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Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

João Cabral Fernandes: "O fundamental para qualquer acção política é o programa

outubro de 2003 · Jornal · 2.461 palavras

Entrevista · Combate, outubro de 2003, edição em linha

Conta-nos um pouco como foi a tua entrada na actividade política. Como foi a tua participação na vida académica de Coimbra nesta altura de meados da década de ´60?

Entrei para a política em 1966, 67 e andava na Faculdade de Medicina de Coimbra. O existencialismo marcou-me profundamente. Lembro-me que no segundo ano da faculdade para mim a democracia, a forma de democracia, tinha de ser cientifica. Criamos umas normas para a eleição de Delegado de Curso inspiradas no Moreno e K. Lewin. E esta proposta ganhou, foram umas eleições em que fica claro quais eram os melhores candidatos.

Eu estive fora na crise académica de 65, que não teve a dimensão de 62, mas que levou ao afastamento de Barros Moura e ao encerramento da associação académica. Aquilo não durou muito. Nestes movimentos foi muito importante para mim o descobrimento de uma alternativa ao estalinismo, uma prática anti-estalinista, o por em questão um conjunto de coisas que não se podiam discutir. Nunca aceitei o socialismo sem liberdade.

Como é que entras em contacto com uma visão do mundo, a trotskista, numa altura em que é fácil calcular a dificuldade de defender pontos de vista em confronto com os do PCP?

A crítica aos países de Leste teve uma importância muito grande no meu percurso. Nunca achei que a Revolução Húngara de 1956 fosse uma revolução de direita. E o mesmo em relação aos acontecimentos de Berlim Oriental de 1953.

É nesta altura das lutas estudantis que descubro a grande coerência de pensamento de Trotski, e me identifico com a sua figura de perseguido. Foi em 67, mais ou menos, que o José Manuel Viegas me emprestou o Programa da Oposição de Esquerda, entre outros, e também algumas obras de Deutscher. Foi uma verdadeira paixão de juventude. Atraiu-me do pensamento de Trotski a sua amplidão. Tratava de questões militares, da arte, da burocracia, da degenerescência dos regimes políticos, do internacionalismo, dos fundamentos da igualdade e do socialismo.

Isto prende-se com o papel do indivíduo, eu sempre dei muita importância à liberdade. A trilogia da Revolução Francesa não pode ficar de fora do programa da revolução actual. A liberdade deve estar ligada aos problemas de organização económica, social, etc.

Como era a vida política na Academia de Coimbra, e como surge - e em que ideias assenta - uma acção alternativa a acção feita até esse momento?

Na altura a força política dominante na Academia era o PC com Barros Moura. Havia uma série de pessoas com posições mais social-democratas no Conselho das Repúblicas. E começa a formar-se uma tendência contestatária com pessoas mais viradas para o trotskismo ou para ideias como as da Internacional Situacionista, é uma tendência muito crítica em relação às outras duas. Criticávamos ao PC a sua sujeição às questões propriamente associativas, numa visão meramente sindical. Eles não faziam agitação política sobre os grandes temas, sobre a guerra colonial. Nos pretendíamos um movimento estudantil solidário com as lutas dos trabalhadores, contra a guerra colonial e fazendo parte da revolta estudantil a nível mundial.

Que significado vai ter a crise académica de 69? Como se afirma nesse quadro uma via mais radical na luta estudantil?

Em 1969 põe-se em causa a estrutura e a falta de democracia na universidade. Falar em rejeição da guerra colonial é pura fantasia. Criticava-se os problemas de acesso, o autoritarismo dos professores... Para nós o importante era saber porque nós éramos médicos ou engenheiros e qual ia ser o nosso papel na sociedade. E a crise de 69 chega a um beco sem saída, porque há mobilização sem politização. Nos pensávamos que era preciso ir mais longe, queríamos pensar o mundo à nossa volta. E assim criamos, quando ainda não existia uma faculdade de economia, um centro de estudos socio-económicos na AAC. Queríamos dar informação sobre o que era a guerra colonial, o imperialismo, as lutas no Terceiro Mundo, num quadro internacional.

E como agem em relação a essa problemática toda?

Publicamos alguns textos sobre estas questões. Tudo isto levantara, é claro, bastante polémica, porque não se compreendia porque é que estudantes que eram de economia tratavam destes assuntos. Mas isto era muito importante, para poder orientar a luta dos estudantes à população. Tinha-se ido à baixa de Coimbra oferecer flores às pessoas, mas isso não bastava. Era preciso formas de luta mais radicais. Dar conteúdo e formas diferentes a luta estudantil.

