Uma corrente para reforçar o Bloco
Editorial · Combate, janeiro de 2003, edição em linha
Jornal2003É já no próximo mês que tem lugar o XIIIº Congresso do PSR, o segundo desde que surgiu o Bloco de Esquerda. O debate interno começou em meados de Outubro e centrou-se na apreciação do momento político nacional e internacional. Neste último destaca-se a análise da recessão económica, a globalização, o impasse da construção europeia, a ameaça da guerra contra o Iraque e os focos de resistência ao projecto neo-liberal - como a expectativa criada pela vitória de Lula no Brasil, cujo desempenho a esquerda em todo o mundo vai seguir com atenção. Quanto à situação política nacional, o projecto de resolução em debate traça uma caracterização do projecto conservador-liberal de que o governo PSD-PP é porta-voz e que substitui o modelo de crescimento extensivo dos últimos 20 anos. Ao combater a recessão com mais recessão, os novos quadros içados ao poder pela coligação - e que em muitos casos vieram dos mesmos grupos económicos cuja área de negócios hoje tutelam - querem precarizar as relações de trabalho, aprofundar a escravização dos imigrantes e marginalizar a influência sindical.
Para este projecto de resolução a apresentar às e aos delegados no Congresso, a construção de uma alternativa de esquerda ao governo deve ter em conta as lições do passado, nomeadamente "os seis anos de governo do PS [que] foram os anos dourados da sua conversão ao liberalismo". E deve naturalmente contar com o Bloco de Esquerda como força de diálogo à esquerda para organizar a resistência e prosseguir a transformação do mapa político. É necessário um contrato para a mudança a dirigir ao conjunto da oposição e ele pode assentar nestes três eixos: luta pelo emprego e redistribuição do rendimento (justiça fiscal e participação popular, combatendo desde já as privatizações na saúde e segurança social, para além do código do trabalho); luta pela democracia e contra a exclusão baseada no género, etnia, origem nacional, orientação sexual, idade ou religião; luta pela extensão dos direitos humanos fundamentais: informação, educação, saúde, habitação e paz, consubstanciada no plano imediato pelo impulsionar de um movimento unitário por um novo referendo pela despenalização do aborto a pedido da mulher.
Outro dos debates em curso já vem do congresso anterior e tem a ver com a organização e o lugar do partido. Com o nascimento do Bloco, a autonomia política de acção do PSR ficou obviamente limitada, deixando de participar em eleições e de intervir enquanto partido político publicamente de forma continuada. Ou seja, com a dinâmica de crescimento do Bloco de Esquerda, podemos afirmar que o PSR já não é um partido, no sentido político do termo, mas sim uma corrente política que intervém, junto com outras, nesse movimento mais alargado que é o Bloco. Uma corrente revolucionária, jovem e que procura sempre reforçar o Bloco, mantendo os seus espaços próprios de encontro, debate e reflexão (vd. Escola de Formação em Março) e de referência política, como este COMBATE.
Luís Branco
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.