combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Heloísa e a IV Internacional

até julho de 2009 · Internacional · 2.276 palavras

Heloísa Helena é a candidata da esquerda às próximas eleições presidenciais do Brasil. Depois do processo que levou a senadora a sair do PT em oposição às práticas políticas do "mensalão" e ao rumo direitista do governo Lula, Heloísa dá a cara por uma campanha popular que tem tido alguma cobertura por parte da imprensa brasileira. Em baixo podes ler algumas entrevistas e notícias publicadas recentemente, em que a candidata assume a sua ligação à IV Internacional. Os socialistas de todo o mundo olham com expectativa para esta candidatura e está em marcha um movimento de apoio a Heloísa Helena, que conta já com as assinaturas do realizador Ken Loach e de dirigentes políticos, sindicalistas e intelectuais como Daniel Bensaïd, Slavoj Zizek, Francisco Louçã, Sue Branford, Claudio Katz, entre outros.

O Estado de S. Paulo - 30/07/2006

Heloísa, uma pregadora nas ruas

Candidata ronda eleitores de Lula com discurso duro, embalado por retórica

similar à dos pastores evangélicos

SUCESSÃO

Paulo Moreira Leite - ENVIADO ESPECIAL RECIFE

Concorrente nanica que ameaça virar gente grande na campanha, a senadora do

PSOL Heloísa Helena passou a semana entre dois mundos. Um deles é o da

militante da 4ª Internacional, organização com sede em Paris que reúne

entidades e lideranças de várias partes do mundo, uma das sucessoras de um

agrupamento internacional fundado pelo líder revolucionário russo Leon

Trotski. O outro é o mundo de uma candidata que já reuniu 10 milhões de

votos, conforme os institutos de pesquisa.

Heloísa diz que tem dois adversários, a 'farsa política' e a 'farsa

técnica', ou seja, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o candidato do

PSDB, Geraldo Alckmin. Sua campanha tem sido estimulada descaradamente pelos

caciques do PFL e do PSDB, que nela vêem a alavanca à esquerda para

assegurar um segundo turno, e hostilizada na mesma medida pelo Palácio do

Planalto. Diz um assessor de Lula: 'Não condenamos uma candidatura própria.

Mesmo nossa história foi assim. Mas ela não distingue os adversários, não

diz que a prioridade é vencer o Alckmin'.

Nos últimos dias, a campanha de Heloísa fez pontaria nos antigos eleitores

de Lula. Capaz de ler trechos do Evangelho antes dos comícios, a candidata

andou em busca de audiência junto às tradicionais bases petistas com seu

clássico discurso de pregação e denúncia embrulhada numa retórica de

fundamentalista, típica de pastores do tele-evangelismo que dizem manter

diálogos diretos com Deus.

Após um salto inicial nas pesquisas, surgiram dúvidas sobre sua capacidade

de crescimento, reforçando a impressão de que pode ter atingido o teto

político.

Na segunda-feira, em São Bernardo, berço do PT, ela fez uma caminhada pelo

centro e depois um comício na Igreja Matriz. Não chegou a reunir mais do que

200 pessoas, em sua maioria candidatos, militantes e aliados do PSOL e do

PSTU.

Em seguida, um grupo um pouco menor - integrado em parte pelas mesmas

pessoas - fez uma caminhada pela Avenida Paulista. Na quinta-feira, ela fez

uma passeata em Belo Horizonte e depois foi à siderúrgica Mannesmann. Não

faltaram alto-falantes nem bandeiras vermelhas. Mas os operários não

apareceram.

Apenas um, o operador de produção Messias Carlos de Oliveira, de 40 anos,

parou para falar com a candidata. 'O Lula não foi ruim', diz ele. 'Mas a

Heloísa Helena tem um discurso bom, é uma mulher de ...' E fecha o punho em

forma de soco. Centenas de trabalhadores que tomavam o caminho de casa no

mesmo horário, rosto lavado e banho tomado, ficaram parados na porta dos

ônibus, com panfletos na mão, em silêncio, indiferentes à pregação da

senadora.

REDUTO DE LULA

Na manhã seguinte, no Recife, em visita à Ilha de Deus, comunidade de 450

famílias de pescadores e péssimos indicadores sociais, ela chegou cedo e

conversou muito. Os moradores observavam que foi a primeira vez que um

candidato a presidente visitou o lugar em toda a sua história e que ela foi

um dos poucos políticos que não apareceram em companhia de policiais, que

mais tarde retornam para cobrar votos e ameaçar.

Ali a senadora visitou a única escola e, quando foi embora, cinco das seis

professoras presentes disseram que votariam nela em 1º de outubro. Mas os

moradores, que residem em palafitas, não se empolgaram tanto.

Uma em cada dez famílias com filhos na escola recebe Bolsa-Escola, programa

de ajuda da prefeitura, que também é do PT. 'Este ano ninguém tira a eleição

do Lula, ao menos dessa vez', opina Edson Fly, estudante de jornalismo que é

uma força local: ator popular, líder comunitário, ativista político e

eleitor de Heloísa. Até a mãe do remador que levou a senadora para dar um

passeio de barco anunciou voto em Lula, ainda que o filho seja eleitor de

Heloísa.