Com o afastamento dos 49 dirigentes da AAC o movimento estudantil ficou decepado, sem cabeça. Isto criou uma situação em que era sentida a necessidade de avançar. Tomou-se conhecimento da luta dos estudantes alemães, do Maio de 68. Sabíamos das reivindicações do Movimento 22 de Março, das ocupações de Nanterre. E tomamos conhecimento da palavra "contestatário". Quem não alinhava com o PC nem com os moderados era "contesta". Era um grupo marginal se se quiser, mas foi a partir daqui que surgiu a base para criar uma organização alternativa, que rompesse com as práticas até ai assumidas. Começamos a publicar textos de Trotski em multicopista, como o Programa de Transição. As Faculdades de Letras, Ciências e Medicina eram verdadeiros bastiões da contestação. Fizemos autênticos cursos livres nestas faculdades. Em medicina discutíamos sobre o significado do nosso estudo, se era uma profissão ou um negócio. Desta crítica e desta actividade surgiu a base de uma organização trotskista em Portugal.

Portanto nessa altura já estavam cientes duma situação internacional complexa, e da radicalização dos movimentos estudantis no mundo. Pensas que isso tem uma influência na vossa acção em Coimbra?

De 1969 até 71 temos um período de ascenso das lutas a nível mundial. Quando, em Setembro de 69, os 49 dirigentes da AAC receberam guias de marcha e foram mobilizados para exemplo, houve uma assembleia em que se cantou a internacional.. Isto não é lembrado por ninguém, mas parece-me algo de muito significativo do momento que se vivia. E durante a luta, quando da inauguração do edifício de matemática, quando Alberto Martins foi impedido de falar, os dignatários do regime, generais, almirantes, bispos, foram enxofrados, levaram com todos os nomes em cima. Questionávamos àqueles militares sobre o sentido daquelas medalhas que traziam ao peito. Depois disso, de dizer nomes que não repetiria hoje, sentíamo-nos como se tivéssemos feito qualquer coisa épica. E foi algo de completamente espontâneo. Ninguém tem ligado a estes aspectos.

Mas em que medida o ensino superior português vive, nesses anos, os problemas que afectam as universidades, por exemplo, da França?

A universidade tinha nesta altura certos problemas de massificação. Coimbra tinha cinco a seis mil alunos, e começava a romper-se aquela forma de vida provinciana, de que toda a gente sabia do que fazia toda a gente. Nos criticamos aquela moral falsa, e o corporativismo e os privilégios que existiam dentro dos cursos. Criticávamos não só a falta de democracia como os próprios conteúdos dos cursos, numa perspectiva crítica do conjunto da sociedade. Por exemplo, o haver mais médicos do que enfermeiros só podia, e pode, ser entendido tendo em conta o atraso do país.

Na história da LCI existe o antecedente dos Grupos de Acção Comunista, que fazem um trabalho político no início da década de 70. Podes falar disso, e de como se dá o salto da intervenção na Universidade para uma acção mais abrangente?

Os GAC surgem em 1971, na base da luta estudantil e contra a guerra colonial, e também no desenvolvimento de acções de apoio às lutas dos trabalhadores. O GAC do Porto surge de algumas faculdades, a partir do trabalho do Heitor de Sousa e do Francisco Sardo. O Sardo era um coimbrão que faz a ligação ao Porto. Eu vou para Lisboa e faço entrismo num grupo trotskista ligado à tendência de Gerry Healy. Um dos elementos deste grupo era o Luís Zuzarte, ao qual se juntam depois os liceais do D. Pedro V e do P. António Vieira. Quando o 25 de Abril se deu, nos éramos um grupo de fedelhos, de fedelhos mesmo, sem tradição nenhuma que tinha a ousadia de por em causa os conceitos existentes, toda a história e os mártires do PCP como valores obsoletos em si mesmo. Isto num país onde não existia uma cultura operária anti-estalinista democrática e unitária, como existe na França. Mas tínhamos uma orientação muito abrangente que nos permitia trabalhar em conjunto com gente do PC, com gente que depois viria a criar o MES. Fizemos acções de rua contra a guerra colonial na Graça e em Benfica, e na Cova da Piedade, nesta base de colaboração com pessoas de outras tendências.

Como se faz a ligação destes grupos à IV Internacional? E qual é o atractivo desta tendência, num quadro onde existiam outras correntes de extrema esquerda poderosas, tanto trotskistas como de tendência m-l?

A ligação a IV Internacional surge nas viagens feitas à França. Eu fiz uma com a intenção de contactar as três principais tendências trotskistas: a do Secretariado Unificado, a OCI e a Lutte Ouvrière. Com esta última não consegui contactar. Em relação à OCI (tendência Lambert) que tinha uma organização juvenil lembro-me dum recebimento cheio de "charme", com champanhe e tudo! Não gostei muito daquilo, embora tenha aproveitado para beber o champanhe. O primeiro contacto com a LCR foi feito na viagem do Francisco Sardo, que assistiu a um comício de solidariedade com o Vietname. Atraia-nos a teoria dos três sectores da revolução: a revolução colonial, os países desenvolvidos e os países do Leste. Nesta altura desenvolviam-se grandes lutas operárias na Polónia contra o totalitarismo estalinista. Mais tarde o golpe de Pinochet no Chile foi mais um motivo de discussão, onde se defrontavam uma visão reformista e outra revolucionária daqueles acontecimentos.

