combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Uma experiência na greve

Jorge Costa · janeiro de 2003 · Jornal · 1.503 palavras

Precários · Combate, janeiro de 2003, edição em linha

Só trabalharam os contratados a prazo. A frase é típica de positivos balanços sindicais de paralisações em serviços públicos, por exemplo. Mas mesmo se o direito à greve está dado como perdido para uma geração que entrou na vida activa nos sectores mais afectados pela precarização do emprego, a greve geral de 10 de Dezembro foi um dia de ensaio para a luta contra a precariedade. Uma experiência importante ocorreu no centro de atendimento aos clientes da EDP, onde dezenas de precários desafiaram o seu próprio estatuto, num exemplo de dignidade.

Às sete da manhã, são precárias as certezas do piquete de greve. Sucederam-se dias de pressões constantes sobre os jovens, quase todos abaixo dos trinta, que atendem ao telefone os clientes da EDP, encaminhando os milhentos problemas que podem surgir a quem consome electricidade. A CRH presta serviços na área dos recursos humanos; na verdade, o pavilhão preto da Póvoa de Santo Adrião onde os turnos se enfileiram todos os dias do ano é dos mais antigos centros de atendimento (call-center) do país, sempre contratado pela EDP, chegando, ao fim de dez anos, a quatrocentos colaboradores. É portanto um serviço pioneiro em termos de relações de trabalho: os call-centers estiveram na primeira linha da aplicação de radicais políticas de flexibilidade na gestão de recursos humanos. A lei foi apenas um pequeno obstáculo inicial, certamente contornável: a CRH não penou nada para crescer como empresa de precários maratonistas, onde o contrato a termo incerto (previsto para substituições provisórias mas sem data) é a regra geral.

São certezas precárias que movem os que se vão juntando à porta da empresa, ainda o dia 10 não nasceu. O piquete de greve mal o é: alguns dos que querem não trabalhar ainda não decidiram e afirmam isso mesmo. Em dez anos, a CRH nunca parou o único piquete conhecido é o piquete de urgência, das reparações da EDP. De resto, ainda há poucas semanas seria impensável estarem ali, parados, à porta: a situação da empresa era então discutida em surdina, papéis colados na parede dos sanitários. Os boatos (que, com os e-mails de serviço, eram as únicas formas de informação na empresa) foram ganhando corpo e acabaram confirmados: metade dos cerca de noventa trabalhadores do apoio técnico ao atendimento (back-office), mantendo funções e local de trabalho, teriam contrato com uma nova empresa de trabalho temporário. Só mudaria o salário-base: menos 30%.

A história da organização dos precários da CRH começa então: duas reuniões em Novembro, pouco mais de vinte pessoas, organizadas pela associação STOPrecariedade e com a presença do sindicato das indústrias eléctricas (SIESI). A palavra circula: ninguém assina. Os trabalhadores do front-office (atendimento directo ao cliente) percebem que o que se passa no back-office os pode atingir. O copo transborda quando começa a circular na empresa um grupo de jovens, desempregados da Oniway, que a EDP utiliza para assustar os precários do back-office da CRH: É aqui que vocês vão trabalhar, diz um chefe aos jovens formandos on-job, não-remunerados, apontando os lugares onde se sentam os actuais trabalhadores. Mas a provocação sai pela culatra. O delegado sindical, recém designado, convoca um plenário para 2 de Dezembro. Cento e setenta trabalhadores, quase metade da força laboral da empresa, pronunciam-se pela adesão à greve geral de 10 de Dezembro. O que querem é a manutenção dos postos de trabalho e dos salários, e o fim da precariedade: se necessitam de nós permanentemente, queremos um contrato estável. Da CRH, só saem para a integração na EDP.

Arriscar para ganhar

Ao final da manhã da greve geral, já se podia celebrar um sucesso. No back-office, quase parado, a adesão passa os 80%. Alguns trabalhadores do front-office também estão no piquete, apesar da baixa adesão ali, mas a maioria dos grevistas ficou em casa. Não há dúvida: a actividade do call-center está definitivamente comprometida.

