combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Israel no banco dos réus

outubro de 2003 · Jornal · 633 palavras

Julgamento de Barghuti · Combate, outubro de 2003, edição em linha

Marwan Barhguti, o mais popular dirigente da Intifada, fez em 30 de Setembro o seu discurso final perante o tribunal israelita que está a julgá-lo. A audiência constituiu um acontecimento de impacto internacional, minuciosamente relatado no diário norte-americano "New York Times".

O delegado do Ministério Público pediu a prisão perpétua. O tribunal, por seu lado, anunciou que iria estudar o pedido e emitir uma decisão no começo de Novembro. O réu, mais uma vez, não teve papas na língua e comentou sarcasticamente que era muita demora para anunciar uma decisão já tomada. Barghuti troçou da ameaça de prisão perpétua e profetizou que em breve estará em liberdade, ao abrigo de uma troca de prisioneiros, como aquela que o Estado israelita tem vindo a realizar com o movimento libanês Hezbollah.

Quanto ao fundo da acusação, que o aponta como organizador de mortíferos atentados anti-israelitas, o dirigente palestiniano lembrou que se opõe a "matar pessoas inocentes" mas que "temos de combater a ocupação israelita nos territórios. Queremos liberdade e um Estado, tal como os israelitas". Barghuti sublinhou também que "passaram três anos e espero que os israelitas tenham aprendido que o povo palestiniano não pode ser subjugado pela força".

Ao descrever com vivacidade o regime de ocupação, o dirigente emblemático da Intifada ainda encontrou forma de ridicularizar a força bruta do ocupante. O público presente no julgamento pôde rir com gosto, quando Barghuti contou que há tantas grávidas impedidas de passar pelos checkpoints, a caminho dos hospitais, que cada vez se encontra mais crianças palestinianas com o nome de "Machsom" (o equivalente de checkpoint em hebreu).

A tónica da defesa política de Barghuti foi, com assinalável coerência, a luta contra a ocupação e a exigência de um regresso às fronteiras de 1967, para que aí se possa criar um Estado palestiniano. A certa altura, o juiz israelita chamou-o à ordem e intimou-o a calar as considerações históricas mais amplas porque, afirmou, "se estivesse na nossa mão, decretaríamos a paz". A resposta do réu foi uma pergunta fulminante: "Então porque é que você não se levanta e diz: ‘Estou contra a ocupação?’".

Barghuti reafirmou ainda um facto elementar: "nós [os palestinianos] não somos turistas neste país. Vivemos aqui há milhares de anos e continuaremos a viver". E, logo em seguida, com a mão estendida ao inimigo: "Há aqui lugar para ambos [os povos]". O dirigente palestiniano, considerado um dos principais arquitectos dos Acordos de Oslo, é, sem dúvida, partidário de uma solução de dois Estados no território da Palestina histórica. Foi isso que defendeu com uma coragem a toda a prova durante o julgamento, sob a pressão duma claque de fanáticos sionistas que pediam o seu linchamento e de carcereiros que chegaram a agredi-lo em plena audiência.

Mas ele é também suficientemente lúcido para reconhecer o impasse em que desembocou a política de Oslo. Para o tipo de entendimento que defende, são precisas duas partes, e as duas têm de admitir que "há lugar para ambos". Por isso mesmo, advertiu que a ostracização de Arafat só pode redundar numa crescente radicalidade da liderança palestiniana: "se não Arafat, Yassin, se não Yassin, Rantisi [ambos dirigentes do Hamas], se não Rantisi, então Barghuti". Do mesmo modo, o boicote israelita à criação de um Estado palestiniano só pode levar à criação de "um Estado para dois povos", em que os palestinianos acabarão por ser maioria, com ou sem direito de retorno para os desterrados. Esta não tem sido, não é ainda, talvez não venha a ser nunca, a solução preferida pelo dirigente preso. Mas é uma outra solução, que ocupou um lugar por direito próprio no seu discurso admirável.

As questões mais candentes da revolução palestiniana espelham-se na busca dramática de orientação que Barghuti protagoniza, na cadeia e na sua tribuna de enérgica acusação contra o sionismo.

António Louçã

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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