Índia Tanto o Laranja Açafrão como o Verde Pertencem à Bandeira (2)
Combate, janeiro de 2003, edição em linha
Jornal2003Inês Fonseca27 Fevereiro 2002 (manhã) Grupo de muçulmanos incendiou carruagem do Sabarmati express (Godhra, estado de Gujarat), o que à primeira vista poderia ser considerado mais um incidente de violência no contexto geral de conflitos comunalistas entre hindus e muçulmanos.
27 Fevereiro 2002 (na tarde do mesmo dia) Resposta hindu através de actos de violência planeados e organizados, assumindo um carácter de verdadeiro genocídio.
28 de Fevereiro Depressa surgiram relatos de tensão e violência contra comunidades muçulmanas (selectivamente), em toda a região de Baroda: localidades atacadas e destruídos locais de oração, assim como surgiram grupos nas ruas, durante a noite, gritando slogans ameaçadores. Instalou-se o pânico entre os muçulmanos.
1 de Março Muitos preferiram refugiar-se nas casas de vizinhos, esquadras de polícia e templos. Seguem-se os saques e incêndios das casas abandonadas e o consequente movimento de refugiados, deslocando-se para áreas de "segurança". Simultaneamente, surgem os ataques a alvos específicos (templos e lojas muçulmanos) fora das comunidades muçulmanas.
15 de Março Segunda vaga de violência, de acordo com o mesmo padrão e tendo por objectivo terminar o que havia ficado por fazer: o resultado foi a destruição total das propriedades muçulmanas. No final, até mesmo as comunidades indígenas foram atingidas pela violência comunalista (o que não é frequente).
"Os muçulmanos tornam-se perigosos só por passarem pelos mais simples processos biológicos, como o nascimento, a reprodução e até a morte – como nos referiram numa investigação realizada sobre os motins de Nizamuddin em 1991 –, pois um muçulmano que morre ainda vai ocupar um pedaço de terra para ser enterrado, ao contrário dos hindus cujo corpo desaparece por cremação." (Sumit Sarkar, 1993, "The Fascism of the Sangh Parivar")
O FASCISMO HINDU
O episódio do dia 27 teve antecedentes de grande tensão, provocada por hindus, que deu lugar a uma explosão por parte da comunidade muçulmana (no contexto do conflito comunalista "habitual" na sociedade indiana). O incidente serviu para justificar a rápida escalada de violência contra esta comunidade, o que reforça a teoria (não comprovada) de que se tratou de uma acção longamente planeada e que serviu os objectivos dos nacionalistas hindus radicais em ano de eleições.
O comunalismo reclama que a sociedade indiana se divide em comunidades definidas pela adesão a uma religão própria, o que resulta na partilha de interesses comuns relativos a outras esferas da vida dos indivíduos. Assim, os interesses de cada uma destas comunidades são não só diferentes mas, sobretudo, antagónicos aos interesses das outras. Os administradores ingleses (com o apoio dos intelectuais) construíram a base ideológica desta atitude: a primazia da "raça hindu (ariana)" e da sua posterior degenerescência, a par da centralidade do conflito entre raças, religiões ou comunidades – o que, convém referir, lhes foi de grande utilidade: tratou-se, no fundo, de dividir para reinar(!).
Desde então, ao longo de todo o séc.XX, estas ideias prevaleceram suportadas por grupos de intervenção social ou partidos políticos. Actualmente, os principais continuadores desta herança ideológica são o Bharatiya Janata Party (BJP – partido político actualmente no governo e o recente vencedor das eleições em Gujarat – ver COMBATE de Dezembro) e o Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS – movimento para-militar com intervenção socio-cultural). São ambos faces da mesma moeda – o fascismo hindu – que se apoiam mutuamente: um, através da acção política e, o outro, através de actividades (públicas ou secretas) de divulgação dos ideais.
HINDUSTHAN: A NAÇÃO HINDU
Fundado em 1925, desde o início, o RSS estabeleceu uma identificação com a existência de uma nação hindu. Trata-se de um nacionalismo não-territorial, definido pela pertença a uma religião, obviamente associada a um território, um povo e uma língua próprios.
A ideologia do movimento foi estabelecida essencialmente por Madhav Sadashiv Golwalkar (que chegou à liderança em 1938), baseando-se em dois elementos: a pureza e supremacia da "raça hindu" e a existência de um reino hindu original (que deveria ser recuperado). É defendida a purificação do hinduísmo através da um retorno a um tempo original, imemorial, anterior às agressões dos invasores muçulmanos.
Nesta perspectiva, a rejeição da designação Hindusthan (preferindo o termo India, imposto pelos ingleses), bem como a aceitação da ideia de uma nação com um território onde convivem diversos povos, religiões e línguas, são considerados uma traição a este ideal original – traição essa que se concretizou com a independência do estado indiano enquanto espaço de convivência de várias comunidades.
