combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Onde está a Arlette?

novembro de 2003 · Jornal · 500 palavras

Combate, novembro e dezembro de 2003, edição em linha

Nas eleições regionais de Março de 2004 e nas europeias de Junho, as organizações francesas Liga Comunista Revolucionária (IVª internacional) e Lutte Ouvrière concorrerão coligadas. A aliança pode mudar o mapa político da esquerda francesa (nas presidenciais 2002, a soma dos votos dos respectivos candidatos atingia quase os 10%, depois de em 1999 ter garantido a eleição de cinco eurodeputados). Porém, no FSE, o partido de Arlette Laguiller primou pela ausência, enquanto os activistas da LCR foram centrais no processo de Paris. Como peixe na água, a Liga distribuia gratuitamente o jornal Rouge, diário durante o FSE. Na edição de 14 de Novembro, François Duval apresentou ao Fórum as divergências alterglobalistas entre os parceiros de coligação.

A alterglobalização constitui uma diferença importante entre a LCR e a Lutte Ouvrière. Divergência de análise: para a LO, no fundo não há nada de novo – o capitalismo sempre implicou uma lógica internacional. Para a LCR, vivemos uma fase nova que eleva a um patamar sem precedentes as tendências outrora embrionárias do capitalismo: tudo se torna mercadoria à escala planetária. As multinacionais e instituições como o FMI e a OMC tornam-se peças centrais deste dispositivo.

Mas é sobretudo na abordagem do movimento alterglobalista que está o problema: para a LO, ao atacar a globalização e não o capitalismo, o movimento falha o alvo. Na melhor das hipóteses, limita-se a um “sonho generoso” de humanização do capitalismo; na pior, é refém de tentações proteccionistas. Para a LCR, o movimento não é, evidentemente, homogéneo. Mas os debates apaixonados que o atravessam levantam questões fundamentais que apelam, julgamos nós, a respostas radicais. É certo que existem respostas que visam apenas a regulação dos excessos do sistema, ou a dar mais peso na economia aos Estados nacionais, que também obedecem a uma lógica capitalista. Mas essas posições estão longe de ser maioritárias. Desde Seattle que se desenvolve uma crítica global do capitalismo como sistema mundial, legitimando o debate sobre a possibilidade de “um outro mundo”. Trata-se de um contexto muito favorável, onde respostas anti-capitalistas e internacionalistas podem de novo ser ouvidas por dezenas de milhares de homens e mulheres revoltados pela barbárie do sistema. Na condição de que os revolucionários abdiquem de atitudes cépticas ou condescendentes e estejam presentes, como uma das componentes do movimento, para o construir e realizar os debates necessários. Esta é a atitude da LCR.

Mas quando se trata de agir concretamente contra os despedimentos, as privatizações, o desmantelamento dos serviços públicos, o corte nas reformas ou por uma outra repartição das riquezas, a LO e a LCR encontram-se frequentemente nas mesmas mobilizações sociais, greves e manifestações. Certamente que isso não basta para se construir uma organização comum. Mas o acordo de discussão entre a LO e a LCR para as eleições regionais e europeias pode garantir ressonância máxima a propostas anti-capitalistas que mais nenhuma lista defenderá. Num quadro limitado (as eleições) e pense a LO o que pensar, este é também um contributo para a luta contra a globalização capitalista. Jorge Costa

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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