Era uma vez um Império
América, América · Combate, abril e maio de 2003, edição em linha
Jornal2003O dia em que as tropas americanas entraram vitoriosas em Bagdade promete ser recordado como o dia em que a história mais avançou às arrecuas. Uma capital sem luz nem água, património universal da humanidade perdido para sempre, ministérios, bibliotecas, museus e arquivos saqueados, infraestruturas arrasadas por uma guerra preventiva que ameaça alastrar-se a outros vizinhos. O tigre de papel desfez-se, revelando as fragilidades da ditadura de Saddam. As palavras leva-as o vento, e as tempestades no deserto fizeram seguramente apagar os argumentos desta guerra. Nem smoking guns – mesmo que venham a encontrá-las, a verdade é que não foram sequer usadas contra as forças ocupantes – nem ligações ao terrorismo, provando-se que o movimento global que nasceu contra esta guerra tinha razão: que real ameaça representava para o exterior o regime de Saddam? Por agora, e até ver, o maior terrorista "encontrado", Abu Abbas, estava retirado da actividade há 18 anos. O regime de Saddam seria uma ditadura? Certamente. Mas já alguém ouviu falou em eleições democráticas, no Iraque ou no Afeganistão?
A rua festeja a liberdade mas com o sabor amargo da ocupação. A recusa das autoridades religiosas em colaborar com as forças americanas e a sua administração no terreno, numa tentativa de formar um governo paralelo, promete incendiar as relações dos "libertadores" com os "libertados" e um aumento exponencial do poder da religião, reduto da resistência às tropas americanas e inglesas. Mas o fanatismo combate-se com fanatismo: a Southern Baptist Convention – os mesmos que descreviam Maomé como "demon-possessed pedophile" – congregação religiosa do sul dos EUA, afirma ter um exército de 25 mil missionários evangélicos, prontos a entrar no país e converter as almas dos iraquianos corrompidas por um Islão "malvado" [wicked], na expressão do Reverendo Graham, utilizada na tomada de posse de Bush.
A militarização absoluta da política é o futuro do Império. A máquina do exército tornou-se a alavanca da economia e a certeza da imposição da Pax Americana condição da sua própria sobrevivência. "We have a long list of issues we are thinking of demanding of the Syrians, and it would be best done through the Americans". A recente frontalidade do ministro da Defesa Israelita, Shaul Mofaz, revela bem o "roadmap" desta guerra e da doutrina Bush, de elaboração neo-conservadora, fundamento ideológico para o exercício de um poder militar absoluto, unilateral, permanente e preventivo dos EUA. A ocupação do Iraque foi só um primeiro passo: a guerra infinita ainda mal começou. Quem não está com o Império está contra ele e o seu campo de batalha mede-se, a partir de agora, pela escala do planeta, sem justificação, árbitros ou juizes. Os contratos milionários assegurados com a reconstrução da guerra – entregues nomeadamente à Bechtel Corp., de São Francisco – e a garantia da estabilidade da produção de petróleo compensam outros dados: o dinheiro gasto com esta guerra teria permitido o financiamento de mais de milhão de estudantes, durante quatro anos, nas universidades americanas [www.costofwar.com].
O "Vice-Rei" Lt. Gen. Jay Garner, como é carinhosamente tratado por alguns meios de comunicação norte-americanos, não é um ilustre desconhecido militar na reserva que patrioticamente decidiu abraçar a causa da reconstrução de um país. O recém-empossado governador militar do Iraque, antigo responsável pelo sistema de defesa míssil "Arrow" de Israel, foi convidado pelo Instituto para os Assuntos de Segurança Nacional de Israel, pouco após os atentados de 11 de Setembro de 2001, para uma visita ao país. Nessa ocasião, retribuindo o convite, o mesmo Jay Garner que agora governará o Iraque assinou de cruz a política de tratamento de choque de Sharon aos Palestinianos. Uma amizade antiga nunca se questiona e o Memorandum of Understanding, assinado entre Israel e os EUA pela mão de Henry Kissinger no ano de 1975 também não. Recuperado agora pelo seu antigo chefe de gabinete, Donald Rumsfeld, este acordo permitirá a reconstrução de um oleoduto, inactivo desde 1948, entre Mosul, no Iraque, e Haifa, na costa Israelita. A quem foi atribuída a empreitada? Bruxos: a mesma Bechtel, tudo entre amigos. Alguma dúvida sobre a motivação da guerra?
A anedótica possibilidade de registo comercial da expressão "Choque e Pavor" [Shock and Awe] é a prova da universalização do conceito e a garantia da sua utilização num futuro próximo pelo Pentágono. A tentativa partiu de uma conhecida marca de jogos de computador, provavelmente inspirada no lacónico embaixador iraquiano, quando afirmou perante as câmaras de televisão o fim do regime de Saddam: "The Game is Over". No entanto, se a guerra de ocupação acabou, a de libertação ainda mal começou. E o choque das superpotências continuará, contra a guerra na Síria ou onde quer que o Império tente impor a sua lei e ordem. O movimento antiguerra tinha razão e a história assim o dirá.
No War for Empire
Alguém disse que não estivemos perante uma, mas duas guerras. O tratamento "higiénico" das imagens da intervenção norte-americana na comunicação social dos EUA terá sido uma delas: uma guerra sem mortos, alvos cirúrgicos, muitos briefings e conferências de imprensa, no Pentágono ou no Centro de Operações no Qatar. A outra guerra, aquela que não se viu nos ecrãs da Fox, CNN ou MSNBC, mostrou o seu lado sujo. A uma opinião pública norte-americana maioritariamente domesticada à inevitabilidade da guerra, com particular incidência nos Estados do sul e do interior, contrapõe-se uma massa de gente, um pouco por todo o mundo, indignada com a hipocrisia da guerra e com a ocupação neocolonial de um país no médio oriente.
Os protestos contra a guerra nos EUA foram fortes nas duas costas. São Francisco, onde está sediada a Bechtel Corp, foi curiosamente a cidade da costa Oeste onde os protestos atingiram uma proporção mais radical. A manifestação do passado dia 12 de Abril em Washington, num apelo da coligação ANSWER, foi um espelho das "Américas": a que se mantém irredutível no apoio a Bush – em nome do patriotismo e da ameaça potencial revelada com os atentados do "9/11", em peregrinação de fim-de-semana ao memorial das vítimas da guerra no Vietname – e aquela que ousa falar mais alto que o poder da televisão, dos lobbies económicos e da própria Casa Branca. A pressão é constante: de Saving Private Jessica Lynch e da libertação dos sete presos de guerra norte-americanos ao God Bless America, o apego ao valor da bandeira está em permanente desafio. Quem não está com o exército, está contra ele.
O combate à guerra no Império enfrenta, a partir de agora, uma travessia no deserto. Apesar disso, o sucesso propagandeado da ocupação no Iraque não desmobilizou os milhares de pessoas que se manifestaram em Washington, contra o projecto de guerra na Síria e a ocupação colonial do Iraque, exigindo uma mudança de regime nos EUA. Brothers and sisters, a luta continua.
Filipe Calvão, em Washington
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.