Entre radicalização e institucionalização
Fórum social europeu · Combate, outubro de 2003, edição em linha
Jornal2003Um ano após Florença, é a vez de Paris receber o Fórum Social Europeu (FSE), de 13 a 15 de Novembro (12 a 16, se contarmos, respectivamente, com a Assembleia das Mulheres e com a Assembleia dos Movimentos Sociais. São aguardados entre 40 e 60 mil participantes no maior evento em solo europeu visando debater as respostas à ofensiva neoliberal. Isto, à porta de um ano-chave em que os governos europeus tentam impor uma Constituição não sufragada ou resultado de uma Constituinte, que mais não é que a institucionalização dos ataques sociais das últimas décadas.
O FSE é, assim, uma oportunidade única para reforçar à escala local e internacional os movimentos que se opõem às políticas neoliberais e à guerra, transformada em recurso político permanente. Se Florença 2002 foi já um marco para a formação de redes europeias, muitas das quais estão hoje activas na preparação de Paris, o programa deste ano demonstra um alargamento dos movimentos envolvidos.
Estão previstas 56 conferências (ver caixa), em torno de cinco eixos. A estas, juntam-se discussões de questões estratégicas (como o debate partidos/movimentos) ou assuntos geralmente subestimados (como a discriminação d@s (d)eficientes) e, combatendo a tendência eurocentrista do Fórum, "janelas sobre o mundo". A grande vantagem do FSE, é permitir respostas à escala internacional, estreitar relações entre movimentos de temáticas distintas e até mesmo, por vezes, por falta de debate e reflexão mútua, conflituosas. É demonstrar a ligação necessária entre os vários temas, as várias propostas de transformação do mundo, como elas se integram e se tocam, e como não há forma eficaz de resistir ao neoliberalismo que não passe por esta união, por esta visão global, por agendas que integrem a diversidade de lutas por igual. E por uma perspectiva anti-capitalista, acrescentamos nós.
Esta potencialidade terá, nestes dias, a sua maior expressão na manifestação prevista para 15 de Novembro (domingo), cujo figurino não está ainda determinado, mas tende para uma grande manifestação que conjugue o conjunto dos movimentos por uma Europa social e democrática dos trabalhadores e dos povos, pela defesa dos serviços públicos, da segurança social e das reformas, contra todas as discriminações, contra a guerra e uma Europa guerreira, contra a mercantilização de todos os aspectos da vida humana e contra a destruição do planeta.
É da Assembleia dos Movimentos Sociais (AMS) que reunirá dia 16, já depois de terminado o FSE, que sairão quaisquer decisões relativas às próximas mobilizações europeias e mundiais (é de recordar que foi a AMS de Florença que lançou o apelo da jornada anti-guerra de 15 de Fevereiro). Além de uma agenda europeia constituída a partir das datas de luta do mosaico de movimentos que ali se fará representar, continua em aberto o debate sobre uma mobilização em torno da Constituição Europeia e do alargamento da UE a dez novos países a Leste. A dificuldade está no desenvolvimento combinado mas desigual das políticas europeias em cada país, com ritmos e modalidades distintas, bem como no desacordo entre os movimentos face ao projecto de Constituição – rejeitá-lo ou reformá-lo? -, que faz com que largos sectores não estejam preparados para assumir campanhas por um "Não".
Igualmente em discussão, estão as mobilizações contra a guerra: existe um apelo dos movimentos norte-americanos contra a guerra para uma grande mobilização a 20 de Março – primeiro aniversário do ataque dos EUA ao Iraque –, e os movimentos italianos lançaram a ideia de uma caravana de milhares de europeus, contra a guerra e todas as ocupações, pela defesa do povo palestiniano, que irá atravessar a Palestina, o Iraque, o Irão e o Kurdistão.
Radicalizar ou "abrandar"?
Se pela leitura do programa, Paris parece em tudo ser uma continuidade de Florença, a verdade é que os ritmos e lógicas de preparação do dito, e mesmo a sua composição, estão a mudar. Em França, a social-democracia, com um peso diferente que em Itália, está presente em força com propostas reformistas e institucionalizantes. Estas, acabam por exercer a sua pressão em conjugação com o desejo expresso de "abrandamento do processo" por parte dos partidos comunistas tradicionais (o nosso incluído), que nas assembleias europeias de preparação parecem temer mais o movimento alter-globalização do que parecem integrar-se nele. É daqui que surgem propostas de redução da frequência anual dos fóruns sociais europeus e um formalismo burocrático limitador (apesar de se falar em Londres 2004).
Uma burocratização que determina hierarquias informais entre movimentos, dificulta o acesso à tomada de decisões para o FSE e para as iniciativas que venha a convocar a AMS, tende a secundarizar as lutas contra o patriarcado, a homofobia e outras e dificulta financeiramente, pelas suas práticas, a participação nas assembleias europeias de preparação, – quem tem dinheiro para viajar de reunião em reunião, para mais em dias de semana (os organizadores não terão que trabalhar como toda a gente?!) senão funcionários pagos de organizações ou redes já muito estruturadas?
As relações de forças que aqui se jogam entre a institucionalização e a burocracia, de um lado, e a continuação, sem esses travões, do processo de radicalização dos movimentos que está em curso, por outro, voltarão a ser disputadas em Novembro. Outros episódios vão entretanto ilustrando as dificuldades que se estão a colocar ao Fórum: um dos grandes conflitos à volta da sua organização é devido à utilização, pelo FSE, de salas da multinacional francesa da distribuição e media "Pathé", em Ivry. O subúrbio de Ivry é de autarquia PCF e há eleições locais em França daqui a seis meses, o que está na origem das pressões que levaram à decisão de utilização. Situada a 20 minutos de comboio de Paris, é a localidade mais isolada das quatro em que se desenrolarão os eventos (St Denis, com capacidade para 13 mil pessoas em eventos simultâneos e La Villete - 6 mil -, mais o subúrbio de Bobigny, com 8 mil). As iniciativas que forem colocadas nesta zona serão aparentemente prejudicadas.
O grupo "Pathé" é, no sector privado, um dos maiores adversários das muito recentes greves dos "Intermitentes" em França, que aliás ameaçam com acções de boicote das ditas instalações. É verdade que a um mês do FSE, o abandonar destas salas poderia provocar enormes problemas financeiros e logísticos à organização (lugar para 8 mil pessoas em eventos simultâneos). Mas nada disso apaga a contradição política, que é evidente e prioritária. Cabe-nos saber mobilizar os movimentos sociais em que nos integramos para o envolvimento no FSE e no movimento alter-global. Para que, com as suas dinâmicas e lutas próprias, estes desarmem as tácticas políticas de instrumentalização do processo, alheias aos seus interesses, e imponham a única política que interessa, aquela que estes utilizam para quotidianamente transformar o mundo em que vivemos.
Sérgio Vitorino
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.