Admirada por seu caráter, a senadora é uma candidata à procura de uma base

social. Tem votos avulsos, dispersos e contraditórios. Os eleitores a

procuram nos aeroportos, sentam ao seu lado, querem fotos. Na rua, seu olhar

atravessa a fronteira de bandeiras vermelhas que faz fronteira entre a

militância e o universo dos milhões de eleitores para localizar o cidadão

comum na calçada, a senhora que volta das compras, os deserdados de muitas

coisas.

A candidata é capaz de deixar o cortejo para um abraço nos eleitores, que

localiza com os olhos e vai atrás. Com a mão direita, abençoa as pessoas e

às vezes diz amém. As mulheres ficam mais à vontade, se emocionam e estão

muito presentes, por identificação, já que a candidata não é uma campeã de

causas femininas. 'Tenho orgulho dela', disse a funcionária pública Alcione

Alves, na Avenida Paulista. 'É uma pessoa com princípios.' Para a viúva

Maria Jorge dos Santos, de 63 anos, oito filhos, de Belo Horizonte, 'está na

hora de votar numa mulher'. 'O presidente é o pai da Nação. Mas, quando o

pai não é organizado, os filhos passam necessidade', diz. Professora

aposentada de São Bernardo, Nadija Maria Tot foi ver o comício de Heloísa

com um cartaz que diz: 'Mulher é a solução.' Na sexta-feira, um pai de

família aproximou-se dela no Aeroporto de Guararapes, no Recife. Queria

tirar um retrato dela com Guilherme, menino de uns três anos, que a

candidata colocou no colo e logo chamou de 'Gui'. O prefeito do Rio, César

Maia (PFL), escreveu em seu ex-blog que ela deveria beijar crianças para

ganhar votos. 'Mãe dá voto', disse. Heloísa, que beija crianças às dúzias,

diz que nem soube do conselho e sempre foi assim. 'Elas me procuram.'

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´Socialismo é declaração de amor à humanidade´

Senadora admite, porém, que nenhum país vivencia hoje a experiência que ela

sonha implantar no Brasil se ganhar a eleição

Entrevista Heloísa Helena, candidata à Presidência do PSOL

Paulo Moreira Leite- ENVIADO ESPECIAL RECIFE

Entre comícios e discursos, na semana passada, a candidata do PSOL à

Presidência, senadora Heloísa Helena (AL), deu dois depoimentos ao Estado.

Num deles, assumiu a condição de militante do Secretariado Unificado da 4ª

Internacional. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Como a senhora vê a presença de tantos grupos com um discurso revolucionário

na sua campanha?

Com naturalidade. Sou socialista, mesmo achando que não vou vivenciar a mais

bela declaração de amor à humanidade, que é o socialismo, um regime que diz:

'De cada um conforme sua possibilidade, a cada um conforme sua necessidade.'

Não existe nenhum país vivenciando essa experiência no planeta Terra, que é

um socialismo democrático, como eu defendo. Quando alguém me fala de luta

armada eu respondo brincando: esse pessoal não sabe nem mexer com canivete,

como vai falar em luta armada?

A senhora tem uma militância na 4.ª Internacional?

Sim.

Como é isso?

Tenho ligação com os dirigentes. A gente se reúne para discutir o presente,

o futuro.

A formação do seu partido foi apoiada pela 4.ª Internacional?

Foi.

A senhora discutiu com eles?

Esses detalhes não vou dizer.

Por quê?

Porque não.

Mas não seria mais transparente?

Não vou dizer.

Assessores do governo cobram a senhora por não deixar claro que o inimigo

principal, do PT e do PSOL, é a volta do PSDB.

O inimigo principal é a representação do projeto reacionário, neoliberal

brasileiro, representado pelo governo Fernando Henrique Cardoso e pelo

governo Lula. A partir do momento em que o Lula assume a Presidência pelas

mãos livres e belas do povo brasileiro, e legitima o projeto neoliberal,

isso foi mais grave ainda, pois amordaçou toda a resistência dos movimentos

sociais.

A senhora poderia apoiar Lula no segundo turno?

Eu penso que vou estar no segundo turno.

Como a senhora vê a atuação do presidente da Venezuela, Hugo Chávez?

Compreendo as diferenças que separam o Chávez do George W. Bush. Um

simboliza a resistência ao projeto neoliberal na América Latina. O outro,

que é o império do mundo, simboliza guerras, assassinatos. Mesmo

compreendendo essas diferenças, se eu tiver a honra de chegar à Presidência,

aqui não vai mandar nem o Chávez nem o Bush. Cada um tomará conta de seu

país e nós teremos todas as relações que forem do interesse do povo

brasileiro.

A senhora está preparada para a hipótese de perder a eleição?

Estou preparada para as duas tarefas. Para ganhar a eleição e para retornar

à Universidade Federal de Alagoas.