Atraiu-me na IV Internacional a superioridade teórica e prática, que se baseava no legado de uma tradição que estava presente, e que estava em contacto com a criatividade dos movimentos estudantis do momento. A capacidade de realização de acções unitárias, como por exemplo as de apoio à luta do Vietname, também foi algo de muito interessante.

A trinta anos de distância, quais são na tua opinião as marcas distintivas da LCI e da corrente trotskista face à restante esquerda revolucionária que se desenvolveu na altura? Qual é para ti a maior contribuição do trotskismo para uma esquerda revolucionária em Portugal?

A LCI criou-se na luta contra o fascismo, unindo a teoria à prática. Na frente estudantil, que vai ser o campo de acção preferencial nesta fase, a falta de uma tradição faz que perante a UEC, e perante o MRPP e outros grupos, a LCI adquira um aspecto um tanto esotérico, dando grande importância à teoria e à discussão interna. Isso acabou por ser uma vantagem posteriormente, permitindo que as decisões fossem tomadas após debates muito abertos. Aquando do II Congresso da LCI em 1975, que decide a integração da Liga na FUP/FUR, formam-se quatro tendências e são apresentados 46 textos para a discussão! Creio que isto é algo muito importante mesmo hoje, a garantia da democracia interna e a tomada de decisões em conjunto, após o confronto de perspectivas diversas.

De qualquer maneira o grupo principal da LCI no seu início estava em Coimbra, era um grupo não abertamente trotskista na sua origem mas radical, e mais contestatário se quisermos. Depois o grupo estende-se para o Porto e Lisboa, colaborando com outros grupos e tendências, e crescendo com a adesão de mais pessoas depois do 25 de Abril.

Achas que o esforço feito valeu a pena?

A nível individual acho que valeu a pena, porque lutar por valores como os que defendíamos é sempre importante. Aliás, e creio que isto faz uma diferença importante com outros grupos de matriz estalinista, penso que nós dávamos muita importância ao indivíduo, à pessoa, à capacidade de reflexão. Isto hoje é de uma importância extrema.

Quais são as tarefas duma esquerda que pretenda transformar o mundo nos nossos dias? Como é que alguém que há trinta anos tinha uma intervenção política vê o mundo neste início de século?

Eu penso que ainda não ultrapassamos a barbárie do estalinismo, do "universo concentracionário", e ainda estamos a pagar as consequências. E se não formos capazes de criticar isso, de termos uma visão clara do que é uma forma de sociedade alternativa, vamos ser uma presa fácil para os críticos da direita. Eu creio que estamos a perder muito tempo nisso, e é algo essencial para poder criar uma alternativa hoje.

O que é que representa hoje a ocupação americana do Iraque? O que é que representa o governo Durão Barroso? O que é que representa o PS? Penso que o fundamental para qualquer acção política é o programa, o projecto de sociedade que se defende. E tão importante como o programa genético de uma pessoa, sem ele não somos capazes de evoluir e de nos transformar. Este programa hoje tem de ter características que antes não tinha. Ser de esquerda em 2003 significa defender transportes públicos, cidades saudáveis, liberdades individuais mais profundas sem chocar com os direitos do colectivo.

Em trinta anos o mundo mudou muito, penso que ninguém tem dúvidas em relação a isso. Não pensas que movimentos como o Maio de ‘68 ou o 25 de Abril são acontecimentos que não se vão repetir facilmente? Até que ponto trinta anos e uma contra-revolução não mudam uma pessoa?

Estou particularmente esperançado com o que possa vir a acontecer em França, onde existe um grande descontentamento social e uma experiência recente de contestação, e onde existe um movimento político que eu conheço desde há muitos anos. Penso que podem vir a acontecer coisas muito importantes lá.

Há anos existiam todas aquelas anedotas sobre a evolução política das pessoas, quanto mais se envelhece mais se vira à direita. Eu acho que com o tempo nos tornamos mais exigentes, procuram-se respostas mais fundamentadas, as coisas não são nem preto nem branco. A esquerda tem que ser elegante e requintada, forte, para ser uma boa esquerda. Por exemplo, mesmo que hoje não tenha uma militância activa continuo a combater por valores que para mim são universais: o rigor, o primado da ciência e da técnica e a plena igualdade de direitos.

A ideia de que a juventude de hoje não tem valores é uma ideia falsa, tem outros mas são diferentes e não conseguimos descobri-los.

Hoje o PSR, que é herdeiro da LCI, é parte integrante do Bloco de Esquerda. Como avalias essa integração e o papel do BE na vida política?

Acho que valeu a pena. O BE nasce do luto feito pelo desfasamento e fragmentação da esquerda, e a partir daí é preciso elaborar um programa e alternativas. Creio que isso é um passo em frente. E que isto venha daquele grupo de fedelhos é muito aliciante. Sempre somos filhos de alguma coisa, não é?

Entrevista de Miguel Pérez e Heitor de Sousa

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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