combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Orwell e a cassete

julho de 2003 · Jornal · 1.518 palavras

Combate, julho de 2003, edição em linha

Cansaço

O director do jornal “Público” continua uma cruzada muito pessoal. José Manuel Fernandes (JMF), algo versado no newspeak liberal, repete até à exaustão o seu ajuste de contas com o comunismo. Como quem não se consegue libertar de um atormentador passado que lhe mancha a pureza reconquistada. Outros também o fazem certamente, desde os desiludidos de várias revoluções aos cristãos-novos de velhos liberalismos. Poucos se distinguem a fazê-lo, não escapando este exemplo, a não ser pela posição mediática que ocupa, à mediocridade geral. Por cá o único que pode manter interesse neste exercício é Pacheco Pereira mais pelo prazer perverso com que fala do comunismo do que pelo brilho do seu pensamento sobre o assunto.

O despoletador deste texto foi um editorial do Público (de 25 de Junho) onde, a propósito da figura de Orwell, o comunismo volta a aparecer como o outro lado do espelho do fascismo. O tema cansa, o movimento textual também. Todas as posições já estão batidas, já farta a repetição obsessiva e o facto de serem os de sempre a escrevê-lo. Mas a quem interessa a repetição sem qualquer criatividade?

A acreditar no que JMF repete e no número de editoriais consagrados ao tema, andaria um enorme perigo de totalitarismo à solta nos que se dizem comunistas, o sindicalismo seria o pior inimigo do progresso social e o Fórum Social Português ou qualquer um/a que tenha a veleidade de querer pensar alternativas políticas ou económicas seria suspeito/a de simpatias terroristas. O movimento argumentativo é sempre o mesmo: da diferença política e da crítica ao existente ao ataque a toda a democracia, à pequena violência dos quebradores de janelas em manifs e daí para o gulag. Sentido único, tal como a inevitabilidade da absoluta determinação de tudo pelo mercado, elemento totalitário não-dito deste discurso, não fosse a democracia também ela vista por muitos como um mercado de ideias políticas ou de gestores destas. Mercado mas pouco livre e com a fronteira marcada. É que se o caminho económico único já esgotou as possibilidades da política escolher, como afirma o determinismo liberal, é a própria democracia que fica por terra como dano colateral.

Para que serve então a repetição? Para benefício do locutor em primeiro lugar. Seleccionado o alvo do “totalitarismo”, torna-se quem escreve imediatamente num freedom fighter que tem de manter a causa viva. Mas a repetição é também um meio de construção de memória, no sentido em que o poder e a linguagem constroem e reconstroem memórias e transformam o pensamento e a repetição é tentativa de controlo da realidade. Nesse sentido pequenino em que basta repetir mil vezes os mesmos processos para resultarem. É nesta primeira e derivada acepção que JMF se pode dizer “orwelliano” e aqui sem o querer.

Simetria

A simetria é o convite simplista do editorial citado: comunismo e nazismo seriam iguais, aí vem outra vez o “bodycount” do “livro negro do comunismo”, as boas intenções reconhecidas de uns valeriam tanto quanto as más dos outros, no fundo mera justificação do massacre, seria a “sofistificação da mentira comunista” porque é sob o signo da mentira/verdade que se deve ler a realidade (logo uns serão os mentirosos e outros os verdadeiros). É por se inscrever na simetria que só aproveita conscientemente em Orwell (ou dito de outra maneira: só se aproveita dele para) a crítica à fabricação, onde quer que ela seja feita, das verdades oficiais. Há no entanto algo mais profundo em Orwell do que a ideologia como falsidade e mentira (tema absoluto do marxismo mais ortodoxo), mas disso não quer JMF falar. Só lhe interessa dizer que o marxismo todo ele teria sido inventado para no futuro justificar um sistema totalitário. De repente voltamos a ler Popper e outros mais desajeitados: Marx é culpado de Estaline, Lenine também, qualquer crítica é suspeita de ser contra a “sociedade aberta”, outra vez o mesmo movimento argumentativo, e o cansaço que o acompanha.

Não conta que de um lado estivesse uma teoria que queria o extermínio das raças impuras e a morte e do outro a defesa da solidariedade e a justiça social? Assim não teria sido o estalinismo o abastardamento, o desvio desses ideais mas o seu coração insuspeito, a verdade que lá estaria antes mesmo de ser murmurada. É óbvio que o estalinismo cometeu crimes hediondos. Que não podia ser socialismo porque não era democrático. Que os seus crimes não se justificam. Mas do lado da suástica só existe a ideia de um poder exterminador e assassino em massa, do lado da foice e do martelo, para além dos ideais que nem os mais mal intencionados podem desmentir que sejam pela parte de muitos/as generosos, estão também todos/as os/as que lutaram contra o estalinismo, que afirmaram a democracia como componente indispensável de qualquer socialismo. Os crimes do estalinismo não têm inexoravelmente de estar às costas de todos/as os/as marxistas.