A senhora se considera preparada para ocupar a Presidência?

Se eu tivesse esse sentimento de despreparo para ocupar a instância máxima

de decisão política jamais iria fazer campanha. Eu me sentiria uma

vigarista. Claro que reconheço que ninguém é completamente preparado para

agir em todas as áreas. Isso é humanamente impossível. Mas desde os tempos

da universidade sempre fui interessada em problemas de governo, sempre me

dediquei a lidar com políticas sociais, com orçamento, a compatibilizar

receitas e gastos. As pessoas dizem que eu ainda não superei a fase dos por

quês: Por que esse gasto? Por que esse dinheiro?

A senhora fala em abaixar os juros. Isso seria feito por decreto?

Existem vários decretos presidenciais que estruturam a rotina do Banco

Central. São decretos que definem o cálculo de inflação, que alteram a meta

da inflação e muitos outros. Mas não haverá a necessidade de um decreto para

mudar os juros. Eles são definidos pelo Conselho Monetário Nacional (CMN),

que, em meu governo, terá outros integrantes, de acordo com nossa visão.

Queremos um crescimento de pelo menos o dobro do atual e juros compatíveis,

da ordem de 6,5%.

A senhora não teme uma reação dos investidores estrangeiros?

A legislação impede a fuga. E eles iriam para onde? Para a Turquia? Eles

ficarão.

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Movimento que inspira senadora vem de Trotsky

Fundada por Leon Trotski como uma tentativa de preservar o movimento

comunista depois da ascensão de Josef Stalin, a 4.ª Internacional tornou-se

uma organização sem grande base social, com uma rotina de divisões e

subdivisões.

Uma delas é o Secretariado Unificado, que no Brasil ajudou a formar a

Democracia Socialista, corrente petista da qual Heloísa Helena fez parte até

a formação do PSOL. Nos anos 60, o Secretariado Unificado ajudou a formar,

no Brasil, o Partido Operário Comunista (POC), que foi integrado por Jorge

Mattoso, ex-presidente da Caixa Econômica Federal, e Marco Aurélio Garcia,

assessor de Lula.

Outra corrente é liderada pelo sindicalista francês Pierre Lambert, que

participou da resistência contra a ocupação nazista durante a Segunda

Guerra, e integrada, no Brasil, pelos militantes de O Trabalho, que seguem

dentro do PT. No movimento estudantil dos anos 70, essa corrente era

conhecida como Libelu e atraiu personalidades que, mais tarde, sem ligações

com O Trabalho, fizeram carreira importante no governo Lula, como os

ex-ministro Luiz Gushiken e Antonio Palocci.

O PSTU, que deixou o PT há mais tempo, e hoje está na campanha de Heloísa

com candidatos em vários Estados, tem sua origem em outra liderança

trotskista, o argentino Nahoel Moreno. P.M.L.

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Senadora critica ´liberou geral´

Candidata afirma que Lula está sendo irresponsável

Roldão Arruda

A candidata do PSOL à Presidência, senadora Heloísa Helena (AL), acusou

ontem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de irresponsável, por ter

contingenciado recursos durante três anos e agora, em ano eleitoral,

apressar a liberação de verbas em troca de apoio à reeleição.

Em campanha em Osasco, na região metropolitana de São Paulo, a senadora

disse: 'É uma demonstração de irresponsabilidade fiscal e administrativa o

governo patrocinar três anos de arrocho, de contingenciamento, de não

liberação de recursos e, no ano eleitoral, fazer o liberou geral, num

verdadeiro desvario. Isso é muito grave.' No fim da manhã, rodeada por

militantes dos partidos da Frente de Esquerda, Heloísa caminhou pelo

calçadão do centro de Osasco e cumprimentou pessoas. Ao falar sobre o

déficit nas contas do sistema previdenciário, garantiu que ele não existe de

verdade. 'Não existe rombo. Isso já foi demonstrado com toda exatidão pelo

Tribunal de Contas da União ao analisar as contas do governo de 2005. A

seguridade social é superavitária em 52 bilhões.' Contradizendo Lula e

Geraldo Alckmin (PSDB), que estão à sua frente nas pesquisas de intenção de

voto, a candidata disse que a Previdência Social não precisa de mais

reformas para reduzir o déficit. Na sua opinião, é até possível ampliar os

benefícios pagos. 'Em dezembro, com a extinção da desvinculação de receitas

da União, existe possibilidade concreta de ampliar o atendimento na área da

saúde pública e assistência social.' À tarde, a senadora participou do ato

de lançamento da candidatura à reeleição do deputado Ivan Valente,

ex-dirigente petista que, como ela, aderiu ao PSOL.

No Teatro Maria Della Costa, ao lembrar perante os militantes as

dificuldades que está enfrentando para fazer a campanha, a exaustão física e

o afastamento dos filhos, ela chorou. 'O que mais anima é o carinho e a

generosidade das pessoas que encontro, das mais simples às mais

sofisticadas.'

Fonte: combate.info, cópia do Internet Archive de 2012.

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