Galiza: resposta social à catástrofe
Combate, janeiro de 2003, edição em linha
Jornal2003José Brandariz GarciaA Galiza está a sofrer, nos últimos meses de 2002, aquela que é já qualificada como a maior catástrofe de contaminação marítima na história europeia recente: a fractura e posterior afundamento ao largo da costa galega do velho petroleiro Prestige, com cerca de 80 mil toneladas (oficialmente) de fuel a bordo, vertidas - sem pressa mas sem pausa - nos mares que banham esta costa.
Deste acontecimento e das suas consequências podem fazer-se diversas leituras de interesse notável: uma das menos prescindíveis é a que diz respeito à resposta social extraordinária a que esta tragédia deu origem.
Alfonso R. Castelao, um dos intelectuais e pensadores mais destacados na história da Galiza, disse no início do século XX: "O galego não protesta, emigra". Não estava enganado o homem de Rianxo: se olharmos para a história contemporânea da Galiza e tentarmos analisar a adesão às lutas emancipadoras que atravessaram os séculos XIX e XX no mundo ocidental, certamente constatamos - comparando-a com outros territórios do Estado espanhol - uma acentuada desvertebração social a par duma certa precariedade dos movimentos, geralmente limitados a uma comarca ou a um sector em especial.
Todavia, a catástrofe do Prestige deu origem a essa resposta social extraordinária, concretizada por exemplo nos 200 mil manifestantes em Santiago no dia 1/12, ou nos 150 mil em Vigo no dia 11, ou nos muitos milhares que se lançaram ao trabalho nas nossas costas, retirando muitas vezes com as próprias mãos, o venenoso chapapote (1).
O que é que pode explicar uma resposta social tão contundente ante a catástrofe, especialmente significativa se tivermos em conta o contributo limitado da cidadania galega a outros movimentos?
Certamente, a razão fundamental está na contradição insuportável entre o que aqui na Galiza percebíamos da dimensão da catástrofe e a desorientada - e por vezes grosseira - atitude da Administração.
Mas passada esta fase, a dimensão do movimento provavelmente fica a dever-se igualmente ao mal-estar da maior parte da cidadania - tanto galega como espanhola - ante uma segunda legislatura de governo PP que está a parecer interminável.
De facto, a última legislatura no poder de um J.M. Aznar que anunciou várias vezes para 2004 o seu abandono da política espanhola, coincidiu com uma maioria absoluta PP no parlamento de Madrid, que originou a aplicação de um programa de extremos, sem nenhum cuidado pelas reformas democráticas mais básicas. Lei de Estrangeiros, Plano Hidrológico, Lei das Univesidades, Lei da Qualidade do Ensino, semestre da presidência da UE, início da desaceleração económica, primeiros indícios de corrupção, cortes generalizados às liberdades, ofensiva neo-espanholista insuportável contra os sectores independentistas ou pela autodeterminação do País Basco e noutras partes do Estado - estes foram os acontecimentos que deram o tom a esta legislatura, geralmente acompanhados de protestos de cidadania com grande importância. Só as limitações da oposição (um PSOE com uma liderança carente de atracção social, uma IU em crise interna e umas forças nacionalistas desunidas e na defensiva), o débil eco político das lutas sociais, mas sobretudo a magistral mercadotecnia político-eleitoral do PP - que colocou um renovado nacionalismo espanhol, convenientemente apoiado na firmeza da luta contra a ETA e o nacionalismo basco, como a principal e determinante variável do voto - podem explicar a manutenção do governo da direita.
Tudo isto pesou certamente na sensação de desamparo da cidadania galega mais organizada e dos sectores progressistas do país. Mas, no caso do Prestige, foi a atitude do governo espanhol - e galego - que fez despoletar o movimento. Ambos os executivos minimizaram desde o início, tanto pública como internamente - a dimensão da tragédia. Com isso, pensaram que a táctica já ensaiada muitas vezes voltaria a conseguir abafar qualquer dissidência. Se voltarmos a olhar para estes 45 dias, vemos que essas tácticas consistiram em:
— Atribuição da presença pública a autoridades de segundo nível e descoordenação entre as Administrações: o Governo central começou por fazer-se representar pelo delegado do governo na Galiza, uma figura de escassa aceitação popular, e ainda que depois fosse o primeiro vice-presidente do Governo - Mariano Rajoy, que é galego - a garantir a exposição pública, isso só serviu para acentuar a ausência de Aznar e dos ministros implicados - em especial do responsável máximo pelo acontecido, Alvarez Cascos, da pasta do Fomento. Por outro lado, as habituais lutas intestinas entre o PP estatal e o galego (e as internas dentro deste) condicionaram o baixo perfil que o PP local manteve, e a quem os galegos não perdoaram.
