Timor: A LIT contra a independência
Bloco e APSR2009O debate nacional sobre a questão de Timor tem sido obscurecido, em alguma medida, por uma cortina de fumo. Referimo-nos à explicitação das posições de uma corrente minoritária, a Ruptura-FER, e da sua organização internacional, a LIT. Assinale-se que esta organização tem uma visão do que deve ser uma corrente internacional que é herdada de Zinoviev: uma Internacional é um partido que decide a orientação política de cada uma das suas secções, que lhe são subordinadas. Essa subordinação torna mais importante que se conheça sobre matérias sensíveis a opinião e a directiva da LIT, para se perceber como pensa e como age a Ruptura-FER. Essa opinião pode resumir-se numa escolha: recusar a independência de Timor-Leste.
Em 1999, quando a Fretilin ganhou esmagadoramente o referendo pela independência e, perante a chacina praticada pelas milícias pró-indonésias, apelou à presença da ONU para garantir o fim da ocupação militar estrangeira e a constituição do Estado independente, a LIT decidiu que só havia um caminho: acusar a Fretilin de capitulação perante o “imperialismo” da ONU e apoiar as forças de resistência “anti-imperialista”, que seriam nem mais nem menos do que as milícias Aitarak, dirigidas por Eurico Guterres (agora condenado a 10 anos de prisão na Indonésia por genocídio). Assim, a LIT escolheu apoiar as forças anti-independência. Nunca se arrependeu, nunca reconsiderou, nunca achou que o começo da constituição do Estado independente tivesse demonstrado o seu erro catastrófico.
Pelo contrário, persiste na mesma posição. Um número recente do “Marxismo Vivo”, a revista teórica da LIT, insistia na argumentação:
“En Portugal, la LSR (la sección del SU en ese país [quer dizer o PSR, mas o teórico tem pouca informação]) y el Bloque de Izquierda de cual es parte, durante el conflicto del Timor Este “exigían” a la ONU que mandara tropas a invadir ese país. Por su parte el PST del Timor, una organización que se reivindica trotskista, no se conformó con eso: una vez que las tropas invadieron se integró al gobierno provisorio montado porla ONU. Poco tiempo después su principal dirigente participó en una conferencia internacional organizada por el DSP de Australia y lejos de ser expulsado del plenario, fue recibido por los delegados de más de 50 organizaciones, que se reivindican marxistas revolucionarias, con una ovación.
Podríamos dar centenas de ejemplos más y en todos ellos veríamos el mismo problema: la mayoría de las organizaciones que formaban parte del marxismo revolucionario ha abandonado la lucha por la dictadura del proletariado, es decir la lucha por la revolución socialista y están profundamente adaptadas a los regímenes democráticos burgueses de sus respectivos países o caminan en esa dirección.”
Este texto é prova de uma confusão absoluta. O PST timorense não é uma organização trotsquista. Tem origem num grupo de jovens radicalizados, com influência maoista e em transformação ideológica, agora com contactos predominantes com o DSP australiano (uma organização que coopera com a IVª Internacional mas que dela não faz parte). O PST nunca esteve no governo timorense: tem um deputado no parlamento e assume a sua política própria.
Mas o mais importante no texto é acusar o Bloco de Esquerda de “exigir à ONU que mandasse tropas para invadir esse país”. Curiosamente, a Ruptura-FER nunca fez tal acusação ao Bloco e manteve-se calada, por vergonha desta posição e por não ter coragem em assumir a sua consequência explícita: o apoio a milícias fascistas e pró-indonésias. É sempre interessante que uma tal capitulação perante a direita seja disfarçada com a pretensão da defesa da “ditadura do proletariado” e da revolução socialista.
Seria no entanto um problema meramente histórico, se não tivesse renascido agora com a recente crise timorense. O comunicado do Ruptura-FER sobre o assunto defendia os militares revoltosos e chegava a citar o major Alfredo Reinado, interpretando a revolta como a luta do povo mais pobre contra a clique corrompida pelo dinheiro do petróleo. Incapazes de perceber o que quer que seja da crise timorense – nem os partidos, nem os protagonistas, nem a história – essa posição alinhava com a banalização ou desconsideração do golpe de Estado promovido pelas forças pró-australianas, chefiadas por Ramos Horta e com o apoio de Xanana Gusmão, para destitiuir o governo de Alkatiri, que tinha feito frente aos interesses petrolíferos australianos. O interesse da Casa Branca no derrube deste governo é indesmentível, no contexto do reforço dos poderes regionais dos seus aliados e com a estratégia de criação de uma base militar australiana em território timorense.
É claro que uma corrente política se pode enganar. Mas deve aprender com a realidade. Só se aprende se se escolhe um caminho para a luta de classes: em Timor, o problema central é o da independência. É essa independência que está a ser destruída. É ela que deve ser defendida. Um país sem estrutura social moderna, sem classe operária, sem indústria, economicamente subordinado, terá sempre muita dificuldade em ser independente e em se desenvolver. Recusar a luta por esse desenvolvimento, mesmo que em nome da “ditadura do proletariado”, é prova de insensatez e de capitulação.