Mas a aposta não estava ganha à partida. Na quinta-feira anterior, três dias depois do plenário que decidiu a adesão à greve geral, a administração convocou o seu. Reunida com uma centena de trabalhadores depois da hora da saída, deu o mote do que seria o discurso martelado até à greve por toda a hierarquia da empresa: a escolha é vossa e as consequências também; para serem números da CGTP, arriscam-se a provocar o fim do contrato da EDP com a CRH e a perder o emprego; quem estiver de folga na quarta e faltar na terça da greve, não recebe os dois dias. Muitas cabeças mudaram à força do medo e todas se interrogavam sobre quem manteria afinal o compromisso. De emergência, na véspera da greve, procurou-se clarificar a situação: a chamada a um plenário, feita da manhã para a tarde, convidava todos, grevistas, não-grevistas e hesitantes a debater as razões e os actos, a tomar uma decisão unida: se devemos recuar, que o façamos todos juntos, explicava a convocatória. Os trinta que apareceram persistiram na greve. Este plenário da última hora foi o primeiro de alguns dos participantes, empurrados para a luta pela indignação face às ameaças dos chefes e do plenário patronal. No dia seguinte, era preciso estar na CRH antes da hora habitual. E assim foi.

Todas as outras garrafas estão por abrir

A maior parte dos trabalhadores - ou melhor, das trabalhadoras, que são maioritárias na CRH passam todo o seu tempo ao telefone. Separadas em filas, com o equipamento à frente em cadência infernal, conversas vigiadas pelas chefias, os e as colegas mal se conhecem. Pelo nome, poucos se tratam. E no piquete de greve não é diferente. De manhã, lado-a-lado, muitos demoram a quebrar o gelo com aqueles com quem partilham o pavilhão de trabalho diariamente, durante meses ou anos.

O objectivo de quem atende, além de resolver problemas, é corresponder às exigências de velocidade das chefias e das avaliações que ditam prémios financeiros relevantes. Mesmo assim sobram chamadas: não poucas vezes, o cliente em apuros não chega à linha, saturada pela escassez de operadores no call-center. Nos auscultadores, depois da sua identificação maquinal, os operadores encontram vozes impessoais, excêntricas, agressivas, assustadas. Nunca ninguém ligou a dizer que está tudo bem. Sobretudo, ouve-se muita gente, gente em catadupa. E se quem atende termina uma chamada em crise de nervos, tem cinco segundos até à entrada em linha de mais um cliente. Também os do back-office, que não atendem o público, vivem ao telefone. Tratam pelo nome os colegas que respondem diariamente do Centro Técnico da EDP, em Setúbal. Sabem quando eles estão doentes e quando ficam melhores, do nascimento de um filho ou das preferências clubísticas. Hoje, estas vozes ganharam figuras os colegas de Setúbal, filiados num sindicato da UGT que aderiu à greve geral, conhecedores naturais da situação na CRH, ou não fosse permanente o contacto com o back-office, vieram demonstrar solidariedade com os jovens da Póvoa de Santo Adrião. Você é que é o colega João? Não o imaginava nada assim!. Têm mais vinte anos que a média dos trabalhadores da CRH, mas também uma carreira na EDP, contrato colectivo, salário digno e organização sindical. Poderiam parecer enviados de outro planeta, mas partilham os problemas diários da mesma empresa, a EDP. O que os separa são duas décadas de precarização do emprego em Portugal.

Um piquete para ficar

O piquete que espera o turno da tarde está irreconhecível. A percepção de que se bloqueou o funcionamento do back-office, a noção da confiança mútua a crescer no piquete em contraste com a atitude cabisbaixa de cada um que fez da greve um dia como os outros, o balanço informal de milhares de dias de submissão e o sentimento de se serem, por uma vez, no trabalho, sujeitos de alguma coisa - tudo transformou a atitude dos piqueteiros. Uma trabalhadora tirou do saco uma garrafa de vinho do porto que comprara no seu aniversário e que as chefias impediram que abrisse na empresa com as colegas. Todos brindaram em copinhos de plástico, a si mesmos, antes das quatro, hora de entrada do primeiro turno da tarde. Então, em vez da sinalização da manhã - colega, estamos em greve - os grevistas fizeram do piquete a sua festa. Procuraram convencer cada um e cada uma, explicaram que a greve é um direito e uma necessidade, que a falta é justificada e que quantos mais fizerem, mais podem fazer. Tornaram o autocolante vermelho no emblema dos corajosos que, depois da lavagem ao cérebro de quinta-feira, decidiram pensar por si. E cada sim foi premiado com a salva de palmas do piquete. Foi assim que uma trabalhadora-estudante, chamada pela mensagem escrita do irmão, também colega na CRH - vem trabalhar - e vendo entrar a colega que a acompanhava, decidiu ficar. E muitos outros fizeram o mesmo. O delegado sindical, com o peso de uma noite sem dormir, passada no hospital com a esposa grávida, confessava sentir-se como se tivesse dormido doze horas. De manhã, devíamos ter feito o piquete assim, diziam outras. Estranha-se a falta de vontade de ir para casa: é que a CRH já vive no pós-greve.

Jorge Costa

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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