de que vende direto ao consumidor. O que eles fariam? Naturalmente iriam assaltar e cometer outros delitos.

Depois dos argumentos de filmes para tv e cinema, sobre o que lhe apetece mesmo escrever agora?

Um Romance...

Entrevista de Filipe Calvão

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

← O começo da intifada iraquianaOrwell e a cassete →

Algo errado nesta página? Reporte um erro