combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Vitória no call-center

outubro de 2003 · Jornal · 634 palavras

Precariedade · Combate, outubro de 2003, edição em linha

O centro de atendimento telefónico a clientes da EDP era um antro de precariedade. Durante uma década, a regra contratual no call center era o termo incerto, reservado pela lei a trabalhadores que tomassem o lugar de outros ausentes por período indeterminável (por doença, sobretudo). Na CRH, empresa que presta serviço de atendimento telefónico à EDP, a maior parte dos trabalhadores eram contratados a termo. O resto do cenário era o habitual nas empresas de grande precariedade: nunca se vira uma greve, nem um plenário de trabalhadores; os sindicalizados contavam-se pelos dedos de uma mão.

O colectivo STOPrecariedade (que junta precários de diversas proveniências, sobretudo call-centers) iniciou uma campanha de propaganda, a partir do diálogo com um activista da casa que a dotou de reivindicações. A saber: condições de trabalho (iluminação adequada, local e tempo para pausas, redução das cadências infernais) e fim da precariedade, com a assinatura de contratos permanentes que correspondessem à permanência da prestação da CRH à EDP. Em Outubro de 2002, acende-se a faísca, uma tentativa patronal de aprofundar a precariedade na empresa, através da reformulação dos contratos de um primeiro grupo de 40 trabalhadores, implicando perdas de 30% de salário. Na resposta, facilitada pelos contactos e pelas interrogações colocadas pela propaganda do STOPrecariedade, sucessivas reuniões (para as quais começou a ser chamado o sindicato) e vários comunicados permitiram que nenhum trabalhador assinasse os novos contratos-lixo. Em Dezembro, em instalações próximas da CRH, juntaram-se 170 operadores do call-center. O plenário aprovou a adesão à greve geral de 10 de Dezembro e, apesar das pressões colectivas e individuais, vindas da administração e da cadeia de comando, a paralisação realizou-se com boas adesões (90% no apoio técnico e cerca de 50% no atendimento directo).

A experiência da greve, que o COMBATE registou na edição de Janeiro passado, permitiu consolidar um núcleo duro de trabalhadores que, apesar de presenteados com as tarefas mais penosas no call center, deram sequência à luta, aprofundando a ligação ao Sindicato das Indústrias Eléctricas (SIESI) e, através dele, produzindo uma queixa à Inspecção-Geral do Trabalho. A inspecção que se seguiu produziu um relatório em Junho, e deixou claro que a actividade de atendimento de pessoas em contacto é, pois, quer actividade social, quer actividade corrente da CRH, não se justificando nos termos da lei tais vínculos precários. Os contratos são declarados nulos e, em Setembro, a CRH é obrigada a iniciar a transformação de 223 contratos a termo incerto em contratos permanentes, mantendo o tempo de serviço.

Hoje, as condições de trabalho na CRH são piores do que há um ano. Foram cortadas pausas, intensificou-se a vigilância sobre os ritmos do atendimento e condicionou-se ainda mais as idas à casa-de-banho. Os salários não acompanharam a inflação e a pressão é enorme, como atesta o recurso continuado a tranquilizantes por um grande número de trabalhadores. Já se sabia: só por si, o fim da precariedade não muda a organização do trabalho baseada na sobrecarga constante dos operadores.

Há então razões para celebrar? Sim: a principal força do patrão até agora foi a constante ameaça de represálias a começar pelo despedimento. Os contratos a termo incerto eram a melhor garantia de que, face às ameaças, os operadores do call center comiam e calavam- muitos dos que furaram a greve há um ano fizeram-no tomados pelo medo.

Hoje, esse medo já não é razão para não protestar. Pelo contrário, com contratos permanentes, os trabalhadores estão muito mais protegidos para partir à conquista de condições de trabalho e para acabar com os ritmos alucinantes que afectam a sua saúde. Para melhorar a vida, podem usar o que aprenderam na greve de 10 de Dezembro do ano passado, que deu voz aos trabalhadores e pressionou a IGT a decidir. Na CRH, a hora é de luta: a luta é que compensa.

Jorge Costa

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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