— Censura e negação da realidade: o Governo preparou também esta fórmula já executada na greve geral de Junho passado, negando a presença da maré negra, a existência de fugas de fuel a partir dos destroços afundados e diluindo a responsabilidade nas decisões que conduziram o Prestige ao afundamento em alto mar. Só que, desta vez, a contradição radical com o que se sabia impediu esta fórmula de servir para algo mais que inflamar os ânimos das e dos galegos.
— Apelo aos mecanismos clientelares: A forte tradição clientelar na sociedade galega fez o PP acreditar que com as indemnizações aos afectados o problema ficava minimizado. Se isso funcionou nalguns casos - sobretudo com confrarias de pescadores do norte da Galiza - a chegada da segunda maré negra às Rias Baixas, nos primeiros dias de Dezembro, e a luta heróica dos marinheiros do sul contra o fuel, desbarataram essa táctica.
— A desvirtuação da mensagem de protesto: esta é sem dúvidas a táctica mais eficaz e que pior pode fazer à resposta social. Trata-se de socializar no conjunto da sociedade espanhola o lamento pela catástrofe, que é apresentada como um fruto do azar a que só se responde com atitudes de beneficiência e solidariedade devidamente publicitada pela imprensa. A imagem de um personagem tão lamentável como George Bush II pronunciando o apropriado lema mágico "Nunca Máis" é uma boa ilustração desta táctica.
As cidadãs e os cidadãos galegos já demostraram no passado recente que as palavras de Castelao fazem hoje menos sentido que outrora. Isso provaram as enormes mobilizações no outono de 2001 contra a Lei das Universidades, apenas um mês depois da quarta maioria absoluta do PP galego encabeçado pelo funesto ex-ministro franquista Manuel Fraga. Mas as manifestações do presente, apesar da sua radicalidade(2), enfrentam vários desafios. Por um lado, subsiste a dúvida de poderem ser uma resposta das e dos "convencidos", que se concentram nos sectores urbanos e nos sectores mais combativos dos marinheiros, em particular nas Rías Baixas. A crescente difusão das teses do governo, aquela a que Kissinger chamava "maioria silenciosa", parece apontar nesse sentido. Por outro lado, o governo não fez nem o mais pequeno gesto para dar resposta ao que a cidadania reclama: demissões, declaração de zona catastrófica, meios suficientes para a luta contra o fuel (reclamada pelos maiores patrões de Cofradías, ainda em greve de fome), adopção de medidas que impeçam a repetição da catástrofe. Para além disso, há que ter em conta que enfrentamos um governo habituado a lidar, politico-eleitoralmente, com moblizações que no momento presente só têm paralelo em Itália. Contudo, o maldito fuel e a inépcia do Governo PP conseguiram que as notícias sobra a ETA e o nacionalismo basco recuassem, neste longo mês e meio, nos alinhamentos televisivos e para as páginas interiores dos jornais. E isso veio trazer certamente um momento de alívio aos democratas deste país.
José Brandariz Garcia, membro de Galiza Alternativa e professor na Universidade da Corunha.
(1) N.do T.: Mancha de fuel. Nas manifestações, uma das palavras de ordem mais ouvidas era "O do bigote/que limpe o chapapote", referindo-se a Aznar.
(2) Radicalidade e extensão que superou em muito a dinãmica das lutas intestinas das organizações mais institucionalizadas. Embora não devamos criticar demasiado a atitude do nacionalismo "moderado" - BNG e CIG -, o PSOE e os seus sindicatos amigos - UGT e Comisiones Obreras - tiveram um triste papel, desmarcando-se injustificadamente, por razões de protagonismo, da plataforma "Nunca Máis", a principal impulsionadora das mobilizações. E o PSOE, em alguns governos locais como o da Corunha, apoiaram descaradamente os executivos PP: Traduzido por Luís Branco
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.