Memória de um anti-imperialismo sentadinho: Todos com os talibans!
Bloco e APSR2009O recente texto da Ruptura/Fer acerca de como o Bloco de Esquerda “capitula ao imperialismo” recordou-nos um interessante debate recente acerca de como os revolucionários deveriam opor-se ao imperialismo no contexto da guerra do Afeganistão – que ainda hoje se prolonga. De facto, não é de agora esta capacidade da Ruptura/Fer em determinar, com uma segurança inabalável, como se deve comportar cada organização revolucionária em qualquer parte do mundo, e em particular em distribuir condenações fatídicas contra aquelas que “capitulam”.
A história conta-se em poucas palavras. A LIT, a organização internacional da Ruptura/Fer, com sede em São Paulo, enviou uma carta ao Partido dos Trabalhadores do Paquistão (LPP, Labor Party of Pakistan) intimando os seus dirigentes e militantes a combaterem sob o comando dos talibans no Afeganistão. Farooq Tariq respondeu em nome do LPP (toda a polémica aqui, em inglês) lembrando simplesmente que, se os militantes
paquistaneses, ateus e revolucionários, se colocassem ao serviço
dos talibans, seriam sem dúvida gentilmente assassinados por estes e de imediato, tornando pouco útil o seu gesto generoso.
Acresce ainda, lembra Tariq, que os revolucionários não se colocam ao serviço do fundamentalismo religioso, são seus inimigos e querem vencer a sua influência popular – essa era a razão que já levava a Internacional Comunista a denunciar o fanatismo islâmico nos países orientais e a não o confundir com o anti-imperialismo. Assim, a ideia da LIT segundo a qual “os talibans representam o progresso precisamente porque põem em causa o barbarismo imperialista” era e continua a ser um disparate criminoso.
Os talibans nasceram dos mujahedins, os fundamentalistas financiados e armados pela Arábia Saudita e pelos Estados Unidos – um bom começo para tal “anti-imperialismo” que representa o “progresso”.
Mas, é claro, um anti-imperialismo sentadinho em São Paulo ou em Lisboa não se preocupa com esses detalhes, desde que os militantes revolucionários paquistaneses obedeçam ao seu comando para se juntarem às forças militares do fundamentalismo islâmico. Senão, arriscam-se à condenação eterna, porque recusar é capitular.
Resta dizer que os comandantes anti-imperialistas não levaram a sua posição até à sua consequência. Apesar de exigirem a outros que o fizessem, eles próprios não constituíram brigadas internacionais para “combaterem” ao lado dos talibans e ficaram sentados em casa. Felizmente, porque assim puderam continuar a brindar-nos com a sagacidade infindável do seu anti-imperialismo instrutivo e a condenar os que capitulam não seguindo as suas instruções.