Acreditará JMF que são nazis falhados todos os distintos parlamentares do PCP? Serão Ferro ou Soares condescendentes com o fascismo por andarem de punho erguido, esse sinal da barbárie que ele coloca como similar à saudação fascista? Ou terá ele pesadelos em que o jovem JMF seria o cinzento guarda de um gulag? Mas não nos deixeis cair na tentação da redução ao absurdo. A arma fácil de todos os propagandistas.

É que se formos justos a própria crítica do mercado como totalitário cai nesta ratoeira da simetria simplista em que as palavras pelo arredondamento podem dizer tudo. E mais cairão as críticas com que imediatamente reagem alguns. Críticas simétricas como o “livro negro do capitalismo”. Ou então face à personagem da historiadora liberal na rábula a que JMF faz referência ainda no mesmo editorial que se chocava com o folclore pós-queda do muro, o mais simples é colocar outros pressupostos ideológicos a passear nas ruas de um país do terceiro mundo, a chocar-se com a fome, ou pode ser no Iraque que também pode dar.

O convite a pensar tem de ultrapassar a facilidade do pensamento pré-fabricado, à esquerda e à direita. A análise de fenómenos sociais e históricos desta dimensão é bem mais complexa do que as conveniências argumentativas, se bem que estas sejam igualmente significativas.

Orwell

De Orwell ele próprio, o novo herói de JMF pouco referirei. Faço como o dito editorialista, que só usou como justificação de mais um ataque ao comunismo, papel triste que lhe coube em altura de aniversário, é bem feito para não andar aí para aí a chibar-se, dirão alguns apressadamente. Não vale a pena entrar na desinteressante batalha pela sua alma que desde há muito direita e esquerda travam. Mas a verdade é que muitos preferem esquecer-se que a denúncia do estalinismo, pelo menos na fase em que este escreve a “Homenagem à Catalunha” é feita em nome da foice e do martelo, ao lado do POUM, e dos que no estado vizinho mais se notabilizaram na luta contra todos os fascismos. “A mensagem de Orwell não foi bem interiorizada” diz JMF sem precisar qual é que, para lá da denúncia, esta era. Na omissão cabe um pensador no mínimo não convencido das virtudes do capitalismo, não estando estabelecido o pecadilho de denunciante que recebeu como prenda de anos. Terá ele deixado de acreditar no que o movia, rendendo-se à realpolitik e à lógica da guerra fria? Será que o herói recente de JMF acabou por trair aquilo em que acreditava (ironicamente qual Winston do 1984 no qual o fim do partido totalitário era “utilizar a decepção consciente mantendo a firmeza de propósitos que vai com a honestidade completa”) ou que se converteu secretamente às virtudes do liberalismo? Será que é de si que JMF continua a falar louvando-se na pessoa de outro?

De qualquer modo, a partir de Orwell há muito a pensar. O “1984” trouxe para o debate o carácter não neutro da linguagem, sobre o facto de manifestar uma vontade de poder, colocou questões interessantes ao nível da relação entre pensamento/linguagem e poder, entre a tecnologia e o poder, abriu reflexões sobre a forma de construção do senso comum pelo poder etc. Reflectiu sobre isto a propósito do modo de funcionamento do corpo social paranóico dos “totalitarismos”, do estalinismo e do nazismo em particular, mas a crítica ao capitalismo estava sempre presente e interessante é analisar como algumas destas formas estão vivas não apenas nos modos mais directamente repressivos de poder. E algumas das suas fórmulas não podem deixar de soar por estes tempos em que “guerra é paz”, “ignorância é força” (garantido é que ele não conhecia George W. Bush).

Como nota final e aproveitando a onda, venho por este meio denunciar-me a mim porque não deixei de lutar e a outros (incluindo redacção e leitores deste jornal) que referencio como tendo já, tal como eu, erguido o punho, cantado “a internacional”, ou defendido a “revolução”. E mais declaro não pretender tornar hábito utilizar as armas da repetição e do simplismo a que esta resposta me obrigou. E declaro terem sido estas apenas um disfarce. Porque é para lá delas que mora o pensamento mais perigoso. Cuidado com eles/as, são os/as suspeitos/as do costume.

Carlos Carujo

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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