combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Espaço intergaláctico

novembro de 2003 · Jornal · 426 palavras

GLAD · Combate, novembro e dezembro de 2003, edição em linha

Durante o Fórum, foi no espaço GLAD (Globalização das Lutas e das Acções de Desobediência) que os grevistas do McDonalds vieram apresentar a sua luta, dando lugar a uma imediata ‘saída para a rua’: 400 jovens atravessaram Paris, rumo aos Campos Elísios, para ocupar a hora de ponta do McDonald’s local. Duas horas depois, o cortejo seguia para junto dos desempregados e ‘intermitentes do espectáculo’ (os precários das artes que perturbaram os festivais de verão em toda a França), que protestavam à porta da segurança social. São dez mil, o ministro não os recebe e ordena a carga policial com gás lacrimogéneo. Mas de onde vem esta turbulência, que se apresenta “intergaláctica”?

A Rede Intergaláctica nasceu da iniciativa de grupos de jovens catalães e italianos em contacto desde o Fórum Social Europeu de 2002 em Florença. As primeiras pontes com a França são ainda recentes e resultam da preparação da campanha “G8 Ilegal”, que enfrentou a cimeira dos oito governos mais ricos do mundo em Évian. Aí foi plantada a Aldeia Intergaláctica, espaço eco-gerido que durante três dias de debates, ateliers e acções, juntou cinco mil pessoas.

No verão, em Larzac, durante o enorme encontro organizado pela Confederação Camponesa de José Bové enquanto decorria em Cancún a cimeira da OMC, a Aldeia tornou-se Rede, juntando estudantes da ATTAC-Alemanha e outros grupos. São sobretudo jovens e trazem um pé atrás, face a modos de funcionamento rígidos de associações como a ATTAC-França, sem respostas para gente interessada em enfrentar as manifestações da globalização armada através de formas de desobediência civil não-violenta. Já na preparação do FSE, a Intergaláctica convergiu com os colectivos de jovens precários, com a rede No Vox (onde se encontram os movimentos dos “sem” – sem-tecto, sem-papéis…) e com os LGBTs das Panteras Côr-de-Rosa para dar vida ao espaço GLAD. Instalado nas imediações do estádio municipal do subúrbio popular e imigrante de La Villette, o GLAD foi uma iniciativa auto-organizada mas reconhecida pelo FSE, apresentando-se tranquilamente com um pé fora e outro dentro.

Nos debates, exibições de filmes, concertos ou nas iniciativas de desobediência, os jovens do GLAD não param. São organizadas brigadas de ‘subvertising’, que deixarão irreconhecíveis centenas de painéis publicitários - “poluição visual consumista e sexista” – no metropolitano. No último dia, é ocupada a sede da Air France. Não se trata de voltar para casa de avião: a companhia celebrou com o governo o macabro negócio dos charters de expulsão dos imigrantes sem-papéis e merece ser brindada com a visita de encerramento de uma semana de festa e acção política. Jorge Costa

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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