Índia: Tanto o Laranja Açafrão como o Verde Pertencem à Bandeira (I)
Combate, novembro e dezembro de 2002, edição em linha
Jornal2002Inês FonsecaO ano de 2002, na India, foi marcado pela ocorrência de motins perpretados de forma sistemática entre hindus e muçulmanos. O motivo óbvio apresentado é, invariavelmente, o conflito e o ódio naturais entre comunidades religiosas diferentes. Muitos outros factores, entre os quais os económicos e políticos, são esquecidos na descrição deste quadro. Contudo, alguns partidos de esquerda e organizações defensoras dos direitos humanos resistem e lutam contra a imposição da ideologia comunalista e o domínio do hinduísmo (maioritário) na sociedade indiana.
Ao longo dos próximos meses, publicaremos textos sobre a actualidade política indiana. O primeiro é uma análise da situação política e social do país e da posição do Inquilabi Communist Sangathan (ICS, secção indiana da IV™ Internacional) no processo eleitoral (ao qual não concorre).
A Assembleia de Gujarat foi dissolvida em Outubro e foram marcadas eleições para 12 de Dezembro, pelo chefe do governo estadual, num aproveitamento político dos motins ocorridos. Desde a primeira hora, o ICS tem vindo a realizar trabalho junto das comunidades vítimas dos motins, na consciencialização contra o comunalismo.
Inês Fonseca
Ontem à noite ligou-me uma amiga, de Baroda. Chorando. Foram precisos 15 minutos para poder dizer-me o que se tinha passado. Não era nada de muito complicado.
Apenas que Sayeda, uma amiga dela, fora apanhada pela multidão. Apenas que o seu estômago fora rasgado e cheio com trapos a arder. Apenas que depois de ela ter morrido, alguém esculpiu «OM» na sua testa.
Exactamente, qual é a escritura Hindu que prega isto?
O nosso primeiro-ministro justificou os acontecimentos como uma retaliação dos Hindus contra os terroristas Muçulmanos que queimaram vivos 58 passageiros Hindus do Sabarmati Express em Godhra. Cada um dos que teve aquela morte horrível era irmão de alguém, mãe de alguém, filho de alguém. Claro que eram.
Qual é, concretamente, o verso do Corão que exige que eles fossem assados vivos?
Arundhati Roy,"Democracy: who’s she when she’s at home?", Outlook India, 6 Maio2002
Gujarat A violência religiosa como arma política
(...) Esta eleição ocorre depois de termos assistido ao fascismo na sua forma nua e crua. Para lutar contra o fascismo devemos ter presentes dois aspectos. Primeiro, devemos delinear uma estratégia depois de termos obtido um claro entendimento do fenómeno. Depois, devemos observar qual o comportamento do Nationalist Congress Party (NCP), enquanto poder, durante os motins e as tensões entre comunidades religiosas ou no momento das decisões que propiciam as políticas comunalistas, jogando no campo do comunalismo-light. (...)
Algumas das forças de esquerda identificam o fascismo como o aspecto mais reaccionário do imperialismo. Daí, duas conclusões podem ser retiradas. Primeira, o fascismo é uma criação do imperialismo. Segunda, o capitalismo está ao serviço de um segmento mais ou menos bem identificado do imperialismo, de modo que os oponentes desse sector são confundidos com a aliança anti-fascista ("quem não está por nós está contra nós").
Muitos estão mesmo contra a violência e crêem que o BJP não deve chegar ao poder a qualquer custo. Mas não encontram alternativa política suficientemente poderosa a não ser o NCP. Por isso, teremos de examinar o passado e o presente do Congress Party.
Em 1947, quando os motins comunalistas estavam a acontecer, houve acusações ao primeiro-ministro de dirigir os ataques a áreas residenciais muçulmanas, em Godhra. (...) Depois dos maiores motins durante a partição, a frequência dos motins comunalistas aumentou desde 1971. E as perdas sofridas pelos Muçulmanos (no que respeita às pessoas mortas) tem vindo a aumentar de 63.11% em 1971 para 74.13% em 1980. E todos estes anos era o Congress Party que estava no poder. Esta tendência mantêm-se e em 2002 alcançou entre 90 a 95%.
Isto mostra a contínua comunalização da sociedade incluindo o aparelho de estado e é este fenómeno que torna os hindus maiores vítimas da propaganda. Afinal de contas, sendo a maioria, todos os partidos tomam o seu lado de um ou outra forma, para assegurar os seus votos. Durante os motins de Bombaim, em 1984, a polícia trabalhou lado a lado com Shivsainiks. E mesmo depois de serem apresentadas provas disso a Indira Gandhi, ela apenas encolheu os ombros. O chefe do governo Vasantada Patil, também colaborou por "actos de omissão", ao não tomar medidas contra Bal Thackeray pelos seus discursos comunalistas, ao permitir a procissão de Shiv Jayanti que estava banida desde 1970. A sequência dos eventos durante o massacre de Ansari Bang corrobora esta cumplicidade, ao adiar a intervenção do exército colaborou com os causadores do motim. E 1 mês após os incidentes, o mesmo chefe do governo juntou-se a Thackeray para as eleições legislativas. O NCP é conhecido por fazer acordos com o BJP em Bengala ocidental e, recentemente, até com Shiv Sena em Maharashtra. (...)
Enquanto os factores económicos forem usados para tornar as pessoas hostis ao outro que lhes é apresentado, as forças divisoras irão ganhar terreno, na ausência de forças de esquerda progressistas que utilizem as condições económicas para organizar as pessoas em torno das suas reivindicações.
Estaremos, então, argumentando que o BJP deve ser mantido no poder? Com certeza, não defendemos tal argumento. Apensas dizemos que a guerra de lugares e vantagens pessoais é uma guerra em que os trabalhadores não devem consentir tornar-se a sustentação para um dos lados da contenda.
Uma frente unida contra o fascismo implica um acordo entre os partidos da classe operária, apesar de todas as diferenças, para que lutem juntos contra os fascistas, contra os seus ataques, em defesa dos direitos da democracia, sem quaisquer concessões a qualquer dos partidos capitalistas. (...)
Comunicado do ICS-Gujarat
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.