Através de uma fachada de organização não-política, o movimento tem evitado a sujeição destes princípios ao escrutínio eleitoral, preferindo a penetração disfarçada na sociedade civil. Inicialmente, tratava-se de uma organização local (baseada em Nagpur), mas através de técnicas como a oração colectiva, a recuperação e reinvenção de rituais religiosos, o treinamento físico, o recurso aos mitos tradicionais sobre o heroísmo hindu contra os invasores muçulmanos e o recrutamento de jovens (entre 12 a 15 anos) para as suas bases, rapidamente os resultados se fizeram notar: a organização começou a sobrepor-se nos confrontos físicos com grupos muçulmanos e a ganhar aliados proeminentes na sociedade, alargando o seu raio de acção a todo o estado indiano.
A VIOLÊNCIA DOS HINDUS RADICAIS
O treino físico dos militantes do RSS nunca teve por alvo o confronto com os ingleses: as armas com que treinam destinam-se, sobretudo, a atacar outros civis. Mesmo porque, até 1947, o movimento absteve-se de qualquer luta contra os colonizadores. A sua actividade sempre se baseou no mito da existência de um conflito (com milhares de anos) entre hindus e muçulmanos. Assim, para além da violência física contra indivíduos muçulmanos, outro dos terrenos de batalha do RSS é o da história: através da construção de mitos, entre eles o da agressividade inerente aos muçulmanos (esquecendo que eles são as principais vítimas dos confrontos, nas últimas décadas).
Com a independência do estado indiano (em 1947), verificou-se um pico no ódio aos muçulmanos e, consequentemente, um incremento nos actos de violência, contribuindo para a existência de uma atmosfera de efervescência no país, que culminou com o assassinato de Gandhi (em 1948). Os indivíduos envolvidos nesse atentado eram membros do RSS, mas o movimento não foi formalmente acusado. Houve apenas uma proibição de continuar a sua actividade nos moldes em que esta ocorria até então, justificada com base no envolvimento de membros do RSS em actividades consideradas indesejáveis (como roubos, agressões, assassinatos e posse ilegal de armas). Imediatamente, em 1949, esta proibição foi levantada mediante o compromisso de se manterem fora da política – o que tem sido livremente interpretado, tanto pelo movimento como pelos políticos.
A ACTIVIDADE POLÍTICA DO RSS
A prática de "entrismo" em diversos partidos, bem como a propaganda agressiva do ideal nacionalista – construindo e impondo novos rituais e mitos de cariz religioso e até supersticioso (onde, antes, existiam práticas de uma sociedade secular) – constituem os dois extremos da sua actividade. De permeio encontramos o trabalho junto dos refugiados pós-partição (em 1947), as campanhas contra o consumo de carne de vaca e abate dos animais, etc.
Quando, após a guerra com a China (em 1962), a atitude anti-comunista se generalizou na India, o RSS engrossou as suas fileiras. E o líder da época, Balasaheb Deoras, marcou um período de intensa actividade política.
Entre 1967 e 1989, através de uma estratégia de alianças políticas indiscriminadas, com o único objectivo de oposição ao Congresso, o RSS e os partidos políticos onde os seus membros participavam alcançaram (embora de modo irregular) importantes vitórias. É nesta época que surgem as alas estudantil e dos trabalhadores.
A HISTÓRIA CENSURADA
De acordo com a actividade do RSS, está a acção política do BJP. O que se verifica em mudanças subtis como a alteração do nome de algumas localidades, no sentido da sua "hinduização": Benares, Bombay e Calcuta passaram a designar-se, respectivamente, Varanasi, Mumbai e Kolkata. Ou ainda, em transformações e rupturas mais polémicas, como a crítica e censura relativamente ao trabalho científico de alguns autores, com o fim de impor a versão histórica dos nacionalistas hindus radicais, no ensino público.
O National Council for Educational Research and Training (NCERT) decidiu, em 2002, não publicar nem recomendar os trabalhos de investigação de vários historiadores. Esta medida foi tomada pelo governo sem qualquer sanção ou oposição do Parlamento. A proibição estende-se ainda à censura de passagens dos livros escolares publicados pelo NCERT, estando também prevista a substituição e posterior abolição da disciplina de história no currículo do ensino básico.
Defende-se uma versão da história que consolida a imagem da comunidade hindu como homogénea, imutável e oposta aos muçulmanos e cristãos, esquecendo as diferenças de casta, classe, género, das imensas variações regionais, etc. Uma das teorias científicas censuradas consiste na afirmação (sustentada pela leitura de textos sânscritos e provas arqueológicas) da prática de ingestão de carne de vaca entre os brahmans na Índia antiga – o que constitui, compreende-se, uma teoria incómoda aos olhos dos actuais nacionalistas hindus.
O nacionalismo hindu, ao recorrer a justificações como a maioria religiosa da população, a maioria eleitoral na Assembleia e a anterioridade da comunidade no território, contradiz duas regras básicas da democracia: o respeito pelos grupos e modos de vida minoritários e a possibilidade de, no futuro, as minorias virem a transformar-se em maioria. Um antigo aviso feito por Nehru, assume particular actualidade: "O comunalismo muçulmano é na sua natureza tão negativo como o hindu, e talvez corresponda a um sentimento mais forte entre os muçulmanos. Mas o comunalismo muçulmano nunca será dominante na sociedade indiana nem introduzirá o fascismo. Isso, apenas o comunalismo hindu pode fazê-lo." (citado em Frontline, 1 Janeiro 1943)
Inês Fonseca
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.